Charles Manson passou os últimos nove anos da sua vida a telefonar da prisão para um detetive já reformado, num total de 137 chamadas. Estas chamadas nunca tinham sido ouvidas pelo público até agora.
Essas gravações são o ponto de partida de “Conversations with a Killer: The Charles Manson Tapes“. Trata-se de uma minissérie documental de true crime de três episódios da Netflix.
A produção, assinada pelo realizador Joe Berlinger (“Lupin“), fecha assim uma série. Durante os anos, a série foi dedicada a alguns dos criminosos mais estudados da história americana recente.
O que conta a minissérie?
Através das gravações telefónicas e de entrevistas com quem viveu de perto aquela época, a série reconstrói a ascensão de Manson como líder de culto. Além disso, detalha os assassinatos cometidos em 1969 pelos membros da chamada Manson Family. Expõe ainda o frenesim mediático que rodeou o julgamento.
Para além das vozes do próprio Manson, a produção inclui também gravações de arquivo de vozes de antigos seguidores, como Charles Tex Watson, Susan Atkins e Leslie Van Houten, todos condenados pelo envolvimento nos crimes.
O realizador explicou que a intenção por trás da abordagem escolhida foi examinar os mecanismos de manipulação e controlo que ele criou. Além disso, pretende dar espaço às vozes de quem viveu essa realidade. Assim, mostra quem continua, ainda hoje, a lidar com as suas consequências.
A história real por trás da obra
No auge do movimento contracultural do final dos anos 60, Manson, que passou grande parte da juventude entre reformatórios e prisão por pequenos crimes, começou a atrair jovens desiludidos com a sociedade, prometendo-lhes amor e liberdade das regras convencionais.
Segundo antigos membros da Family, uma vez dentro do seu círculo, Manson recorria a controlo psicológico e manipulação para os levar a cometer roubos, invasões, agressões e, por fim, homicídios.
Em agosto de 1969, Manson ordenou aos seus seguidores que cometessem uma série de assassinatos. No dia 8, invadiram a casa da atriz grávida Sharon Tate e do marido, o realizador Roman Polanski. O crime ocorreu no bairro de Benedict Canyon, em Los Angeles.
Os seguidores Watson, Atkins e Patricia Krenwinkel mataram Tate e todos os que se encontravam na casa: Abigail Folger, Wojciech Frykowski, Jay Sebring e Steven Parent. Polanski encontrava-se em Londres a trabalhar nessa altura.
Na noite seguinte, os seguidores de Manson mataram ainda o casal Leno e Rosemary LaBianca, em casa, no bairro de Los Feliz. Segundo consta, Manson acreditava que estes crimes iriam desencadear uma guerra racial a que chamava Helter Skelter. Esta expressão foi retirada de uma canção dos Beatles.
Apesar de não ter cometido os crimes com as próprias mãos, a acusação conseguiu convencer o júri de que Manson era o mentor por trás de tudo.
Depois de um julgamento que se transformou num espetáculo mediático mundial, foi condenado em 1971, juntamente com Atkins, Krenwinkel e Van Houten, que participaram nos assassinatos da família LaBianca.
Watson foi condenado no mesmo ano, num julgamento separado. Todos os cinco foram inicialmente condenados à morte. A pena acabou comutada para prisão perpétua um ano depois. Isto ocorreu quando a Califórnia aboliu temporariamente a pena capital.
Van Houten saiu em liberdade condicional em 2023, e Atkins morreu na prisão em 2009. Além disso, Watson, hoje com 80 anos, e Krenwinkel, com 78, continuam presos.
O que achei?
O que mais me impressionou (pela positiva) foi a decisão de Berlinger de não transformar Manson num espetáculo, algo que seria fácil de fazer com um caso tão mediático.
Se o ângulo fosse recontar a história de Manson, não iria trazer nada de novo já que existem vários documentários que fazem esse trabalho de forma exímia.
As chamadas telefónicas, ouvidas pela primeira vez, dão uma dimensão muito interessante ao documentário. No entanto, o verdadeiro peso da série está nos testemunhos de quem sobreviveu à Família Manson. Assim, mostra quem ainda hoje carrega essa marca.
Dianne Lake e Catherine Share falam com uma honestidade que raramente se vê neste tipo de produção, e é aí que a série realmente se destaca. O intuito não é esmiuçar propriamente a figura de Manson; o interesse reside em entender como tantas pessoas caíram na manipulação dele.
Em apenas três episódios, a série consegue equilibrar rigor histórico com um ritmo que nunca se torna enfadonho, algo em que muitas produções de true crime pecam porque tentam esticar demasiado a narrativa.
Além disso, também gostei da forma como o contexto de contracultura dos anos 60 é explicado sem soar a aula de história, ajudando a perceber o porquê de tantos jovens desiludidos se deixaram atrair por este predador. Recomendo vivamente a quem gosta do género, mesmo que já conheça o caso Manson de outras produções.

