Lana e Lilly Wachowski (cineastas responsáveis por “Matrix” e “Cloud Atlas”) assinam “Bound”, uma obra assinalável do novo cinema queer, originalmente lançada em 1996 e apresentada no Queer Lisboa 30 através de uma cópia digital restaurada.
Bound: o neo-noir sáfico por excelência
Como obra inserida na secção retrospectiva do festival Queer Lisboa em 2026, o thriller neo-noir lésbico “Bound” fez as maravilhas da plateia repleta que se encontrou no Cinema São Jorge para homenagear a obra inaugural destas cineastas incontornáveis na cultura pop contemporânea.
Tudo começa quando a lésbica butch Corky (Gina Gershon) se muda para um novo prédio, onde conhece a sensual Violet (Jennifer Tilly). Depressa começa uma relação física muito sensual entre ambas, e à medida que o par percebe o que as aproxima, para lá da superfície, mais forte o seu laço se vai tornando.
Mas “Bound” vai muito além do tórrido e satisfatório romance entre Corky e Violet, sendo esta uma narrativa pautada por muita ação e por uma narrativa criminal aparatosa e particularmente sangrenta. Violet vive com um membro da máfia, e depressa esta sua associação começa a resultar em grandes dores de cabeça quando a sua moralidade e a tortura a decorrer na sua casa de banho entram em colisão direta.

Agora, Corky e Violet preparam o plano perfeito para deixar o vilânico namorado da segunda em maus lençóis, e, pelo caminho, acumular uma ilegítima mas algo merecida fortuna que se faz de dinheiro sujo de sangue (literalmente).
A estrutura de “Bound” usa e abusa intencionalmente da fórmula da last minute rescue, deixando o espectador sempre no limiar do abismo, em tensão máxima, e é daí que advém grande parte do interesse da estrutura da longa.
Tanto escrita como realizada pela dupla, na época as irmãs Wachowski não haviam ainda feito a transição, mas a sensibilidade queer que se sente no seu cinema é inegável – antes ou pós-transição.
Um casal imperdível no Queer Lisboa 2026
“Bound” vive também dos deliciosos contrastes entre a personalidade de Violet e de Corky que, à primeira vista, parecem tão díspares, para mais tarde assentarem que nem uma luva.
Gina Gherson e Jennifer Tilly são uma parelha imparável, tão sexy quanto inteligente e capaz de dar conta da Máfia (apesar das muitas tribulações para lá chegar).
Salta à vista como, nos anos 90, uma época de marginalização imensa da comunidade LGBT, com a epidemia da SIDA bem presente, Lana e Lilly Wachowski representaram, sem pudor, uma relação sáfica aberta, confiante e realista. Tudo isto num filme mainstream. Aliás, não fosse esta a obra que antecedeu o grande salto que viriam a dar em 1999 – a realização de “Matrix“, que transformou a cultura cinematográfica para sempre.
Quanto ao Queer Lisboa, regressa à capital no próximo ano, e segue viagem em 2026 até à Invicta entre os dias 3 e 7 de novembro.
Bound, a Crítica
Conclusão
“Bound” é uma obra muito à frente do seu tempo e persiste um tesouro fílmico entre os romances sáficos contemporâneos. Gina Gershon e Jennifer Tilly hipnotizam quem as vê.

