O 23.º IndieLisboa decorreu entre os dias 30 de abril e 10 de maio, com mais uma programação arrojada e diversificada, criando uma imagem plena do cinema independente a nível planetário. E embora o festival tenha já terminado, continuamos a recordar alguns dos seus maiores destaques.
Um deles ocorreu logo no primeiro fim de semana, ou mais precisamente no primeiro dia do certame. Na Culturgest e a 30 de abril, pudemos ver a primeira exibição nacional do filme de terror “Obsession”, em antecipação da sua estreia comercial em Portugal e mesmo antes da estreia da obra a nível internacional.
Do TIFF para Lisboa – Um trunfo na Boca do Inferno

“Obsession” chegou a Portugal já muito bem embalado, tendo sido um dos títulos notáveis do TIFF – Toronto International Film Festival, um dos favoritos do público no festival Texano South By Southwest e ainda um dos premiados no catalão Sitges. Por cá, no IndieLisboa, foi apresentado como parte integrante da secção “Boca do Inferno”, introduzida pelos seus programadores como uma das mais divertidas do festival. Sem dúvida, a secção dedicada ao bizarro, ao fora da norma, ao sobrenatural, ao terror e ao incomum nunca falha ano após ano, e não há como não concordar com esta afirmação.
A obra, esta, continua a viver da aura prolongada de grandes obras de terror e do fenómeno de “terror elevado” que tem vindo a desenvolver-se nos últimos 15 anos. Do terror social de Jordan Peele às impressionantes paisagens visuais e psicológicas de Ari Aster, passando por fenómenos ainda mais recentes como “The Substance” ou “Weapons”, o sobrenatural e o terror continuam a impressionar e a penetrar cada vez mais o mainstream.
Curry Barker é uma nova promessa do terror com Obsession
Ora, “Obsession” é outro fenómeno meritório destes anos de ouro, e é já uma das nossas estreias favoritas do ano, mesmo antes do seu lançamento comercial. Escrito e realizado por Curry Barker, “Obsession” é apenas a segunda longa realizada pelo cineasta norte-americano, mas este mune-se de uma casa grande do terror, a Blumhouse (“Insidious”, “Split”, “The Purge”) como sua produtora e apresenta já um conhecimento aprofundado dos grandes trunfos do género.
Tudo começa, como habitualmente, com uma boa premissa. O protagonista Bear (Michael Johnston) nutre uma paixão que roça o pouco saudável por Nikki (Inde Navarrette), colega de trabalho e uma das suas melhores amigas de infância. Mas sem ver o seu amor correspondido, acaba por encontrar uma solução alternativa para o seu problema: compra numa loja um mítico “One Wish Willow”, um bizarro brinquedo de infância que lhe permite pedir um desejo, qualquer desejo e vê-lo de imediato cumprido.
O desejo de Bear é que Nikki o ame mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. E aqui, o diabo e a descida aos infernos, depende inteiramente da formulação frásica. Pois Bear não pediu que Nikki o amasse de igual medida, ou simplesmente que correspondesse a sua paixão. Antes, impôs-lhe uma co-dependência pouco saudável que se revela a fonte tanto para o terror como para a comédia de “Obsession”.
Sim, porque “Obsession”, que em Portugal vai adquirir o piroso mas adequado subtítulo “A Felicidade é Relativa”, é uma comédia de terror capaz de nos fazer rir e de nos aterrorizar em igual medida. Os seus cenários são extremos, bizarros, excessivos e por vezes nojentos, recordando-nos por vezes outra referência do terror, Sam Raimi, nomeadamente o seu delicioso “Drag me To Hell”.
A comédia, o terrorífico e os limites do amor no IndieLisboa
Na obra de Curry Barker, os jumpscares nunca são baratos, surgindo nos momentos mais oportunos e provocando real e digna surpresa. Além disso, apesar de não ser propriamente inovador do ponto de vista visual, é muito astuto na forma como brinca com a luz e com as sombras. Uma vez “hipnotizada” pelo desejo, Nikki surge na escuridão como uma figura quase demoníaca, com o olhar enfeitiçado e o rosto escondido pelas trevas. Estes jogos de contrastes e de luz são muito satisfatórios, enfatizando o trabalho já de si bastante interessante que Barker construiu a nível do argumento.
O maior trunfo é quiçá, a capacidade que o argumento de “Obsession” tem em comentar e inverter as “tropes” das comédias românticas e dos filmes românticos em geral. Ao fim de contas, a promessa de “amor eterno” pode acabar por ser uma faca de dois gumes, e por nos reservar nada senão excessos.
Uma relação co-dependente e sem espaço pessoal, onde os limites pessoais do casal se confundem, acaba por ser uma relação condenada ao falhanço. E entre o seu horror físico e a sua comédia excessiva, “Obsession” consegue tocar num tema bastante pertinente e fazer um comentário exemplificativo e exacerbado sobre os limites daquilo que consideramos como “amor”.
Há também que considerar a excelente prestação de Inde Navarrette na pele de Nikki. Ela berra, chora, grita, trespassa-nos a alma com as suas variações abruptas de humor e sustenta todo o argumento e progressão narrativa. Sem o seu papel, nada mais poderia alguma vez funcionar em “Obsession”. Esperemos, justamente, que esta seja uma rampa de lançamento para outros projetos interessantes no seu futuro próximo.
Quanto à estreia comercial de “Obsession”, acontece em Portugal já amanhã, 14 de maio, e não podíamos recomendar mais esta divertida e monumental experiência de terror e comédia.
Obsession, a Crítica
Conclusão
“Obsession” é uma obra hábil, capaz de dosear terror e comédia de forma imbatível e apresentar ainda um comentário feroz sobre os perigos da co-dependência romântica.
Já Curry Barker é um cineasta a manter debaixo de olho, e sem dúvida um nome que esperamos tornar-se sinónimo de horror de qualidade na próxima década.

