Entre uma cirurgiã francesa de “La Vie d’une Femme” que já não tem tempo para respirar e duas mulheres japonesas que descobrem, no campo, que o passado também sabe esperar sentado de “Nagi Notes”, a Competição de Cannes voltou a provar que a vida adulta é sobretudo isto: fingir equilíbrio até aparecer alguém que nos desarruma a sala, o corpo ou a memória.
No primeiro dia a sério da competição, Cannes decidiu trocar, por algumas horas, o glamour da Croisette pela vida real: turnos, responsabilidades, mães dependentes, casamentos que resistem por teimosia e corpos que ainda podem ser surpreendidos pelo desejo. Em “La Vie d’une Femme”, de Charline Bourgeois-Tacquet, a mulher em causa chama-se Gabrielle, tem 55 anos, é cirurgiã maxilofacial, chefe de serviço num hospital público, corre de um lado para o outro e parece ter descoberto a fórmula perfeita para não viver: trabalhar muito, cuidar de todos, controlar tudo e chamar a isso escolha.
A competição também vai ao hospital
O filme traz Léa Drucker no centro de tudo — e claramente num filme feito à medida dela — como uma mulher competente, inteligente, cansada, respeitada, admirada por quase todos e, por isso mesmo, perigosamente perto de desaparecer dentro da sua própria eficiência. Gabrielle opera, dirige, decide, consola, enfrenta pacientes condenados, luta pelos meios do hospital, cuida da mãe em processo de demência, vive com um marido que a ama (Charles Berling), mas que se sente diminuído ao seu lado, e ainda tenta manter acesa qualquer coisa que se pareça com vida íntima. Convenhamos: para muitas heroínas do cinema clássico, isto dava para três melodramas, duas tragédias e uma minissérie da Arte.

Charline Bourgeois-Tacquet, que já nos tinha dado “Les Amours d’Anaïs”, volta assim a interessar-se por mulheres que não cabem nos papéis que lhes distribuem. Antes era a jovem volúvel, desejante, imprudente, com aquela energia de quem entra na vida como quem entra numa festa sem saber onde fica a saída. Agora é quase o contrário: uma mulher madura, instalada, aparentemente dona do seu destino, que fez escolhas claras — profissão, liberdade, talvez a recusa da maternidade como destino obrigatório — e que, ainda assim, descobre que uma vida bem construída também pode ter fissuras.
A heroína que estava bem, até deixar de estar
A realizadora disse querer filmar uma heroína “que está bem”, o que no cinema contemporâneo é algo de raro e pouco filmado. Uma mulher que está bem? Sem colapso visível? Sem trauma imediatamente legível? Sem filhos para a redimir ou castigar? Que escândalo. Só que ninguém vem a Cannes apenas para ver pessoas equilibradas. O cinema entra quando a estabilidade começa a ranger. E eis que aqui entra Frida, a escritora, interpretada por Mélanie Thierry, que chega ao serviço hospitalar de Gabrielle para fazer pesquisa para um livro. A romancista funciona como uma intrusa elegante, dessas que não precisam de partir copos para desarrumar uma casa. Observa, escuta, talvez deseje, talvez escreva, talvez roube qualquer coisa. Porque os escritores, convém lembrar, são gente perigosa: entram na vida dos outros a dizer que estão só a pesquisar e, quando damos por nós, já transformaram o nosso sofrimento em literatura, a nossa rotina em material narrativo e a nossa crise íntima em metáfora.
O filme avança ao ritmo da sua protagonista: rápido, nervoso, fragmentado, sempre à beira de perder o fôlego. Há capítulos — são 10 ao todos em número redondo —, há cenas curtas, há uma sensação constante de urgência. Gabrielle é apresentada quase como uma combatente do quotidiano. O primeiro impulso é admirá-la: “eu quero tudo”, parece dizer-nos. Mas a questão é precisamente essa: querer tudo é uma forma de liberdade ou uma sentença de esgotamento? A dedicação ao hospital dá-lhe um sentido legítimo de utilidade, mas devora-lhe o tempo. A recusa da maternidade foi uma escolha, sim, mas não a libertou do cuidado: a mãe envelhece, a doença avança, a vida cobra sempre por outro lado.
Léa Drucker, que já tem dois Césares e uma carreira feita de inteligência, discrição e explosões contidas, surge já como uma das primeiras grandes candidatas ao prémio de interpretação deste Cannes. Em Cannes isto quer dizer tudo e nada, claro. Pode significar glória, pode significar apenas que alguém escreveu “magnífica” e a palavra começar a circular como um boato de corredor. Mas Drucker tem essa qualidade rara de parecer sempre a pensar duas coisas ao mesmo tempo: aquilo que diz e aquilo que o corpo tenta esconder. A sua Gabrielle não é uma santa do serviço público nem uma mártir feminista pronta para cartaz de manifestação. É mais interessante do que isso: é uma mulher que escolheu, venceu, trabalhou, desejou, enganou-se e talvez tenha confundido controlo com felicidade.
Do hospital francês ao silêncio japonês
Do outro lado do programa surge “Nagi Notes”, ou “Quelques Jours à Nagi”, de Koji Fukada, e a competição de Cannes muda de respiração. Saímos do hospital público francês, onde tudo parece urgente, para o Japão rural, onde até o passado parece caminhar mais devagar, que a primavera. Yuri (Shizuka Ishibashi), arquitecta divorciada, deixa Tóquio — e, pelo caminho, uma vida que já se desfez — para visitar Yoriko (Takato Matsu), artista, antiga cunhada e mulher instalada na aldeia de Nagi. O que começa como intervalo, pausa ou fuga — palavras bonitas que usamos quando não queremos admitir que estamos perdidos — transforma-se numa lenta confrontação com a memória, a perda e aquilo que ficou por dizer e fazer.

