“Aqui”, do realizador português Tiago Guedes, na Cannes Première. ©Alfama Films/Divulgação

Fora da corrida à Palma de Ouro, mas dentro da zona onde o Festival de Cannes ainda sabe fabricar mistério, “Aqui” adapta J. M. Coetzee, junta Tiago Guedes, Paulo Branco, um elenco europeu e o próprio Nobel na Croisette. Não é pouco. Também não é exactamente normal ter uma ovação tão longa.

No fim da tarde de ontem, aconteceu uma coisa rara e inesperada: um filme de um realizador português entrou quase à última hora na Selecção Oficial de Cannes 2026, sem fanfarra, sem trombetas patrióticas, sem aquele entusiasmo de comunicado que normalmente começa por “Portugal volta a estar representado” e estreia com uma longa ovação.

Pub

Convém, no entanto, começar pela parte menos patriótica da história, para evitar síncopes de entusiasmo nacional: “Aqui”, de Tiago Guedes, não está em competição pela Palma de Ouro. Está na Cannes Première, secção oficial, prestigiada, visível, mas fora da arena principal onde os filmes são devorados, ungidos, vaiados, canonizados ou abatidos a tiro pelas primeiras reacções da imprensa internacional.

Mas Cannes Première não é propriamente um parque de estacionamento de segunda fila de filmes na Croisette. Não é o sítio onde se encostam os títulos que não cabem na Competição. É, muitas vezes, a zona onde Cannes coloca objectos difíceis de classificar: obras de autores reconhecidos, filmes com pedigree, apostas demasiado singulares para o campeonato das Palmas. Ou, simplesmente, títulos que o festival quer proteger do circo competitivo sem lhes retirar o selo oficial.

Pub

E “Aqui” tem precisamente essas características: não cheirava a prémio anunciado, mas cheirava a acontecimento possível. O que, em Cannes, é às vezes quase tão importante como estar na Competição Oficial.

Na sessão oficial, com 3h20 de duração, no Théâtre Debussy, completamente esgotado, estiveram o realizador Tiago Guedes, os actores, Paulo Branco e o escritor J. M. Coetzee. Ou seja: não foi propriamente uma nota de rodapé portuguesa perdida no meio do programa da Selecção Oficial. Estávamos perante uma sessão ao fim da tarde que terminou já noite dentro, com aparato literário, artístico e diplomático suficiente para pôr a imprensa a levantar a sobrancelha. E, em Cannes, uma sobrancelha internacional levantada vale por vezes mais do que dez comunicados de orgulho nacional enviados à Lusa, às redacções dos jornais ou às televisões.

Pub

Coetzee, ou como filmar o impossível

O ponto de partida é, por si só, uma bela loucura: adaptar a “Trilogia de Jesus”, de J. M. Coetzee, Nobel da Literatura em 2003 e duas vezes vencedor do Booker Prize. O argumento é assinado por Tiago Guedes e Luís Araújo, a partir desses romances de Coetzee.

A “Trilogia de Jesus” não é propriamente material literário dócil para uma adaptação cinematográfica. Não é daquelas obras que se adaptam com três exteriores bonitos, uma criança com olhar enigmático e música a entrar quando alguém diz uma frase profunda. Coetzee constrói um mundo limpo demais para ser real, simples demais para ser inocente, racional demais para não meter medo. Um lugar onde todos chegam sem passado, recebem novo nome, nova idade, nova vida e, às vezes, talvez até um novo rosto. Uma terra sem memória, sem excesso, sem grande História, sem conflitos visíveis, quase sem carne, quase sem ironia, quase sem impureza. Uma utopia burocrática, portanto. E, como todas as utopias burocráticas, profundamente inquietante.

Pub
Aqui de Tiago Guedes
A forte presença de Patricia López Arnaiz, em “Aqui” de Tiago Guedes. ©Alfama Films/Divulgação

É aí que aparecem Simón, interpretado por Manolo Solo (“A Quinta”), e o pequeno David, interpretado primeiro por Álex Peláez. Um homem e uma criança que se encontram numa travessia para uma nova vida. Simón assume a responsabilidade pelo rapaz e decide procurar a mãe que David não recorda. Quando vê Inés, interpretada por Patricia López Arnaiz (“Os Domingos”), convence-se de que ela é essa mãe. Ela aceita o papel. Não porque a biologia o confirme, não porque a memória o autorize, mas porque alguém, naquele mundo de recomeços administrados, decide que uma família também pode ser uma ficção que se torna verdade pela força da necessidade.

