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Estreia já no próximo dia 18 de junho, com distribuição da Nitrato Filmes, a coprodução entre Portugal, Filipinas, Espanha, França e Taiwan “Magalhães” (2025, Lav Diaz). A estreia mundial aconteceu já no Festival de Cannes de 2025 na secção Cannes Premiere. Mais recentemente foi a escolha das Filipinas para os Óscares de 2026 mas acabou por não fazer parte da lista dos nomeados.

“Magalhães” é um filme histórico passado no século XVI centrado na figura portuguesa Fernão de Magalhães (interpretado por Gael García Bernal) com foco na sua presença na Ásia e na influência que fez sobre os nativos dos locais que descobriu.

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Qual a narrativa de Magalhães?

A longa-metragem “Magalhães” traz-nos uma narrativa ‘pesada’ e densa. Simultaneamente um filme histórico e biográfico, a narrativa decorre entre 1511 em Malaca e 1521 em Cebu. O filme conta-nos, assim, a história da navegação marítica de Fernão de Magalhães e dos seus companheiros ao longo de uma década durante 2h43 de filme.

Mais do que apenas um filme histórico ou biográfico, é também uma obra sobre colonialismo, evangelização e poder na época áurea dos Descobrimentos Portugueses no século XVI.

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A encabeçar este filme temos o ator mexicano Gael García Bernal. Compõem igualmente o elenco de “Magalhães” Ângela Azevedo, Amado Arjay Babon, Dario Yazbek Bernal, Hazel Orencio, Ronnie Lazaro, Tomás Alves, Bong Cabrera, Max Grosse Majench, Roger Alan Koza, Valdemar Santos, Brontis Jodorowsky, Ivo Arroja, Paulo Calatré, Rafael Morais, entre outros.

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Milimetricamente pensado no antes e no depois

Magalhães
© Nitrato Filmes

Se estás à espera de ver um grande filme épico à escala, por exemplo, de “A Missão” (1986, Roland Joffé), não vale a pena sequer ires ver o filme com esse pensamento porque sairás defraudado da sessão. Contudo, não é por isso que “Magalhães” deixa de ser um excelente filme. Precisamente porque Lav Diaz não tem a pretensão de fazer um grande épico. “Magalhães” é, sobretudo, um filme ‘negro’ e sensorial sobre a vida de Fernão de Magalhães. De tão negra que sabemos que é a História dos Descobrimentos Portugueses, “Magalhães”, em certa medida, é um filme que reflete sobre estas consequências.

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Deste modo, cada sequência de “Magalhães” mostra o antes e o depois, eliminando o durante. Ou seja, dito por outras palavras, “Magalhães” é um filme que ‘censura’ mesmo a violência e o combate acérrimo dos navegadores. Assim, quando o espectador chega às cenas, ou ainda não aconteceu ou já aconteceu. Não é que tenhamos perdido o comboio e chegado atrasados. Esta é mesmo uma escolha deliberada de Lav Diaz. E, para ser sincero, o impacto visual e sonoro (pelo vazio/destruição e silêncio) é muito maior desta forma. Efetivamente, em “Magalhães”, a imagem vale mais do que mil palavras. Mesmo no desfecho do filme, lento, mas já com Magalhães e o seu filho (ficcional) Cristóvão (Ivo Arroja) nos últimos suspiros, tudo é muito mais intenso nestes corpos (semi-)mortos à beira-mar. Não precisamos de ver a batalha para a ‘sentir’.

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Questionamento sobre a colonização

Magalhães
© Nitrato Filmes

Com “Magalhães” a trazer-nos os ‘não-momentos’, o que esta longa-metragem acaba por nos trazer é um grande estudo de personagens, temáticas e do lugar que (não) habitam. Nesse sentido, o filme de Lav Diaz reflete de forma muito clara sobre a forma como a colonização foi imposta aos vários indígenas dos locais ‘encontrados’ pelos navegadores.

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Apesar da longevidade narrativa de 10 anos nesta história, o facto é que “Magalhães” divide-se apenas em quatro momentos distintos: 1) a chegada e permanência de Fernão de Magalhães e do seu grupo na cidade de Malaca, na Malásia, em 1511; 2) a chegada a Lisboa, em 1513; 3) a viagem no Oceano Atlântico, em 1519; 4) a chegada, permanência e morte de Fernão de Magalhães e do seu grupo na ilha de Cebu, nas Filipinas, em 1521. Adicionalmente, entre a permanência em Lisboa e a viagem no Oceano Atlântico ainda há duas pequenas cenas em Sevilha em 1518.

