A sinergia entre a paisagem e a figura que nela se encontra tem sido objeto de interesse para muitos artistas ao longo dos séculos e de diversas disciplinas. Como seria de esperar, incluem-se cineastas entre esses criativos, e Marine Atlan é uma delas. Ainda só com uma curta e média-metragem no currículo, a francesa chegou à Semana da Crítica no Festival de Cannes deste ano com “La Gradiva” e, de repente, tornou-se um fenómeno entre críticos, cinéfilos e programadores pelo mundo fora. Na Croisette, ganhou o prémio máximo da sua secção paralela e levou muitos a questionar por que tal obra-prima estava excluída da Competição Principal.
Desde então, a aclamação aumenta, tendo já assegurado distribuição em uma série de países e recebido aplausos imensos das audiências de Toronto e Nova Iorque. Aqui por Lisboa, este conto napolitano também conquistou a gente, consagrando-se grande campeão da 30ª edição do Queer Lisboa. Não só Atlan conquistou o júri composto por Kathleen Gomes, Maria João Madeira e Miguel Nunes, como também levou para casa o Prémio do Público. Sendo que este ano foi histórico para o festival de cinema mais vetusto da capital portuguesa, levando às salas mais de 11.000 espetadores, a honra sente-se redobrada.
Perante isto, é possível ficar na dúvida se Atlan e “La Gradiva” merecem toda esta glória, ficando-se de pé atrás acerca de uma realizadora noviça e sem grande carreira. Mas todos temos que começar de alguma maneira, e Atlan marca esta fase inicial do que se espera ser uma longa filmografia com uma obra de fazer inveja a muitos mestres do cinema com nome feito. Merece o furor? Pois sim, sendo um dos grandes títulos do ano e um trabalho de aparente modéstia que esconde em si imensas profundezas, de sentimento, reflexão histórica, pessoal, sobre as mágoas da juventude e as dores de crescer, como o passado nos define e o desejo nos faz sonhar.
Para explicar a imensidão deste feito, quiçá faça sentido explicar o seu título. “La Gradiva” deriva o nome de um baixo-relevo no Museu do Vaticano, onde três figuras femininas se encontram congeladas no movimento de caminhar. Estão suspensas no tempo, entre o ato de andar rumo a um destino incerto e sua chegada. Essa é a mesma suspensão em que o filme de Atlan trabalha seus estudos de personagem, refletindo este limbo gestual na ideia do adolescente, aquele indivíduo que, nem criança nem adulto, caminha para um futuro e uma identidade incerta. Todos os estudantes que Madame Mercier leva a Itália vivem nesse limbo.
A juventude como um movimento suspenso no tempo, no cinema.

Longe do olhar dessa professora de latim, seus estudantes exploram a sexualidade e os limites de seus corpos mesmo antes de chegarem ao destino da sua visita de estudo. No comboio, há muitas trocas de olhares e seduções furtivas, a experimentação de um rapaz que se pensa queer e uma rapariga que depois se sentirá usada e descartada. A luz que passa pelas janelas e a montagem de Guillaume Lillo inspiram noções de impressionismo, a banalidade destas desventuras adolescentes, apreciadas por meio de uma subjetividade meio melancólica, e a condição efémera do Verão, fazendo-se sentir e forçando reflexões sobre a impermanência da vida.
Quiçá, esta seja a perspetiva de Toni, aluno brincalhão e rebelde, que causa muito transtorno à professora e cujo olhar carrega uma tristeza demasiado grande para alguém tão jovem. Entre visitas a museus e correrias mais públicas com os colegas, ele e James formam uma cumplicidade forjada pelo desejo ilícito, procurando homens no Grindr e mentindo sobre a idade. Mas Toni não está apenas em busca de um orgasmo anónimo. A toda a gente com quem se cruza, ele fala das origens da sua família na área e pergunta sobre o que resta dessa linhagem, se os habitantes locais reconhecem nele um conterrâneo com sangue napolitano.
Ao longo de mais de duas horas, “La Gradiva” vagueia como as figuras suspensas no baixo-relevo que lhe dá nome. Contudo, jamais as suas deambulações nos parecem sem propósito, delineando um retrato coletivo desta turma e sua professora. No entanto, será a história de Toni que mais proporciona a ideia de uma estrutura narrativa concreta, complementada pela sua relação entre a amizade e a cumplicidade carnal com o colega, James, e a curiosidade com que outra rapariga do grupo, Suzanne, tudo observa. Num momento crucial, ela é capaz de ver através dos romantismos de Toni, desabando a sua própria conceção de “eu.”
