Escrito e realizado por Amanda Kramer, “By Design” pode bem ser um dos títulos mais estranhos em cartaz na presente edição do IndieLisboa. Apresentado como uma inversão no género de “body swap”, esta é a história invulgar de uma mulher que troca de lugar com uma cadeira e que acaba por encontrar maior felicidade na vida e sucesso nas suas relações interpessoais a partir do momento em que se torna apenas corpo presente.
Objetificação, fetiche e solidão com By Design
Uma comédia fantástica improvável, “By Design” é um filme profundamente independente, um excelente exemplar do indie norte-americano e uma reflexão interessante acerca de temáticas como objetificação, fetiche ou solidão. Tudo começa quando Camille (Juliette Lewis) entra numa loja de decoração e fica completamente apaixonada por uma cadeira que por lá se encontra. Este é um objecto único, singular, cobiçado, que rapidamente se torna a grande fixação de Camille.
Impossibilitada de comprar a cadeira, devido a constrangimentos económicos e demais, Camille entra num relacionamento muito mais intenso com o objecto, trocando de corpo com o mesmo. O que se segue é uma comédia perfeitamente offbeat que assenta na objetificação do corpo feminino. Como mulher, Camille ocupa este mundo da mesma forma que tantas outras mulheres: é uma presença discreta, solitária, mutilada pela desatenção daqueles que a rodeiam.
Mas como a cadeira única e cara que passa a ser, Camille sente-se desejada como nunca antes, tornando-se ela própria objecto de desejo por parte do seu novo proprietário – Olivier (Mamoudou Athie). Ele mesmo, aliás, acaba por desenvolver uma relação intensa com a cadeira, e estes dois desajustados sociais encontram-se da mais improvável das formas.
Os corpos femininos em destaque no IndieLisboa ’26

Entretanto, enquanto a sua alma reside na cadeira, o corpo original de Camille torna-se um recipiente vazio. Mas eis que nem a sua mãe, nem as suas amigas, nem um vizinho que a persegue parecem ver grande diferença entre a Camille original e esta versão calada, subjugada e perfeitamente ausente. E onde a comédia do absurdo e o camp abundam, existe também um forte comentário profundamente negro, pessimista e existencial sobre o que é viver, ser amada, desejada e acerca da forma como as mulheres se movem no mundo.
Camille quer tão desesperadamente ser vista que prefere ser um objecto com valor na cadeia consumista a ser um ser humano de forma plena. Tal é brutalmente devastador, mas em “By Design” é também a fonte de um humor desconfortável mas muito bem executado.
Há também que prezar o universo visual de “By Design”. Camp e profundamente (mas profundamente) estilizado, este mundo pode ser construído com um orçamento modesto, mas das suas ambições não podemos dizer o mesmo. São tudo menos modestas, sendo “By Design” um veículo perfeito para expressar uma versão do mundo plastificada, exacerbada e sempre estimulante do ponto de vista visual. Com elementos emprestados do teatro e dos filmes de série b, a obra de Amanda Kramer consolida uma perspectiva invulgar do mundo, onde o visualmente apelativo e o decadente se encontram uma e outra vez.
A performance de Juliette Lewis: encontrar sentido no absurdo
E o que dizer das prestações que povoam o filme? Dentro do absurdo, as performances dedicadas de “By Design” dão validade a esta atmosfera muito própria. Juliette Lewis e Mamoudou Athie são os principais “culpados” deste fenómeno, conseguindo liderar com pujança um argumento extremamente desatinado e dando-lhe todo o corpo necessário para que o drama que se esconde para lá da comédia consiga brilhar da melhor forma.
O 23.º IndieLisboa decorreu entre os dias 30 de abril e 10 de maio de 2026. Marcaste presença neste que é um dos maiores festivais da capital?
By Design, a Crítica
Conclusão
“By Design” é uma invulgar comédia onde o absurdo e o existencialismo se encontram. Os seus maiores trunfos combinam a exuberância visual com uma reflexão incisiva acerca do papel da mulher na sociedade e a sua brutal objetificação. Desejo e poder são moedas de troca sobre as quais a obra de Kramer reflete com habilidade.

