Alma Viva © Midas Filmes

Alma Viva, em análise

‘Alma Viva’, a estreia da luso-francesa Cristèle Alves Meira nas longas-metragens, é uma belíssima tragicomédia sobre a cultura tradicional, o luto, conflitos familiares, e superstições no nordeste de Portugal. Está nas salas de cinema. A não perder!

Depois da auspiciosa estreia na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2022, ‘Alma Viva’, da luso-francesa Cristèle Alves Meira é o filme, que representará Portugal na selecção para os Óscar® de Melhor Filme Internacional, apesar de ser uma co-produção com a França e Bélgica. Não se trata de um filme de terror, o que à partida o título possa por vezes insinuar, mas antes de uma história com toques de humor negro, sobre a relação com o sobrenatural, ou melhor, sobre a velha ‘alma rural’ portuguesa, do sul da Europa; e até do mundo latino-americano, se for visto pela perspectiva, ou melhor, pelas suas semelhanças, com as criações do realismo mágico, tanto no cinema como na literatura. Para fazer um filme bastante original e pessoal, a realizadora luso-francesa apoiou-se na sua experiência e conhecimento da terra natal dos seus pais, situada em Trás-os-Montes e assim desenhar um impressionante enredo, no cenário de uma das suas curtas-metragens anteriores, Campo de Víboras, que aliás já abordava mais ou menos as mesmas superstições.

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‘Alma Viva’, a primeira longa-metragem de Cristéle Alves Meira, estreia na Semana da Crítica de Cannes 2002.

Tendo igualmente como referência o cinema de Abbas Kiarostami — segundo ela própria — e a sua forma de passar do ‘ordinário para o extraordinário’, Alves Meira, conseguiu construir um filme que aborda a história de uma família, que tem de enfrentar a morte da matriarca num duelo louco, entre eles e os habitantes da aldeia, que se estende no tempo, com a envolvente do calor do verão do interior de Portugal, a acirrar os ânimos e as moscas a chegarem, como convidadas não desejadas. Como em todos os verões, a pequena Salomé (Lua Michel) de seis anos, nascida em França, regressa de férias à aldeia da sua família situada no nordeste de Portugal. No entanto, não há uma única criança ou amigo da sua idade, o que também contribui para entender a desertificação e envelhecimento do nosso interior. As férias de verão começam calmamente, mas a sua amada avó (Ester Catalão), e afinal a sua única companheira de brincadeiras, vai falecer repentinamente. Enquanto os adultos lutam  pela organização do funeral e disputam a pequena herança, Salomé é assombrada pelo espírito daquela, que todos na aldeia consideravam uma bruxa. ‘Mais cedo ou mais tarde, toda as mulheres independentes são acusadas de bruxaria’, alerta aliás a personagem interpretada pelo ator cego Duarte Pina (‘Invisível Herói’), que interpreta um dos tios, de Salomé, numa das cenas de ‘Alma Viva’.

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VÊ TRAILER DE ‘ALMA VIVA’

Porém é a pequena atriz Lua Michel,— filha de Cristèle Alves Meira — que dá uma enorme vida à pequena Salomé e quem assume o peso de uma narrativa centrada nela própria e num filme em que as velhas tradições guardadas por mulheres fortes, diante das figuras masculinas, são marcadas pelas circunstâncias, superstições, medo de bruxas e o culto do sobrenatural, característico desta região fronteiriça do nordeste de Portugal. Salomé, a neta da falecida, é abordada de forma intermitente pelo espírito insatisfeito da sua avó, que a usa como instrumento para se vingar, de todas as afrontas e resolver as desavenças que deixou pendentes quando morreu. É Salomé, por exemplo, que vai sozinha tramar uma espécie de vingança contra a vizinha Gracinda (Martha Quina), que a miúda suspeita, de ter envenenado a avó. A partir daí, surge ao de cima todos os preconceitos e desconfianças dos vizinhos, invejas e brigas familiares entre os tios de Salomé e sua mãe, e as últimas vontades de nada marcam a evolução da história; na qual se sente ainda o reflexo dos trágicos incêndios florestais, infelizmente recorrentes quase todos os anos na região. Os rituais dedicados a São Jorge e a presença silenciosa mas contínua do cão pastor-alemão, que acompanha o protagonista em momentos aparentemente transcendentais do filme, como aliás a ‘chacina’ das galinhas na capoeira da vizinha, são alguns dos elementos que acrescentam uma incrível veracidade e um tom de realismo fantástico, ao argumento de ‘Alma Viva’.