Uma nova terra onde todos recebem outro nome e começam sem passado; Simón toma conta de David e reconhece Inés como a mulher certa para ocupar o lugar de mãe, enquanto a sociedade trata a diferença como ameaça.

Pub

Ora, dito assim, parece cinema filosófico de alto risco. E é. Mas também é aqui que “Aqui” surpreendeu tudo e todos. Porque Coetzee não escreve alegorias para nos explicar o mundo com uma seta luminosa. Escreve armadilhas. Escreve parábolas sem moral final. Escreve histórias que parecem bíblicas, mas onde Deus nunca chega a assinar o livro de presenças.

Lê Também:
“The Match”: O Dia em que Maradona Roubou a História com a Mão e a Devolveu com o Pé | Festival de Cannes 2026

David pode ser messias, criança impossível, pequeno tirano, génio, embuste, santo, chato, visionário ou apenas aquilo que a sociedade mais teme: alguém que recusa ser formatado. Em Cannes, onde metade da plateia vive à procura de “grandes temas” e a outra metade finge que não, isto tornou-se altamente disruptivo.

Pub

Tiago Guedes e o gosto pelo território instável

Tiago Guedes também não chega aqui como turista acidental. “A Herdade” passou pela competição de Veneza em 2019; “Restos do Vento” integrou a Selecção Oficial de Cannes, nas Special Screenings, em 2022. Ou seja, Guedes já conhece a liturgia dos grandes festivais: os silêncios antes da sessão, os aplausos que podem significar tudo ou nada, os jornalistas que entram cansados e saem em estado de exegese, os programadores que dizem “interessante” quando querem dizer “ainda não sei se gostei”.

O que torna “Aqui” particularmente interessante é que parece deslocar Tiago Guedes para um território ainda mais abstracto, mais rarefeito, menos preso à genealogia social portuguesa. Não é “A Herdade”, com a grande propriedade, a História, a terra, a família e o peso do país. Não é “Restos do Vento”, com a memória rural e a violência que volta como humidade nas paredes. “Aqui” parece querer outra coisa: uma espécie de não-lugar europeu, literário, metafísico, talvez até pós-nacional.

Pub

VÊ TRAILER DE “AQUI”

Portugal está lá, claro, na produção, na assinatura, na arquitectura de circulação do projecto. Mas o filme não parece pedir autorização à bandeira nacional. E isso, no nosso cinema, é quase uma novidade. Não apenas porque as co-produções internacionais continuam a não ter um peso muito significativo no cinema português, mas porque este é um filme português que não se comporta como se tivesse de provar a sua portugalidade a cada plano.

A produção é de Paulo Branco, através da Leopardo Filmes, com co-produção da RTP, da Alfama Films, em França, e da APM, em Portugal, além de parceiros associados em Espanha, França e Alemanha. Branco, como sempre, surge no lugar onde o cinema português deixa de ser apenas assunto interno e passa a circular no tabuleiro europeu. Pode irritar muita gente, como todos os produtores que duram demasiado tempo irritam inevitavelmente muita gente, mas há uma coisa que continua difícil negar: Paulo Branco conhece a geografia simbólica dos festivais como poucos.

Pub

Um elenco europeu para um mundo sem pátria

O elenco também ajuda a perceber que “Aqui” não veio propriamente brincar às produções internacionais: Manolo Solo, Patricia López Arnaiz, Sergi López e Lambert Wilson estão entre os nomes destacados, a par dos jovens Álex Peláez e Hugo Encuentra.

Há qualquer coisa de muito coerente nesta mistura. Coetzee escreveu uma fábula sobre pessoas que chegam a um mundo sem passado; Tiago Guedes filma-a com actores espanhóis e franceses — e portugueses em papéis muito secundários — que trazem já várias memórias do cinema europeu às costas.

Manolo Solo, que contracenou com Maria de Medeiros em “A Quinta”, tem aquela gravidade de homem comum que nunca parece inteiramente comum. Patricia López Arnaiz, de “Os Domingos” ou “20.000 Espécies de Abelhas”, traz uma intensidade seca, nada decorativa, daquelas em que basta olhar para a câmara. Sergi López, de “Sirât”, já é, por si só, uma espécie de continente cinematográfico: basta aparecer para se sentir que algo pode correr mal, mesmo que esteja apenas a atravessar uma rua. Lambert Wilson, de “Combate de Amor e Sonho”, acrescenta uma elegância francesa capaz de fazer qualquer distopia parecer administrativamente bem iluminada.

