Com estreia absoluta em Veneza, “London”, de Victor Di Marco e Marcio Piccoli, fez logo furor, tendo ganho o prémio Queer Lion, transversal a todas as secções do festival. Destas celebrações do cinema às margens do Lido, a obra e seus autores viajaram para a capital portuguesa, onde “London” foi exibido no Queer Lisboa, aquando de uma trigésima edição que bateu todos os recordes de público do festival de cinema mais antigo da cidade. A seguir, terá passagem no Festival do Rio, onde talvez tenha mais sorte que por cá. Digo isso porque “London” saiu do Queer Lisboa sem ter conquistado novos galardões, apesar de ser uma das propostas mais arrojadas na Competição de Longas-Metragens.
De facto, trata-se de um filme que parece estabelecer diálogo com alguns dos trabalhos mais provocadores de cinema em 2026. Falo de trabalhos como “Soudain” de Ryusuke Hamaguchi, “Tender Loving Care” de Mike Leigh, “Diary of a Mad Old Man” de Wayne Wang e “A Desconhecida” de Arthur Harari, entre outros. São todas fitas que se questionam sobre a natureza do que é cuidar daqueles mais necessitados na nossa sociedade e sobre como esse cuidado, muitas vezes, assume a forma de marginalização. Também passa pela despersonalização de indivíduos a quem a autonomia é negada, consentimentos violados sob o pretexto de que se está a precaver pelos seus interesses. “É para o seu bem” sabe a mentira.
Porque, no meio disto tudo, desta conversa imaginada entre artistas cuja arte nunca foi criada com o intuito de ser assim conectada, percebemos quanto o conforto da maioria normativa se sobrepõe à humanidade daqueles que se encontram fora dessa categoria. Pessoas como London, um jovem brasileiro com deficiência que passa as noites a trabalhar num clube de fetiche. Pessoas como Victor Di Marco que, além de ser corealizador, coprodutor e coargumentista de “London”, também dá vida à personagem como ator. Em breves palavras antes da exibição no Queer, o cineasta falou mesmo de como nunca havia visto a sua especificidade identitária, esta intersecção da comunidade queer e das pessoas com deficiência, no grande ecrã.
Face a tais afirmações, seria fácil perdermo-nos em questões sobre quanto de Di Marco está em “London” e onde se separa o facto da ficção. No entanto, considero mais justo e respeitoso para com os artistas encarar a obra sem sucumbir a tais especulações. Quando se está perante um texto tão rico como este, seria um crime reduzir tudo a autoficções ou à presunção de um qualquer solipsismo narrativo. Di Marco, Piccoli, e todos aqueles envolvidos em “London” merecem mais que isso. Afinal, o filme não demora tempo algum em arrebatar o espectador com uma mélange de ideias fascinantes, tanto ao nível conceptual, pessoal e audiovisual.
London é uma personagem apaixonante, complicada, magnética.

Conhecemos London na intimidade de uma narração voz-off, enquanto a luz direta do sol rasga a imagem com sua áspera intensidade. Estamos num registo muito comum do cinema independente e do realismo social, com câmara ao ombro e um grande plano tão tremido quanto intromissor, como se o filme nos obrigasse a ajustar a visão, a semicerrar os olhos na tentativa de ver melhor a personagem titular. Só o classicismo de um enquadramento em 4:3 nos sugere algo mais complexo do que uma simples busca pela autenticidade estética. Isso e o conteúdo daquela referida narração, pela qual London se apresenta em jeito de autorreflexão sobre seu ódio ao dia e amor à noite.
A luz do dia convida aos olhares penetrantes de estranhos cheios de curiosidade ou, em realidade inversa, mas não por isso menos dolorosa, à invisibilidade. A noite é uma aliada, uma cúmplice cuja calada proporciona um mundo de desejo e aparente perversão, a liberdade de só se ser visto como e quando queremos. À noite, London pode despir a máscara e o figurino do “homem vulgar” e fantasiar-se de si mesmo, um paradoxo delicioso que atinge o seu auge nos confins labirínticos do seu local de trabalho. Aí, nesse sítio que descobrimos num longo take serpenteante, London reivindica controlo sobre si, sobre aqueles que o veem, sobre aqueles que a si se juntam num teatro de prazer.
Com fita adesiva, ele imobiliza homens que ardem de desejo, como se replicasse as ansiedades da autonomia negada de cada dia num cenário libertador e no corpo de outrem. Em seu redor, telões de plástico deixam trespassar a sua imagem para o prazer de quem se faz só de voyeur, mas London apenas vê o seu reflexo quando mira para as paredes improvisadas do seu reino de sexo e fantasia. Há muito que se lhe diga sobre a relação entre as pessoas de corpos e desejos não-normativos e as práticas sexuais também elas descritas desse jeito. O fetiche é algo devasso para muitos. Para outros, pode ser um santuário e uma forma de saciar fomes carnais que a convenção não permite, ora por exclusão, ora por impossibilidades práticas, realidades materiais.
Há quem se queixe de cenas de sexo desnecessárias no cinema e na televisão – como se qualquer cena fosse “necessária” ou isso fosse critério para a sua existência – mas “London” realmente justifica a contemplação carnal como ponto essencial da história que tem para contar. É um ponto essencial do seu estudo de personagem, dizendo-nos muito sem que uma palavra seja verbalizada. Outro exemplo, esse passado de dia e aquando de um engate do Grindr, vê London trocar as voltas às dinâmicas da cena. Parece, inicialmente, que ele se encontra em posição vulnerável e submissa. Um movimento da perna que mantém a perna apoiada numa armadura plástica revela outra ordem, um domínio sexual que também é uma afirmação de domínio próprio.