Quem sou eu? A pergunta reverbera por todos estes jovens, mas Toni em particular, quer seja nas suas ações, sua relação com a paisagem, ou as palavras de uma composição que ele entrega atrasada a Madame Mercier. Ela recusa-se a ler o texto, quase troça do aluno depois de um dia stressante, mal sabendo que, nas páginas amarfanhadas que ele entrega, se encontra o coração aberto de um jovem perdido, a alma de alguém em busca de um lugar no mundo e cujas buscas acabam sempre inconclusas. Ou pior, num desfecho que converte as histórias da avó numa mentira a esconder a monstruosidade de uma aristocracia italiana que, para trás, só deixou um palácio abandonado, condenado ao esquecimento.
Um lirismo raro , imersivo e apaixonante, inevitavelmente arrasador.

Atlan articula este estudo de personagem com seu estudo da paisagem, fazendo muito do seu trabalho através da implicação e da reticência insinuante. Antes de se tornar realizadora, esta artista era diretora de fotografia – nomeada ao César por “L’Engloutie” – e sua sagacidade no que se refere ao poder da imagem está patente em todos os aspetos de “La Gradiva.” Especialmente no sentido de ritmo, com a duração meio épica da fita passando sem se anunciar ou pesar na mente do espetador. Toda a imagem flui livremente para a próxima, quase como na escrita automática dos modernistas na viragem do século XIX para o XX.
E o significado está contido nessa mesma imagem, mas principalmente na sua colisão e correlação, tal como ocorre no diálogo interno que se estabelece quando Atlan nos mostra os adolescentes perante obras de arte milenares. As explicações da professora são uma coisa, mas há algo mais profundo no simples plano de um olhar curioso rodeado por História material, beleza ancestral. Nesse sentido, há algo de cinema puro no trabalho da realizadora, uma depuração do seu discurso e estratégia audiovisual que vivem em comunhão com um conhecimento profundo sobre o passado deste meio.
Afinal, será impossível ver “La Gradiva” e esses muitos momentos contemplativos sem pensar nos filmes que Rossellini rodou com Ingrid Bergman nos anos cinquenta, inclusive a “Viagem em Itália”, cujo espectro assombra este novo texto, suas personagens, suas gravuras no celuloide, a transbordar de vida congelada no tempo. Também há Visconti metido pelo meio, nomeadamente nas noções de um passado aristocrático feito memória degradada, a ruína de uma prosperidade antiga cujo fausto escondeu violências imperdoáveis. No olhar de Toni está o mesmo sentido de perda que Burt Lancaster refletiu em “O Leopardo.”
É fácil escrever e escrever e escrever ainda mais sobre “La Gradiva,” perdendo-se o seu impacto emocional nestas indagações de referência artística e formalismo puro e duro. Contudo, é na generosidade que Atlan tem para com as suas personagens que a obra se afirma na plenitude. É por isso que, quando a divagação sensualista se torna tragédia, sentimos essa transição no âmago, talvez no umbigo, um murro no estômago cuja dor não é mais fácil de tolerar porque já se antecipava desde os primeiros rasgos de existencialismo na face de um adolescente sem eira nem beira. “La Gradiva” é um filme bem especial e Atlan merece todas as honras que tem recebido. Suas vitórias no Queer Lisboa não são somente uma celebração do filme, mas também uma valorização do festival, que, já na casa dos trinta, há muito superou os mistérios da adolescência.
La Gradiva
Conclusão:
- Um poema audiovisual em cenário napolitano, entre os fantasmas de Pompeia e a vitalidade efémera de adolescentes em processo de autodescoberta, “La Gradiva” é um filme que deslumbra de mil modos e mais alguns. A sua sagacidade em relação à paisagem e à figura, o indivíduo presente e o peso da História enquanto passado pessoal e algo mais universal, é bom exemplo.
- Mas também há o primor das imagens, da montagem e sua sonoridade imersiva, uma banda-sonora que chama pela nostalgia sem fazer com que as personagens adolescentes em cena pareçam inautênticas, o produto da imaginação adulta em retrospetiva distante. Marine Atlan é uma humanista e uma poetisa, uma diretora de fotografia que assim faz o salto para a realização da longa-metragem e logo se assume como mestra do cinema.
- Mal podemos esperar para ver o que ela nos trará depois. Considerando o milagre de “La Gradiva,” a antecipação é de deixar o coração aos pulos, o corpo e o espírito eletrizados. Não admira que o júri do Queer Lisboa se tenha rendido aos seus encantos. E o público também, pois claro, sendo que este festival tem vindo a conseguir cultivar audiências que, além do bom gosto, partilham a paixão pela arte, pela representação queer, pela vida e o desejo e os mistérios da existência transpostas em celuloide a 24 fotogramas por segundo. Viva “La Gradiva”! E viva o Queer Lisboa!!