E depois há os dois jovens actores, Álex Peláez e Hugo Encuentra, que carregam talvez a parte mais difícil: dar corpo a David — e de que maneira —, a essa criança que pode ser profeta, problema, milagre ou birra metafísica.

O risco está todo aí. Se o filme transforma Coetzee numa sucessão de frases nobres, morre de respeito. Se tenta explicar David, perde-o. Se tenta domesticar a estranheza, trai a matéria. Mas se consegue filmar a rarefacção sem a tornar seca, se consegue dar corpo ao pensamento sem cair no teatro filosófico, se consegue fazer da dança, da infância, da fuga, da família inventada e da recusa da norma uma experiência visual e emocional, então “Aqui” pode muito bem ser, para além dos largos minutos de ovação e das críticas que vierem a sair, um filme de que já se fala à saída do Théâtre Debussy com aquela mistura preciosa de desconforto e entusiasmo: “não sei se percebi tudo, mas aquilo ficou-me cá dentro”.

Lê Também:
“Natal Amargo”, Cannes, Almodóvar e a Estreia Mundial em Segunda Mão | Festival de Cannes 2026

Um filme português para o mercado internacional

Há outra razão para olhar para “Aqui” com muita atenção. O cinema português, quando chega aos grandes festivais, chega muitas vezes carregado de uma mala invisível: a mala da pequena dimensão, da falta de meios, da necessidade de legitimação externa, da velha ansiedade de sermos vistos por alguém importante. Cannes agrava isto. Cannes transforma qualquer presença portuguesa num episódio de auto-estima nacional. Se não entramos, é tragédia. Se entramos, é milagre. Se entramos fora de competição, é meia alegria com complexo de inferioridade incluído. Somos muito bons a inventar derrotas mesmo quando há motivos para celebrar.

“Aqui” permite talvez uma conversa mais adulta. Está na Cannes Première. É verdade: fora da Palma de Ouro. Mas dentro da Selecção Oficial, com Coetzee presente, com vendas internacionais asseguradas pela Films Boutique, com uma sessão nobre e uma equipa que cruza Portugal, Espanha, França e Alemanha. Isto não é pouco. Também não é tudo. É cinema em circulação, que é o máximo a que um filme pode aspirar logo depois de ser visto.

Festival de Cannes 2026
“Aqui” foi rodado entre Espanha e Portugal, é falado em castelhano e tem no elenco Manolo Solo. ©Alfama Films/Divulgação

E “Aqui” pode beneficiar precisamente desse lugar lateral na Cannes Première. Não tem de ganhar a Palma. Não tem de competir com os monstros sagrados do ano, com os regressos anunciados, com os cineastas que a crítica já decidiu amar antes de se apagarem as luzes da sala e passar o genérico do Festival de Cannes. Aparece como corpo estranho, é verdade. E os corpos estranhos, em Cannes, são muitas vezes os que ficam.

Sobretudo quando trazem uma pergunta forte: o que somos quando nos retiram a memória? O que é uma família quando não há passado que a legitime? O que é uma criança que recusa aprender a obedecer? O que vale a imaginação num mundo que confunde ordem com salvação?

O título é quase uma provocação pronta a servir

“Aqui”. Aqui onde? Aqui em Cannes? Aqui neste mundo sem passado? Aqui no cinema português que se vai afirmando, aos poucos e subtilmente, nos festivais internacionais? Aqui diante de Coetzee, esse escritor enorme que parece escrever sempre como quem desconfia da espécie humana, mas ainda assim não consegue abandoná-la?

Talvez a beleza do título esteja nessa ambiguidade. “Aqui” é uma afirmação mínima e absoluta. Não promete grandeza. Não hesita, não se desculpa. Apenas se coloca. Está aqui. Chegou aqui. Foi visto aqui. E existe qualquer coisa de elegantemente insolente num filme que se chama apenas “Aqui”.

“Aqui” é uma adaptação de Coetzee. É um filme produzido por Paulo Branco e realizado por Tiago Guedes. Tem um elenco europeu a atravessar uma fábula sobre memória, infância, obediência e liberdade. Mas talvez seja também outra coisa: um sinal de um cinema português que, por uma vez, não chega vestido de coitadinho nem de herói nacional. Chega como filme internacional. Só isso. E já é muito.

Porque Cannes não nos deve nada. Nunca deveu. Mas quando abre a porta, convém aproveitar a oportunidade e entrar com confiança. “Aqui” entrou. Agora falta o mais difícil: ficar.

JVM


About The Author


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *