© Valerie Veatch

Indie Lisboa ’26 | Ghost in the Machine, a Crítica

A edição de 2026 do IndieLisboa continua até ao próximo domingo 10 de maio na capital portuguesa. A MHD está a acompanhar o festival e trazemos-te hoje a crítica ao muito relevante filme “Ghost in the Machine” (2026, Valerie Veatch).

Selecionado para a secção “Rizoma”, este documentário é uma análise histórica e contemporânea sobre a Inteligência Artificial. Podemos viver sem ela hoje? Quais os perigos e quais as vantagens? Valerie Veatch traz-nos um relevante filme para os dias de hoje e para o futuro.

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Qual a narrativa de Ghost in the Machine?

Bruno Abib e João Pedro Fonseca apresentam “Ghost in the Machine” | © Bruno Teixeira / MHD

“Ghost in the Machine” faz parte da seleção oficial da 23.ª edição do IndieLisboa, na secção “Rizoma”. Esteve em exibição no passado sábado 2 de maio e anteontem, terça-feira 5 de maio. Ambas as sessões decorreram na Culturgest e com conversa no final da sessão. A MHD assistiu ao filme anteontem numa sessão que foi também aberta às escolas.

Após a sessão, a conversa com Bruno Abib (cineasta) e João Pedro Fonseca (artista e investigador) foi altamente relevante para que refletíssemos um pouco mais sobre o que é a Inteligência Artificial (IA). De que forma ela pode ou não ser usada e até sobre o facto da IA, além de ser um produto do poder, estar a tirar recursos essenciais à população pobre, nomeadamente pelo facto dos ‘data centers’ consumirem demasiada água, especialmente em locais onde a mesma é escassa, como na África (tal como o documentário denuncia)…

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Trata-se da terceira longa-metragem de Valerie Veatch, realizadora norte-americana cuja filmografia se tem centrado à volta da tecnologia. Este “Ghost in the Machine” é um documentário relativamente lúdico onde a realizadora vai até às origens da inteligência artificial, referenciando-se ao eugenismo (ainda no século XIX), até ao momento atual onde os ‘data centers’ das grandes tecnológicas invadem vários países.

Entre registos de arquivo, videochamadas, alguns planos contextuais de locais e algumas (poucas) imagens de inteligência artificial, Valerie Veatch dá-nos uma leitura bastante alargada sobre a praga da inteligência artificial na sociedade atual e de que forma foi vista ao longo das décadas. Sim, décadas, porque a inteligência artificial não surgiu apenas há meia dúzia de anos…

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Uma importante reflexão sobre a inteligência artificial

Apresentação "Ghost in the Machine" - IndieLisboa
Bruno Abib e João Pedro Fonseca apresentam “Ghost in the Machine” | © Bruno Teixeira / MHD

“Ghost in the Machine” é um filme extremamente relevante e que demonstra que a IA não é um fenómeno assim tão recente quanto parece e que não é um ‘produto’ de um homem só, tendo várias mentes (sobretudo, pessoas com dinheiro e também poder), aperfeiçoando a IA ao longo do tempo.

Dividido em vários capítulos, Valerie Vaetch vai aprofundando em cada um deles as raízes históricas – provenientes ainda do final do século XIX – as ‘ideias’ dos mentores e o que o futuro da IA nos reserva.

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Eticamente, Valerie Vaetch optou igualmente por identificar no canto superior direito de todos os planos o que é ou não construção da inteligência artificial. AI / Not AI, lê-se ao longo do filme.

Curiosamente, num filme sobre inteligência artificial, a percentagem de imagens criadas por IA não é assim tão grande o que também é relevante como forma de leitura crítica desta ‘ferramenta’. É, inclusive, muito curiosa a forma como a realizadora mostra deliberadamente as falhas da IA, nomeadamente nos planos onde personagens bebem e expelem simultaneamente uma bebida.

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Uma junção de imagens de múltiplas origens

Ghost in the Machine
© Valerie Veatch

“Ghost in the Machine” é um filme que não nos traz respostas fechadas sobre a inteligência artificial. Longe disso. Valerie Vaetch procura com o seu filme dar-nos uma reflexão relativamente aprofundada sobre a IA. Para isso mesmo, o filme tem múltiplas origens nos planos e é um filme muito acelerado, tal como a própria tecnologia e a IA demonstram ser.

A realizadora utiliza imagens de arquivo a preto e branco e a cores, imagens de programas de televisão, alguns (poucos) planos filmados de contexto – como localização espacial -, tweets que surgem no centro do plano totalmente negro à volta e, o mais curioso é ter entrevistas com diferentes investigadores, historiadores, etc., sempre no registo de videochamada. Assim, este é um filme ‘simples’ no sentido em que muito pouco teve de ser filmado e pensado em termos de ‘mise-en-scène’ e o documentário foi (quase) totalmente construído na pós-produção. Não é ‘simples’, no entanto, na sua estrutura e, certamente, nos seus custos. Com tantos arquivos, a produção ainda teve de gastar algum dinheiro…

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Uma estrutura muito densa em Ghost in the Machine

Ghost in the Machine
© Valerie Veatch

Estruturalmente, “Ghost in the Machine” é um filme demasiado denso. Há muita coisa a acontecer, especialmente em simultâneo. Ao mesmo tempo que ouvimos os testemunhos, queremos ler o que está escrito no ecrã. É impossível, num primeiro visionamento, conseguir apanhar em detalhe tudo o que é dito ou mostrado no filme. O final, por si só, é logo sintomático disso, com tantos curtos planos a sucederem-se em pequenos ‘flashes’.

Apesar de tudo isso, “Ghost in the Machine” é um filme bastante lúdico e urgente para refletirmos. Se a IA é uma ferramenta que nos ajuda diariamente, ela também não é uma criação etérea. Teve de ser criada por pessoas e o que o filme demonstra é como toda a origem da IA está ligada aos homens que “deram à luz” a IA, como é mesmo dito no filme, porque só as mulheres conseguem realmente “dar à luz” e, desta forma, há um certo prazer nos homens. Mas, mais do que isso, a IA, não tendo consciência, pode dizer o quer que seja que os homens lá metam, daí o conceito “slopaganda” que dá nome a um dos títulos. Desde logo, os exemplos que vemos do avatar que elogia Hitler ou a criação que Elon Musk mostra de uma ‘mulher’ artificial que só diz palavrões, é elucidatória.

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As origens da Inteligência Artificial

De forma lúdica, percebemos que a origem da IA está ligada ao eugenismo, um conceito de Francis Galton, cunhado em 1883. Pretendia-se construir o ser humano perfeito e, com isso, ‘deitar fora’ todo o ser humano imperfeito. É isto que depois cria o nazismo, o fascismo e qualquer totalitarismo. É o poder, sempre, o poder. E é o homem de poder que tem a ‘massa’ para dar ‘vida’ à IA: o ser perfeito e (quase) divino. Quando o prof. John McCarthy num programa de televisão nos anos 1950 mete toda a plateia a rir ao usar o termo “inteligência artificial” percebemos o quanto a população é ingénua a tudo e o problema da IA é mesmo esse. Facilita-nos trabalho, é certo, mas também não traz verdades absolutas e inventa mesmo muito. Quantos livros ou filmes o ChatGPT já inventou? Centenas, milhares…

Temos de conviver com a inteligência artificial mas ainda temos de ter a racionalidade de pensar. A falta de pensamento leva a uma população acrítica, precisamente aquilo que o poder, os ricos e os autoritários querem. Treinemo-nos a nós mesmos!

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Conclusões sobre Ghost in the Machine

Em suma, “Ghost in the Machine” não é só um filme essencial de 2026, é um filme essencial para o futuro. Ganharia mais se não fosse tão denso e nos desse mais respiração, mais pausas. Mas, para o tema que é, é compreensível e poderemos fazer o esforço de o ver uma segunda vez.

Agora, o importante é o documentário ganhar distribuição portuguesa e que o mesmo seja visto e contextualizado. É importante mostrar o filme nas escolas, sim. Mas também pode mostrar-se faseadamente. Isto porque uma das queixas de uma das professoras presentes na sessão era mesmo o registo recorrente da entrevista para o qual os alunos podem desmotivar-se… Mas, mais do que isso, é importante um debate/reflexão após cada visionamento, tal como o IndieLisboa o fez.

Ghost in the Machine

Conclusão

  • “Ghost in the Machine” é uma importante reflexão documental sobre a Inteligência Artificial. Recorrendo a arquivos, entrevistas, imagens da internet e algumas (poucas) imagens geradas por IA, é uma proposta didática para pensarmos sobre esta ferramenta.
  • Valerie Vaetch desconstrói o lado contemporâneo da IA que antecede até a criação dos computadores.
  • O filme peca por ser demasiado denso e por demasiadas vezes ter demasiadas informações textuais e orais em simultâneo. Ganhava com algumas pausas e menos aceleração.
Overall
7/10
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