Estreia já na próxima quinta-feira 23 de julho nas salas de cinema portuguesas o novo filme “A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” (2024, Samir), com distribuição da Risi Film.
Embora a longa-metragem chegue com cerca de 2 anos de atraso às salas nacionais, o seu conteúdo é realmente intemporal. Trata-se de um documentário que mistura arquivos com entrevistas e também animação. Um filme pessoal para o realizador mas que acaba por ter um reflexo universal.
Qual a narrativa de A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros?
“A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” é um documentário que aborda a problemática da emigração italiana para a Suíça. A partir da experiência pessoal do realizador Samir (neste caso, emigrante de Bagdade) conhecemos a História da emigração italiana para a Suíça durante o século XX.
Construído a partir de arquivos pessoais ou mais generalistas, Samir inclui ainda no seu filme pequenas animações que mostram a sua própria infância e adolescência, bem como entrevista alguns oradores relevantes para a temática da emigração. Samir fala sobre a História da emigração no século XX na Suíça sem nunca esquecer a emigração atual. Algo que faz deste belo documentário não só um filme intemporal como relevante para pensar o presente e o futuro.
De referir ainda que, tal como hoje, o racismo continua a ser um problema atravessado pelos emigrantes. Samir não o esquece, até porque o viveu, simplesmente por ser um pouco mais ‘exótico’ que os suíços. Algo que se intensifica ainda mais pelo facto de Samir ter nascido no Iraque.
Um filme original entre arquivos, animação e entrevistas

“A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” é um documentário bastante original na sua construção. Não se trata de um ‘simples’ documentário de ‘talking-heads’ ou de arquivos. A longa-metragem de Samir mistura várias fontes de imagem e, na montagem, há ainda um lado bastante intenso e apelativo no cruzamento das fontes em ligação com os textos e testemunhos. Em suma, “A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” leva o espectador a refletir e, quiçá, a agir sobre uma temática universal e sempre intemporal: a emigração e, em consequência, o racismo.
A extrema-direita, sempre anti-emigração, não é um problema do século XXI (nem mesmo apenas do século XX, convenhamos). E este documentário demonstra e comprova como o racismo, as políticas anti-emigração e o aproveitamento dos emigrantes nos países estrangeiros está, realmente, enraizado.
O início do documentário é logo empolgante para o espectador. Percorremos imagens de arquivo de forma cronológica, enquanto ouvimos o som dos operários nas fábricas cada vez mais intenso. É um convite direto ao espectador para entrar rapidamente na narrativa do documentário. Seja com imagens fotográficas, seja com filmes dos Lumière ou de Chaplin. A vida do emigrante e do operário está logo a ser desmontada ali…
Do ponto de partida pessoal para a universalidade da emigração

A força de “A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” está no facto de que Samir toma como ponto de partida do filme a sua própria experiência pessoal. Ou seja, ele conhece o problema e apresenta, assim, ao espectador um caso concreto. E, adicionalmente, a própria animação do filme – bastante realista, diga-se – é feita pelo próprio realizador, frisando ainda mais o cunho pessoal do documentário. É um documentário histórico e com factos mas é também um testemunho direto de uma experiência.
Depois do genérico, Samir conta a sua história (ainda que com outra voz de narrador que não a sua) onde, no pós-II Guerra Mundial (nos anos 1960), emigrou com a sua família para a Suíça que era também o país-natal da sua mãe. Inicialmente, o filme começa com arquivos fotográficos, como contexto mais ‘realista’. No entanto, rapidamente inclui imagens em movimento e reconstruções em animação. Logo a partir desta sequência inicial, Samir também compara as condições entre os emigrantes (refugiados) dos anos 1960 e os de agora. Do comboio nos anos 1960, agora, os migrantes chegam por via marítima em condições (eventualmente) ainda mais degradantes.
A Suíça acabou por ser um país que recebeu não só refugiados políticos mas também industriais de Espanha (sob a ditadura de Franco) e Itália. Neste último caso, é onde “A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” se concentra mais e onde o impacto das diferentes culturas acabou por deixar na Suíça uma grande influência italiana.
A estrutura de A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros

“A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” segue, por isso, a sua narrativa por vários pontos relevantes. A saber: desde a chegada dos emigrantes, à solidão e dificuldade de integração que os migrantes tiveram, às dificuldades dos trabalhos, a má habitação face à rápida industrialização da Suíça, a procura de direitos sindicais, civis e políticos, o racismo, a procura da emancipação feminina, etc.
Além disso, Samir entrevista vários protagonistas que foi conhecendo ao longo da vida que ou se preocuparam diretamente com a condição dos migrantes (como realizadores de cinema) ou foram eles próprios migrantes. Em suma, da experiência pessoal de Samir, passamos às experiências pessoais de outras pessoas fazendo com que o filme ofereça ao espectador um olhar bastante íntimo sobre a migração e sobre as dificuldades de integração que os migrantes sentiram (e ainda sentem hoje).
Vale a pena ver A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros?

“A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” é um poderoso e intemporal documentário que reflete sobre as condições dos migrantes de ontem e de hoje. A partir do ponto de vista pessoal do realizador Samir, reflete-se sobre o que é ser estrangeiro num país que não é o nosso.
Vale realmente a pena ver este documentário e refletir sobre ele. E, em suma, pensar na nossa própria visão de ser humano que não compreende e maltrata o outro, alguém que é diferente de si.
O filme tem uma estrutura bastante coesa que só peca por, por vezes, ter algum dinamismo desnecessário como é o caso das entrevistas com a câmara em movimento quando deveriam estar fixas, de forma a dar uma maior importância ao discurso.
A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros
Conclusão
- “A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros” é um documentário poderoso e intemporal sobre as condições dos migrantes à chegada de um país estrangeiro.
- A partir do ponto de vista pessoal do realizador Samir, reflete-se sobre a emigração e os problemas vividos pelos migrantes, ontem e hoje.
- Um filme documental que mistura animação, arquivos e entrevistas para demonstrar a universalidade do tema que apenas peca por algum excesso de movimento.

