Da publicidade ao cinema, da televisão ao teatro, de Coisa Ruim a Aquí, Tiago Guedes construiu uma carreira que recusa fórmulas, géneros fechados e respostas demasiado arrumadas. A propósito da retrospectiva do LEFFEST 2026, revisitámos com o realizador mais de vinte e cinco anos de trabalho, entre Veneza, Cannes, fantasmas portugueses, famílias que não conseguem comunicar e uma certeza cada vez maior: no cinema, como na vida, as coisas mais interessantes acontecem muitas vezes entre os acontecimentos.
Tiago Guedes não construiu uma carreira a repetir aquilo que lhe correu bem. Felizmente. Se assim fosse, depois do sucesso internacional de A Herdade provavelmente ainda estaria a filmar latifúndios, cavalos ao pôr-do-sol e famílias portuguesas com património suficiente para esconder várias gerações de problemas. Em vez disso, foi fazendo praticamente o contrário: terror, drama social, comédia política, espionagem, melodrama histórico, adaptações de Tiago Rodrigues, Cesare Pavese e J. M. Coetzee, televisão, teatro, publicidade e videoclipes.
A especialização nunca lhe assentou particularmente bem. E é precisamente isso que torna a retrospectiva que o LEFFEST 2026 lhe dedica mais interessante do que uma simples sucessão cronológica de filmes. Vista agora à distância, aquela aparente dispersão revela uma coerência inesperada. Mudam os géneros, os formatos, os países e até as línguas; regressam as famílias, a memória, a culpa, a violência, a dificuldade de comunicar e, sobretudo, aquilo que permanece depois de alguma coisa acontecer. “Interessam-me muito mais as consequências ou as origens dessa violência do que o acto da violência em si”, explicou-me Tiago Guedes durante uma longa conversa a propósito desta retrospectiva. A frase é quase uma chave clandestina para entrar na sua obra. Guedes gosta dos espaços “entre” os acontecimentos, dos restos, da antecipação, do momento posterior à explosão. O murro interessa-lhe; a pessoa sentada cinco minutos depois, sem saber o que dizer, interessa-lhe ainda mais.
Da publicidade ao terror, sem complexos
Nascido no Porto em 1971, estudou Publicidade na Universidade Fernando Pessoa, passou pela New York Film Academy e pelo Raindance, em Londres, e começou profissionalmente precisamente na publicidade e nos videoclipes. Não renega essa escola. Pelo contrário: chama-lhe uma espécie de “ginásio”, onde pôde experimentar equipamentos, materiais e linguagens que dificilmente teria ao seu alcance quando ainda procurava uma porta de entrada no cinema. Filmou ainda em película, coisa que recorda com alguma nostalgia, sobretudo pela disciplina que o suporte obrigava a ter. Mas o realizador que hoje procura tempo, silêncio e respiração não nasceu de uma reacção à rapidez publicitária. Nasceu, diz ele, da maturação e, sobretudo, do teatro.
Antes disso houve Frederico Serra. Juntos fizeram O Ralo, Acordar, Alta Fidelidade, Coisa Ruim e Entre os Dedos. Uma realização a dois que, ao contrário do pesadelo matrimonial que poderíamos imaginar, Guedes recorda como particularmente simples. A dúvida de um encontrava rapidamente a decisão do outro. Coisa Ruim permanece essencial porque assumiu o terror numa cinematografia portuguesa que durante demasiado tempo pareceu desconfiar do cinema de género. Guedes nunca percebeu esse complexo. O terror fazia parte da sua educação sentimental como espectador e, mais de vinte anos depois, admite que continua dentro dele como um motor importante. Já Entre os Dedos parece mudar completamente de direcção: desemprego, precariedade, relações familiares em desagregação, guerra colonial, doença. Sai o sobrenatural, entra a realidade portuguesa, que às vezes consegue ser bastante mais assustadora. Mas ele próprio reconhece agora que os dois filmes afinal se tocam: incomunicabilidade, família, relações fracturadas, coisas mal resolvidas que regressam.
O filme que mudou a escala
A colaboração com Tiago Rodrigues abriria outra fase. Coro dos Amantes, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas e, mais tarde, Restos do Vento levaram-no a um território onde teatro, palavra e cinema se contaminam mutuamente. Depois chegou A Herdade.
Competição em Veneza, passagem por Toronto, candidato português ao Óscar e um reconhecimento internacional que mudou inevitavelmente a escala da carreira. Mas Guedes garante que durante a rodagem não estava propriamente a imaginar passadeiras vermelhas. Estava concentrado numa família incapaz de se entender.
É talvez isso que evita que A Herdade se transforme numa aula de História ilustrada. Estado Novo, 25 de Abril, latifúndio, classe, poder e decadência estão lá, mas Guedes diz que preferiu concentrar-se “naquela família, nos silêncios”, deixando a História acontecer em redor das personagens. Também nunca teve problemas em chamar western ao filme. Sergio Leone foi determinante na sua formação e A Herdade permitiu-lhe brincar com essa plasticidade sem que o cinema português tivesse de pedir autorização para montar a cavalo. A discussão entre cinema de autor e cinema comercial interessa-lhe pouco. “Existem bons e maus filmes”, resume. Parece elementar, mas numa indústria que adora construir capelinhas talvez ainda seja uma declaração razoavelmente subversiva.
