Adeus Índia, em análise

Em Adeus Índia, a história do Império Britânico e sua influência destruidora nas nações que dominou chegam ao cinema com um filme feito ao estilo de Downton Abbey.

adeus india critica

A história imperialista de Inglaterra é simultaneamente um tópico amplamente discutido e glorificado, como é algo ignorado, mantido na sombra da ignorância e no conforto do passado não examinado. É evidente que poderíamos dizer o mesmo do nosso país, onde o mito de que o colonialismo português foi menos violento ou nocivo que o de outras nações ainda é bem presente. O mesmo tipo de mitificação do passado por meio da nostalgia imperialista é algo que afeta a Inglaterra e sua cultura. Afinal, temos produções televisivas como Indian Summers que nos mostram a vida de famílias inglesas a viver na Índia durante o domínio inglês e nos convidam a simpatizar, ou mesmo a admirar a benevolência aristocrata dessas pessoas e sua compaixão para com as personagens indígenas ao país dominado.

Considerando tudo isso, é normal supor que alguns cineastas, especialmente aqueles, cuja herança cultural lhes ofereça uma perspetiva mais crítica, queiram oferecer às audiências uma perspetiva alternativa à de admiração nostálgica. Gurinder Chadha é precisamente uma realizadora que se incluiria nesse grupo. Esta é uma cineasta cuja carreira se tem centrado principalmente na inserção de uma perspetiva indiana no panorama cultural inglês, desde dramas juvenis como Joga Como Beckham a reinvenções de clássicos literários como A Noiva Indecisa. Para além do mais, o seu passado familiar inclui a história trágica de uma avó que viu a sua filha bebé morrer à fome durante a enorme crise de migração gerada pela separação da Índia e do Paquistão.

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É precisamente esse cataclisma sociopolítico que está no centro do novo filme desta realizadora inglesa. Adeus Índia relata-nos o processo pelo qual as forças inglesas deram a independência de volta à Índia após mais de duzentos anos de domínio imperial, mas, pelo caminho, acordaram separar os territórios em duas nações devido a religiões em conflito. A comunidade muçulmana ficaria com o Paquistão e os restantes indianos de maioria hindu com o país que hoje conhecemos como Índia. Tudo isto se passou em 1947 e o epicentro de tais negociações, que deram origem à maior migração em massa de que há registo e cujas consequências fraturantes ainda se sentem hoje, foi a luxuosa habitação oficial dos Vice-reis da Índia.


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A família do último Vice-rei da Índia protagoniza uma das duas narrativas paralelas que delineiam este drama político. Quando o filme começa, encontramo-nos com o honrado Lord Louis Mountbatten, sua esposa Edwina e a filha dos dois aquando da sua chegada ao país titular. Apesar do seu papel histórico na separação da Índia, é verdade que os Mountbatten são figuras normalmente vistas com algum afeto pela população indiana, especialmente Edwina que teve um papel central na ajuda humanitária necessária no rescaldo da separação. Ao longo do filme, os papéis dos Mountbatten são bastante reacionários e passivos, permitindo à audiência experienciar, através deles, o caos político da altura.

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A segunda linha de desenvolvimento narrativo que o argumento nos oferece é uma formulaica história de amor proibido protagonizada por um rapaz hindu e uma jovem muçulmana, ambos empregues no palácio do Vice-rei. É uma pena que estas personagens sejam tão subdesenvolvidas, não obstante o seu protagonismo, pois o filme bem precisa de uma presença indiana para dar voz às pessoas efetivamente afetadas pelas decisões dos militares e diplomatas ingleses. Pior ainda é o modo como, apesar de ser a secção mais concetualmente coerente do filme, este romance denota a insegurança da realizadora que está muito mais visivelmente à vontade nas cenas focadas na elite britânica, mesmo a nível de direção de atores.

Não que o filme esteja particularmente recheado de grandes prestações. Mais do que isso, o elenco britânico do filme demonstra uma notória inteligência de casting, usando alguns atores instantaneamente associados ao cinema de época britânico, o subgénero mais responsável pela sanitização da história imperialista do país, como é o caso de Michael Gambon, Simon Cowell e o próprio Conde de Grantham, Hugh Bonneville. Com isso dito, estes atores apenas dão prestações aceitáveis, em parte devido à constante torrente de deselegante exposição. A única pessoa a fazer algo verdadeiramente admirável é Gillian Anderson que, sem temer o ridículo, interpreta Edwina Mountbatten com todos os trejeitos e afetações manientas que seriam expectáveis na pose, gestualidade e discurso de uma aristocrata inglesa da época.

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Essas alusões a Downton Abbey não são apenas algumas comparações rebuscadas da nossa argumentação crítica. Na verdade, o filme parece quase ser uma reprodução cinematográfica do estilo formal e opulência histórica dessa série da ITV. Os edifícios luxuosos, os próprios símbolos de opressão inglesa e as marcas materiais da exploração de recursos e das atitudes imperialistas sobre povos ditos inferiores e primitivos, são apresentados com movimentos de câmara elaborados, montagens luxuriantes, cenários belíssimos e uma banda-sonora orquestral que parece ter um orgasmo sinfónico cada vez que um plano geral nos revela mais um salão interior do tamanho de uma catedral.


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Tais escolhas formais mostram uma imensa confusão ideológica no centro de Adeus Índia. A triste verdade é que, enquanto uma cineasta inglesa, Gurinder Chadha está a fazer um filme de época imensamente convencional na tradição do costume drama da BBC. O problema é que esse mesmo tipo de abordagem parece definir as afinidades do filme em oposição ao povo indiano. Em contrapartida, as partes menos predispostas a tal abordagem como o romance trágico parecem acrescentos inorgânicos e desenxabidos. Enfim, não obstante a nobreza das suas intenções, Adeus Índia está longe de ser a grande reapreciação cinematográfica da História imperial britânica que os seus criadores aparentemente queriam fazer.

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Não invalidando tudo o que foi dito antes, o argumento deste filme propõe-nos uma visão bastante controversa sobre o papel inglês na separação da Índia e há que louvar os cineastas que não mostram qualquer tipo de reticência na sua justificada vilificação de Winston Churchill. Segundo Adeus Índia, a separação da Índia não foi somente um produto do tipo de conflitos promovidos gradualmente pelos ingleses entre as comunidades indianas, mas sim algo planeado cuidadosamente durante os anos da 2º Guerra Mundial para simultaneamente garantir o acesso inglês aos recursos naturais dos territórios que passaram a ser o Paquistão, assim como o impedimento de uma nova potência socialista sob a forma de uma Índia unificada. Pelo menos, neste tipo de cáustico conteúdo político, Adeus Índia merece a nossa admiração, respeito e aplausos.

 

Adeus Índia, em análise
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Movie title: Viceroy's House

Date published: 3 de August de 2017

Director(s): Gurinder Chadha

Actor(s): Hugh Bonneville, Gillian Anderson, Michael Gambon, Simon Callow, Manish Dayal, Om Puri, Huma Qureshi

Genre: Drama, Histórico, Biografia, 2017, 106 min

  • Claudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO

Ao mesmo tempo que a espetacularidade formalista e ingenuamente apolítica de Dunkirk enche os cinemas com patriotismo inglês unidimensional, Adeus Índia mostra-nos outro lado dessa potência mundial e do tipo de cultura de nostalgia imperialista promovida por tanto do seu cinema nacional. Não é, de todo, um filme perfeito, mas os poucos riscos que toma e as suas nobres intenções marcam o filme como um objeto de considerável importância.

O MELHOR: Todo o aspeto político que explode nos últimos vinte minutos do filme.

O PIOR: A nível puramente formal, a banda-sonora do filme é um cliché quase insuportável nos seus epítetos melodramáticos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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