"O Culto de Manson" | © NOS Audiovisuais

O Culto de Manson, em análise

O Culto de Manson” tenta dar voz e uma perspetiva feminista às mulheres que, sob as ordens de Charles Manson, levaram a cabo homicídios horrendos no verão de 1969.

Em 2004, quando perguntaram a Patricia Krenwinkel quem é que tinha sido mais negativamente afetado pelos acontecimentos de 9 de agosto de 1969, ela respondeu que essa pessoa era ela mesma. Krenwinkel, juntamente com Susan Atkins, Linda Kasabian e Tex Watson, sob as ordens de Charles Manson, invadiram, nessa noite, a casa de Roman Polanski e Sharon Tate. O cineasta estava na Europa, nessa altura, mas a sua esposa grávida de oito meses e meio, encontrava-se na residência com alguns dos seus amigos. Tanto Sharon Tate, como Jay Sebring, Wojciech Frykowski e Abigail Folger foram brutalmente assassinados pelos cultistas nessa noite. Kasabian foi a única que se recusou a participar na chacina.

Depois de matarem Tate, que suplicou pela vida até ao fim, eles usaram o sangue dela para escrever mensagens nas paredes. Steven Parent, um rapaz de 18 anos que foi uma testemunha inadvertida dos assassinos, foi também ele esfaqueado repetidamente e alvejado. Na noite seguinte, de novo sob as ordens de Charles Manson, esses quatro assassinos voltaram à ação, desta vez acompanhados por Leslie Van Houten e Steve Grogan. Em 10 de agosto de 1969, estes seis entraram à força na casa de Leno e Rosemary LaBianca. O casal foi separado, atado, amordaçado e vendado, foram torturados e os seus corpos brutalizados até que morreram. Kasabian, mais uma vez, recusou-se a participar e, pelo que se sabe, não sofreu qualquer punição por parte dos homens que a acompanhavam, nem mesmo Manson.

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Depois, tal como fizeram com Tate, os assassinos usaram o sangue das vítimas para escrever mensagens nas paredes. O objetivo era culpar dos homicídios os Black Panthers e assim dar início a uma guerra racial que Manson havia profetizado, um flagelo que acabaria quando a Família Manson, escondida numa caverna no meio do deserto, iria regressar heroicamente e subjugar os afro-americanos revoltosos. Se, depois de lerem isso tudo, acharem que a pessoa mais afetada por estes eventos foi Patricia Krenwinkel, então “O Culto de Manson” é o filme perfeito para vocês. Baseando-se em livros escritos por Ed Sanders e Karlene Faith sobre estes casos, a cineasta Mary Harron e a argumentista Guinevere Turner concebem aqui um estudo sobre as mulheres que foram influenciadas pela retórica racista de Charles Manson e se tornaram assassinas às suas ordens.

O centro do seu retrato e investigação é Leslie Van Houten, mas o filme propõe-se a analisar o modo como tanto ela, Atkins e Krenwinkel lidaram com os primeiros anos de prisão e foram gradualmente sendo livres da doutrinação que lhes foi feita por Charles Manson. Merritt Wever interpreta a própria Karlene Faith, quando a escritora trabalhava com várias mulheres no contexto de prisão, as tentava instruir e ajudar a refletir sobre os seus crimes. De certo modo, ela funciona como um avatar para Harron e os outros cineastas confrontarem as mulheres que mataram Tate, seus amigos, Parent e os LaBianca. Há um balanço muito precário entre empatia e simpatia, entre entendimento das motivações das assassinas e uma incapacidade de justificar as suas ações, um balanço que é personificado, em cena, pela figura de Karlene Faith.