Cinema, televisão e teatro: as gavetas ficam para os móveis
A televisão nunca foi para Tiago Guedes um emprego de fim-de-semana. Odisseia, Os Boys e Glória são três objectos completamente diferentes e confirmam essa capacidade de passar de linguagem em linguagem sem solicitar certificado de pureza autoral. Odisseia, aparentemente um enorme improviso protagonizado por Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington, era afinal uma das séries mais escritas que fez. Os Boys permitiu-lhe entrar na sátira política — embora hoje prefira não comentar demasiado a política portuguesa porque, diz, “está tudo a ficar um absurdo”. E Glória, primeira série portuguesa original da Netflix, trouxe uma responsabilidade diferente: provar que Portugal possuía actores, técnicos e capacidade de produção para jogar numa escala internacional. O teatro talvez tenha provocado uma transformação ainda mais profunda. Martin McDonagh, David Harrower, Peter Handke, Ibsen, Dennis Kelly ou, mais recentemente, Suzie Miller com À Primeira Vista (Prima Facie) fazem parte de um percurso paralelo que deixou há muito de ser verdadeiramente paralelo: teatro e cinema contaminam-se permanentemente. Foi no palco que Guedes ganhou outra relação com os actores, o texto, o ensaio e o tempo. Sem a montagem para salvar uma interpretação, é preciso confiar. Essa confiança acabou por regressar aos filmes. Em Diálogos Depois do Fim, a partir de Pavese, filmava os actores do princípio ao fim de cada texto. Eles não são para Guedes simples intérpretes: “São criadores.”
O passado não morre, apenas espera
Restos do Vento, apresentado em Cannes em 2022, regressa ao interior português, às tradições, ao segredo e à violência transmitida por uma comunidade. Aproxima-se inevitavelmente de Coisa Ruim, mas desta vez já nem precisamos de acreditar no sobrenatural: os monstros conseguem perfeitamente viver entre vizinhos.
O filme nasceu parcialmente de uma história real e do interesse de Guedes e Tiago Rodrigues pelas formas aparentemente inocentes através das quais a violência passa entre gerações. Canções populares, rituais, tradições. Algumas coisas continuam a existir porque sempre existiram, o que não significa necessariamente que devessem continuar. Depois veio Diálogos Depois do Fim, mergulho radical em Cesare Pavese, e agora Aquí, adaptação da Trilogia de Jesus, de J. M. Coetzee, apresentada em Cannes Première em 2026. Se Restos do Vento olha para aquilo que uma comunidade se recusa a esquecer verdadeiramente, Aquí faz quase o movimento inverso: leva-nos para um lugar onde as personagens parecem não possuir passado. O paradoxo é irresistível. Depois de uma carreira cheia de pessoas esmagadas pela memória, Tiago Guedes chega finalmente a um mundo sem memória e descobre que o problema continua lá.
Menos respostas, mais cinema

Coetzee parece, aliás, ter chegado no momento certo. Quanto mais filma, diz Guedes, menos interessado está em respostas e conclusões. “Interessam-me menos as respostas e as conclusões. Interessa-me a exploração das possibilidades e dos caminhos.” Quando uma obra fecha tudo, explica, completa-se e podemos deixá-la para trás. Ele prefere que o espectador tenha trabalho. Cinema como relação a três: filme, autor e quem está sentado na sala. Essa recusa em explicar demasiado tornou-se particularmente relevante num momento em que filmes, séries e até espectadores parecem viver perseguidos pelo pânico de não compreender tudo imediatamente. Guedes recusa a solução de tornar as obras mais simplistas apenas porque os espectadores estão cada vez mais distraídos por outros ecrãs. A ambiguidade, para ele, tornou-se quase uma forma de resistência. E o silêncio também.
Em Aquí, a dança assume uma importância particular porque chega onde as palavras falham. “Somos muito mais corpo e silêncio do que razão”, diz. Talvez seja uma das frases que melhor explique o ponto a que chegou actualmente a sua obra.
Da publicidade que precisava de contar alguma coisa em segundos chegou a um filme de mais de três horas. Aquí não dura 203 minutos para provocar ninguém. Dura porque, segundo o realizador, aquele era simplesmente o tempo de que precisava. O primeiro corte tinha quatro horas e meia. Portanto, olhando pelo lado positivo, ainda fomos poupados. Tiago Guedes não parece interessado em construir uma “marca Tiago Guedes”. Ainda bem. Já existem marcas suficientes. Prefere seguir aquilo que lhe interessa a cada momento. Por isso passou do terror ao realismo social, da televisão ao palco, do western à espionagem, de Tiago Rodrigues a Pavese e Coetzee. E por isso uma retrospectiva da sua carreira acaba por revelar uma coisa curiosa: os trabalhos podem parecer radicalmente diferentes, mas continuam a conversar entre si.
Família. Memória. Violência. Herança. Silêncio. Incomunicabilidade. As zonas cinzentas onde ninguém é inteiramente bom ou mau. E, sobretudo, aquilo que acontece quando aparentemente já aconteceu tudo.
JVM