Fukada já não é exactamente um visitante de passagem em Cannes. Mas esta entrada na competição principal tem outro peso. É um cineasta que gosta dos abalos discretos, dos gestos mínimos, dos sentimentos que não entram a matar mas ficam a corroer por dentro. Em “Nagi Notes”, há uma escultora, uma arquitecta, uma antiga relação familiar, uma quinta leiteira, adolescentes, uma galeria de arte, uma base militar ao fundo da paisagem e sessões de pose ou seja, tudo aquilo que o cinema japonês sabe transformar num melodrama sem necessidade de levantar a voz.
Yoriko, interpretada por Takako Matsu, vive em Nagi, trabalha, desenha, esculpe, mas não parece interessada em exibir ou vender a sua arte. Cria quase em segredo, como se o acto artístico fosse menos uma carreira do que uma forma de guardar aquilo que não pode ser dito. Yuri, interpretada por Shizuka Ishibashi, chega com a experiência de uma vida urbana, de um casamento terminado, de uma deslocação para Taiwan e de um regresso ao Japão que parece mais emocional do que geográfico. São ex-cunhadas, ou talvez algo mais difícil de nomear: duas mulheres ligadas por uma família que já mudou de forma, por afectos antigos, por desejos subterrâneos e por essa amizade que sobrevive quando as estruturas oficiais caem.
O melodrama que se recusa a gritar
O mais interessante em Fukada é a sua recusa do sublinhado. “Nagi Notes” podia facilmente transformar-se num drama de domingo à noite, com música a explicar-nos quando chorar, revelações lançadas como pratos contra a parede e adolescentes em fuga durante uma tempestade a pedir violinos desesperados. Mas Fukada prefere a distância, a luz clara, a contenção quase poética. O filme observa mais do que declara. Regista os sentimentos como quem desenha linhas muito finas num papel que pode rasgar a qualquer momento.
Há uma teia de amores não correspondidos e afectos não reconhecidos: Yoriko terá amado a mulher de um viúvo local; esse viúvo tem um filho adolescente que frequenta a quinta; outro jovem tenta perceber os próprios sentimentos; uma câmara obscura mostra o mundo de pernas para o ar, como se Fukada nos dissesse, sem grande espalhafato, que é assim que o desejo funciona. Achamos que vemos direito, mas estamos sempre a olhar para uma imagem invertida.

Se “La Vie d’une Femme” é um filme sobre o excesso — excesso de trabalho, de responsabilidade, de utilidade, de vida organizada — “Nagi Notes” parece ser um filme sobre aquilo que sobra quando o ruído baixa. O campo, aqui, não é postal turístico nem cura milagrosa. É antes um espaço onde as coisas que a cidade ajudava a esconder começam a ganhar forma. A calma pode ser assustadora. O silêncio também faz perguntas. E os dias, quando passam devagar, têm o inconveniente de nos obrigar a escutar aquilo que andávamos a adiar.
Cannes gosta de mulheres em desequilíbrio
O curioso é que os dois filmes, tão diferentes no tom, na geografia e na respiração, parecem conversar entre si. Gabrielle vive esmagada pelo excesso: excesso de trabalho, excesso de competência, excesso de responsabilidade, excesso de auto-controlo. Yuri e Yoriko vivem atravessadas por ausências, memórias, silêncios e desejos que talvez nunca tenham encontrado uma forma socialmente aceitável de existir. Uma corre demais. As outras talvez tenham parado tempo suficiente para perceber que fugir também pode ser uma forma elegante de se encontrar.
Cannes gosta muito destas figuras: mulheres fortes, sim, mas não daquelas fortes de cartaz motivacional, que levantam pesos, vencem traumas e sorriem ao pôr-do-sol. Mulheres fortes no sentido trágico e quotidiano da expressão: aquelas que aguentam tanto que ninguém se lembra de perguntar se ainda querem aguentar. Gabrielle aguenta o hospital, a mãe, o casamento, a equipa, os pacientes, a própria imagem de mulher invencível. Yuri e Yoriko aguentam o passado, a família, o luto, o desejo, a delicadeza insuportável daquilo que nunca foi dito. Não é preciso um apocalipse, uma guerra, um assassino em série ou um super-herói com problemas de identidade. Às vezes basta uma escritora entrar num hospital. Ou uma mulher aceitar posar para outra. Ou alguém chegar a uma aldeia e, perante a calma insuportável do campo, descobrir que a cidade era apenas uma maneira mais barulhenta de não pensar.
JVM