Colonizadores e colonizados

O que, de facto, “Magalhães” nos traz ao longo destes quatro ‘capítulos’ é mostrar os dois lados. Assim, vemos os indígenas e os seus rituais e vemos os colonizadores e as suas imposições.

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Em todo o caso, “Magalhães” é, efetivamente, um filme duro para os colonizadores demonstrando a resistência dos indígenas. A imposição da religião num povo com as suas próprias crenças e rituais, obviamente, que é fatídica para os opressores. Por isso são muitas as perdas do grupo de Magalhães. Apesar disso, é simbólica a compra de um escravo em Malaca por parte de Magalhães que, de facto, aconteceu mesmo na realidade, demonstrando a forma como a sociedade era bem retrógrada. Já a chegada a Lisboa do grupo é negra perante as perdas e os lamentos das mulheres à beira-mar. Mas, para Fernão de Magalhães, tudo lhe é indiferente. Afinal, ele estava a cumprir os desejos do Rei e da grandiosidade portuguesa.

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O início da loucura para Fernão de Magalhães

A viagem no mar ocupa uma boa parte da narrativa. Contudo, torna-se uma sequência relevante para demonstrar a diferença no estado de espírito de Fernão de Magalhães onde a loucura pelo poder lhe subiu à cabeça. Dessa forma, desconfia de tudo e de todos perante o seu objetivo. É também aqui que se inicia a sua espiral de loucura onde sonha constantemente com a presença da sua mulher Beatriz (Ângela Azevedo).

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Por fim, a imposição do cristianismo em Cebu revela-se devastadora para Magalhães e o seu grupo. Afinal, a cura milagrosa de uma criança não pode substituir os devaneios da colonização de Magalhães. Apesar de tudo, os indígenas ainda têm a sua sanidade.

Fotografia naturalista e misticismo em Magalhães

Magalhães
© Nitrato Filmes

Lav Diaz é um realizador habituado a fazer filmes de grande duração. Em Portugal, a sua filmografia é praticamente desconhecida mas o certo é que a grande maioria das suas obras têm 4 horas ou mais de duração (“Ebolusyon ng isang pamilyang Pilipino”, de 2004, tem mesmo 10h25 de duração)… Vistas bem as coisas, nesse aspeto, “Magalhães” até será dos filmes mais ‘acessíveis’ do realizador filipino (no que diz respeito à duração). Contudo, é relevante acrescentar que Lav Diaz trabalhou ainda numa versão integral, maior, de 9 horas. Nesta versão, segundo o realizador, a esposa de Magalhães terá mais protagonismo.

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Independentemente da duração do filme, na verdade, “Magalhães” é uma obra muito equilibrada onde cada cena está meticulosamente planeada, de forma a que o espectador contemple e reflita. Desde a direção artística aos espaços, a apresentação das personagens, as escalas dos planos e a sua duração, tudo é milimetricamente dirigido. E o mais fenomenal nisto é que Lav Diaz faz apenas um único take de cada plano. Em notas à imprensa refere: “Quero ver a realidade acontecer. Quero observar algo sem a minha intervenção constante. (…) Cada plano torna-se um acontecimento.”

As personagens no espaço

O grande ponto alto do filme é, sem dúvida alguma, a fotografia. Tratando-se de um filme de ‘paisagens’, Lav Diaz poderia ter filmado o filme em formato panorâmico de 2.35. No entanto, Lav Diaz faz precisamente o contrário filmando-o em 4/3 na escala 1.33. Nesse sentido, os planos repletos de natureza (e ainda são bastantes) ganham um estatuto completamente diferente. É muito mais místico e espiritual. Em certa medida, há uma paralelização entre a construção dos planos e o estado de espírito das personagens muito ligadas ao religioso, ao espiritual, às crenças. Para além disso, são quase inexistentes os grandes planos. Ou seja, o espaço é quase sempre tão importante quanto as personagens. Afinal, estamos na época dos Descobrimentos…

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Magalhães

Conclusão

  • Simultaneamente um filme histórico e biográfico sobre Fernão de Magalhães e o colonialismo imposto na Ásia, é também um filme espiritual e de questionamento.
  • Não sendo um filme épico, é uma leitura devastadora e sentida da dura época dos Descobrimentos Portugueses.
  • Uma longa-metragem milimetricamente pensada onde a fotografia é a grande mais-valia do filme.
Overall
8/10
8/10
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