Longe de fazer do fetiche patologia, “London” usa o que outros veem como sordidez como forma de negar a patologia a que tanta gente é reduzida. Os aleijados são mais do que seu aleijamento, assim como um corpo envelhecido é mais do que sua idade vetusta. Dessa mesma ideia surge uma amizade interessante com uma mulher mais velha, um complemento às relações mais platónicas com amigos do trabalho. Um contraste com as difíceis ligações familiares com uma mãe que não compreende completamente o seu filho e uma irmã mais nova que pode estar no mesmo caminho de London, destinada a passar pelos mesmos traumas que ainda o assombram com as faces de juventudes antigas.
No meio disto tudo, surge a questão do diagnóstico. London resiste às pressões matriarcais e médicas, tendo há muito desistido do que vê como uma futilidade de incertezas. Já fez tantos testes – para quê mais? Há outra ideia sobre esta renúncia também, um terror de ser novamente aprisionado numa identidade cada vez mais limitada, ver o “eu” apagado pelo nome de uma qualquer doença ou síndrome ou o que quer que seja. Por isso ele também quer fugir, seguir o fado traçado pelo seu nome, deixar tudo para trás rumo a uma Londres que talvez só exista em sua imaginação.
Rumo a um cinema queer, que quebre a convenção.

Enquanto filme, “London” anda nestas voltas, evitando a progressão narrativa mais convencional em prol de algo que se adeque a uma figura, a uma comunidade, a uma vida, que, em tudo, quebra com a convenção. Porque, afinal, o que é a normatividade de corpos ou desejos, senão uma convenção, qualquer construção social que se usa para hegemonizar uma suposta maioria e marginalizar todos os demais? Um cinema realmente queer tem que pegar numa marreta e partir a convenção, desafiar os bons costumes e seguir um caminho próprio. Ainda na programação do Queer Lisboa, temos artistas como Barbara Hammer a dizer isso mesmo no documentário retratista “Barbara Forever.”
Olhem, mais um filme em conversa com “London.” Esta é realmente uma obra que se expande além de si mesma nestas maravilhosas conexões, sem, no entanto, deixar de valer por si só, pela própria grandeza. E há muita grandeza em “London”, muito elemento individual que merece aplauso de pé, como os figurinos ou o casting — Carla Cassapo, Jessica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi e Emilio Farias estão todos de parabéns, grandes achados — aqueles jogos de luz de que já falei nos seus contrastes entre noite e dia. Essa dicotomia entre a lixívia de um sol que faz a pele humana parecer embalsamada antes da morte e a policromia da noite, interiores fantasiosos e imaginações que há muito romperam com quaisquer impedimentos que a agrilhoassem. De facto, num momento fulcral, a fotografia de Bruno Polidoro inverte tudo para alcançar a transcendência.
Porque, em gesto de epifania, o filme termina no claustro do clube noturno e na face de London, de olhos fechados, a expressão a passar por toda uma galáxia de significados e sentimentos. Ao mesmo tempo, a luz muda e, como que, surge um sol em rompimento mágico. Já não é cegante, branco e violento, mas um dourado reconfortante, um artifício e uma nota de surrealismo caloroso. Esse artifício sublime de um cinema que aceita não ser apenas a mimese do real, mas também o sonho, a esperança materializada num ecrã. Faz-se isso com a montagem e a luz, a música e a sonoplastia. Faz-se isso através da proeza de Victor Di Marco.
Sim, convém terminar este elogio crítico com um destaque especial para aquele que se revela uma verdadeira estrela neste “London,” filme e personagem. Ao longo da trama, corre-se o risco de cair no ocasional cliché, mas a caracterização que Di Marco constrói na sua performance acaba sempre por salvar o projeto dos seus piores impulsos. Até naquele final de iluminações transformistas e transformadas, a complexidade que ele consegue sugerir enquanto ator é a chave para o sucesso do exercício, nunca pedindo simpatias fáceis ou a piedade lamecha do espetador. Em vez disso, renega a condescendência dessas reações e afirma a dignidade por si mesmo conquistada, deixa-nos vislumbrar todo o paradoxo dentro da ficção, dentro do homem que é London, e convida ao deslumbramento de quem lhe presta testemunha.
London
Conclusão:
- “London” de Victor Di Marco e Marcio Piccoli foi o grande vencedor do Queer Lion no Festival de Veneza e também deu que falar cá em Portugal, no Queer Lisboa, onde integrou a Competição de Longas-Metragens. Muito se fala de obras que desafiam o espectador e promovem o diálogo, mas poucos são os filmes que fazem jus a tais descrições. “London” será um desses raros casos.
- Infelizmente, não ganhou nenhum palmarés pelos nossos lados, mas viaja depois para o Festival do Rio onde, talvez, seja melhor apreciado ainda. O filme merece, nem que seja por ser uma oportunidade, quase inédita, de ver um diálogo interseccional entre comunidades queer e de pessoas com deficiência e os praticantes de fetiche, todos entrelaçados num estudo de personagem que jamais escolhe a facilidade de uma mensagem simplista à complexidade de um texto multidimensional.
- O sexo tem um papel especialmente importante na narrativa e na imagética, exacerbando noções de autonomia e autoridade sobre nós mesmos, sobre a forma como os outros nos olham, nos desejam, nos tocam, e as várias vertentes que o consentimento pode tomar em diferentes contextos. Estes assuntos não são só relevantes para o clube noturno com sexo ao vivo. Também pertencem a considerações sobre convenção social e o tratamento médico, a vida dos marginalizados que lutam contra a sua exclusão através do simples ato de viverem sem pedir desculpa pela sua presença.