Alma Viva
Tudo se precipita quando a avó de Salomé morre repentinamente. ©Midas Filmes

O êxodo rural e a emigração em França, vividos pelos próprios pais do realizadora, que a mãe e um dos tios da protagonista encarnam no filme, assumem igualmente uma importância capital neste retrato por vezes insólito, com constantes reprovações entre os que partem e os que ficam. Lua Michel é acompanhada ainda por um extraordinário elenco onde alternam actores profissionais bastante conhecidos e vários amadores, constituído por Ana Padrão, Jacqueline Corado, Ester Catalão, Arthur Brigas, Catherine Salée, Martha Quina, Sónia Martins e o já referido Duarte Pina, protagonista da curta-metragem ‘Invisível Herói’, de Cristèle Alves Meira. Há certos aspectos da história de ‘Alma Viva’ que podem parecer também algo arbitrários entre o real e fantástico, apesar da fotografia atmosférica e luminosa do consagrado e muito requisitado Rui Poças (‘Zama’, 2017), que confere a cada plano um elemento de interesse e que nos puxa para um registo mais telúrico. A montagem é de Pierre Deschamps, num filme com ambientes musicais criados por Amin Bouhafa, Amaury Arboun, Ingrid Simon e Philippe Charbonnel; ‘Alma Viva’ tem a duração de quase hora e meia e está longe de ser um filme maçador ou lento. Pelo contrário, é vivo, divertido e um bom exemplo daquilo que podem ser as pretensões do cinema português de reconquistar o seu público.

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Alma Viva
Uma aldeia no nordeste de Portugal, onde praticamente não há crianças. ©Midas Filmes

Filha de pais portugueses, Cristèle Alves Meira nasceu em 1983 em Montreuil (França) e formou-se pela primeira vez como atriz, embora logo aos 20 anos, se tornasse diretora de teatro. Realizou um documentário em Cabo Verde, intitulado, ‘Som & Morabeza’ (2007), e outro em Angola, chamado ‘Nasceu em Luanda’ (2010), antes de fazer várias curtas-metragens de ficção rodadas em Portugal, que foram seleccionadas e bastante apreciadas nos principais festivais internacionais europeus: ‘Sol Branco’ (2015), ‘Campo de Víboras’ (2016), ’Invisível Herói’ (2019) e ‘Tchau Tchau’ (2022). Curiosamente este ‘Alma Viva’ de Cristèle Alves Meira funciona como uma espécie de contraponto de ‘A Gaiola Dourada’ (2013) de  Rúben Alves, mas é mais bem estruturado no sentido de fazer uma história mais real e credível, sobre o universo da imigração portuguesa, em França.

Alma Viva, em análise

Movie title: Alma Viva

Movie description: Como em todos os verões, a pequena Salomé (Lua Michel) regressa de férias à à aldeia da família situada em Trás-os-Montes. As férias de verão começam calmamente, mas sua amada avó vai falecer repentinamente. Enquanto os adultos brigam pela organização do funeral e pela parca herança, Salomé é assombrada pelo espírito da avó, que pelo facto de ser uma mulher só, todos na aldeia consideravam uma bruxa.

Date published: 23 de November de 2022

Country: Portugal, França, Bélgica

Duration: 86 minutos

Director(s): Cristèle Alves Meira

Actor(s): Lua Michel, Ana Padrão, Jacqueline Corado, Ester Catalão, Duarte Pina, Arthur Brigas, Catherine Salée

Genre: Drama, 2022,

  • José Vieira Mendes - 85
  • Cláudio Alves - 75
80

CONCLUSÃO:

‘Alma Viva’ de Cristèle Alves Meira é uma pequena obra, delicada, atraente, e despretensiosa, aliás como é o constante discurso da realizadora, que não pretende ser mais do que é: uma estreante nas longas metragens, com uma primeira obra, mas com carácter e relativa ambição. ‘Alma Viva’ é contudo e ainda um impressionante retrato sobre a tradição, o sobrenatural e as superstições baseado num realismo mágico e observacional típico do nordeste de Portugal. O resultado é um filme que está longe de ser maçador ou confuso ao nível do enredo. Pelo contrário é uma obra viva, desenxovalhada, divertida e um bom exemplo daquilo que podem ser as pretensões do cinema português de se reconciliar com o seu público e levar mais espectadores a vê-lo nas salas de cinema.

JVM

Pros

O peculiar enredo e a incrível interpretação da miúda Luna Michel — filha da realizadora  — no difícil e controverso papel de Salomé, que incorpora os maus espíritos da avó. 

Cons

Há que acuse este filme de fazer um retrato demasiado ridículo da imigração portuguesa em França e das velhas crendices e superstições do interior de Portugal.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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