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Verdade seja dita, a escritora acaba mesmo por ser a figura mais interessante do filme. Muito disso se deve à prestação formidável de Wever, mas também ao modo como ela é a única figura sobre a qual o guião mantém uma necessária ambivalência. As atrizes que interpretam as “súbditas” de Manson tendem a escolher abordagens mais unidimensionais, tal como lhes é proposto pelo texto. Basicamente, “O Culto de Manson” define-as como vítimas de Manson, um líder carismático, capaz de seduzir uma certa demografia formada por jovens de classe média, caucasianos e sem rumo certo na vida. Podemos ir até mais longe e dizer que o filme retrata a relação delas e seu líder como uma espécie de romance abusivo, em que um monstro usa a sua influência sobre quem violenta para perpetrar a sua monstruosidade.

Há grande valor nesta análise, mas esta abordagem exige que o filme confronte de frente os crimes das suas protagonistas e a atitude que elas têm vindo a exibir para com as suas ações e suas vítimas. De Hannah Murray, Sosie Bacon e Marianne Rendón, como Van Houten, Krenwinkel e Atkins, vemos muita ingenuidade e submissão, mas pouco ou nada vemos da natureza impiedosa das figuras reais. Face às súplicas chorosas de Sharon Tate, que inclusive disse que a podiam levar e matar depois de ela dar à luz o filho, Atkins terá dito à atriz que não tinha pena nenhuma dela. Esse momento é cuidadosamente rasurado da narrativa apresentada pelo filme, apesar de constar dos relatos que a própria Susan Atkins fez dessa noite.

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Não é que queiramos ver uma dramatização gráfica dos horrores dos homicídios Tate-LaBianca, mas, se o filme não tem coragem de nos mostrar estas assassinas em toda sua inglória maldade, também não pode investigar as origens desse mal. Mostrar o sofrimento de Tate e companhia é algo horrendo e talvez pouco ético para com a sua memória e entes queridos. Só que não o mostrar e fazer, ao mesmo tempo, uma contextualização que beneficia a imagem das suas homicidas é ainda pior. Para evitarmos cair num discurso moral sem grandes considerações cinematográficas, temos de admitir que Harron é uma boa realizadora e o seu tratamento deste material consegue ter mais nuance que aquilo presente só no texto. De facto, o modo como ela ancora tantas cenas na expressão horrorizada de Wever ou no buraco negro que é o Charles Manson de Matt Smith sugerem que a cineasta tem uma mão segura sobre o seu material e entende as complicações concetuais do projeto.

No final, há que respeitar os esforços de Mary Harron e Guinevere Turner em pesquisar as causas sociais que levaram a que estas mulheres se tornassem nas assassinas que tão bem conhecemos. Outro grande aspeto de valor no filme é o modo como mostra a influência de Manson e nos torna clara a relação entre ele e os assassinatos. Dizemos isto, pois, ainda hoje, há quem defenda que ele nunca devia ter sido preso visto que não foi ele que efetivamente segurou nas facas ou na arma que ceifaram a vida às vítimas da sua “família”. Harron, uma especialista em retratar a psicologia de psicopatas, vê muito além da máscara de amor livre e ideologia hippie que Manson podia projetar e revela-nos o mestre manipulador que ele realmente era. “O Culto de Manson” é uma análise histórica feminista que aplaudimos pelo seu esforço, mas não conseguimos recomendar pela sua execução problemática.

O Culto de Manson, em análise
O Culto de Manson

Movie title: Charlie Says

Date published: 19 de September de 2019

Director(s): Mary Harron

Actor(s): Hannah Murray, Matt Smith, Merritt Wever, Sosie Bacon, Marianne Rendón, Suki Waterhouse, Chace Crawford, Annabeth Gish, Kayli Carter, Grace Van Dien

Genre: Drama, Biografia, Crime, 2018, 110 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

“O Culto de Manson” oferece uma perspetiva feminista sobre o caso da Família Manson que se foca nas mulheres que o líder cultista manipulou. Algumas decisões problemáticas tiram poder aos argumentos do filme, mas o excelente trabalho de alguns atores quase redime todo o projeto

O MELHOR: A prestação de Merritt Wever e o final revisionista, uma fantasia claramente falsa que o filme nos concede num gesto de expiação.

O PIOR: As manipulações históricas que o filme faz para sustentar o seu argumento.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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