©International Film Festival Rotterdam

Uma obra co-produzida pela Palestina, Alemanha, Arábia Saudita e Suécia, “Habibi Hussein” é um filme imperdível que reflecte a potencialmente devastadora distância temporal, celebra a arte do cinema e da sua projeção e desenha um estudo de personagem que evidencia o imperialismo colonial do qual os europeus continuam a ser culpados.

Hussein Darby e a paixão pela projeção no DocLisboa

“Habibi Hussein”, de Alex Bakri, exibido em dose dupla no DocLisboa 2026, acompanha a remodelação de um cinema palestiniano na Cisjordinânia, o histórico Cinema Jenin, que em 2008 estava devoluto e muito massacrado pelo tempo. Este documentário acompanha todos os eventos através do ponto de vista muito vincado de um protagonista apaixonante –  Hussein Darby, o último projeccionista do espaço, um homem apaixonado por cinema, pela sua técnica e pela sua exibição.

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Já na meia-idade quando o documentário começou a ser filmado,  há quase 20 anos, Hussein é um absoluto perito no que diz respeito às máquinas que projectam a sétima arte. Consciente desse facto, o carismático e abrasivo Hussein tem muito orgulho no seu trabalho e, ao longo da duração de “Habibi Hussein”, faz das tripas coração para ajudar a pôr o cinema a funcionar de novo. Ora tal implica pedir peças emprestadas a cinemas vizinhos, ora significa até tentar ir a Israel buscar componentes.

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A remodelação, essa foi supervisionada e possibilitada financeiramente por fundos europeus, essencialmente alemães. A equipa de peritos que chega à Palestina é nitidamente alemã, diga-se de passagem. Arrogantes e com um forte complexo de salvador, estes intervenientes nunca respeitam a perícia de Hussein, que de tudo faz para poder recuperar a sua posição como projeccionista no Jenin, cargo que ocupou durante décadas.

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Habibi Hussein DocLisboa
©DocLisboa

O filme é muito eficaz e notável do ponto de vista emocional, pois reagimos aos eventos que se desenrolam a partir do ponto de vista de Hussein (não exclusivamente, mas perto disso). Tal permite-nos sentir a injustiça sofrida na pele, como se nós mesmos fossemos o alvo dessa mesma injúria.

Habibi Hussein: sobre a vida e cultura na Palestina

E se a obra é muito meritória no que diz respeito a identificar a excessiva auto-bajulação dos alemães que põem mãos à obra para renovar este cinema, a verdade é que o foco do filme continua a ser largamente positivo: este é um documentário sobre reconstruir, sobre recriar e não sobre destruir.

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Por uma vez, é bom ver um filme sobre a Palestina onde algo esteja a ser criado e não destruído. Onde o foco seja na vida deste povo e não na sua ruína e morte. Desde os primeiros planos, vemos uma cidade a fervilhar com luz, música, movimento, e os belos planos do projetor do Cinema Jenin convidam-nos a não querer abandonar a sala.

Hussein trabalha como projeccionista desde os 12 anos, é um perito nato e um mestre do desenrasca e é estupendo observar a sua jornada, mesmo que não seja sempre justa ou feliz.

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Por muito triste que seja, porque a vida nem sempre decorre como gostaríamos, os minutos finais de “Habibi Hussein” assumem uma mudança tonal agressiva, tornando-se tudo subitamente quase insuportável.

Isto porque o Cinema Jenin, depois de tanto esforço, acabou por fechar nem uma década depois, demolido para dar lugar a um espaço comercial mais rentável, apagando assim as suas muitas décadas de história e todo o trabalho, tempo e dinheiro empregue na sua remodelação.

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Nos últimos minutos de filme, ficamos com um Hussein devastado, capaz de nos dilacerar, e sabemos também que, uma vez destruído o Jenin, também o seu projeccionista acabou por perecer passado muito pouco tempo. Quase poético, não fosse tão perverso, pois a história de Hussein e a história do Jenin são uma e única e que bonita foi esta história.

E que belíssimo e tão emotivo documentário, focado tanto na 7ª arte e na sua praxis, como na vida de um homem comum mas notável, e ainda na expressão cultural do povo da Palestina. Um filme tão discreto na cena das estreias do ano, e não obstante tão especial e valente.

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Quanto ao DocLisboa, continua com sessões de vencedores até à próxima sexta-feira – dia 30 de outubro. Em 2027 estará de volta e cá estaremos para o acompanhar.

Habibi Hussein, a Crítica

Conclusão

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Que belo, que trágico, que singular é este “Habibi Hussein” – um pedaço de história sobre um homem, o cinema que ousou ajudar e edificar e a estrutura cultural da Palestina.

Overall
9/10
9/10
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