Os melhores guarda-roupas da TV | 1. American Crime Story

Para as filmagens da primeira temporada de American Crime Story, a figurinista Hala Bahmet construiu mais de dois mil diferentes conjuntos de raiz, mas o seu esforço valeu a pena e ela conquista assim o primeiro lugar na nossa lista dos melhores guarda-roupas da TV em 2016.

 


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american crime story the people vs oj simpson

O julgamento de O.J. Simpson foi um momento seminal na história da cultura Americana e provavelmente constitui o genesis da cultura de celebridade em que hoje vivemos. Neste momento, um dos grandes frontrunners para o Óscar de Melhor Documentário é um épico com mais de sete horas que examina todo o fenómeno de O.J. Simpson como a narrativa mais americana da história recente, onde todo um legado de preconceitos raciais, demonização social, misoginia internalizada, jogos de privilégio sem limites, desequilíbrios judiciais e o ressentimento de uma população oprimida conflagrou de modo explosivo. Em suma, a história de O.J. não é somente a história de uma celebridade assassina que saiu impune quando acusado de um brutal duplo homicídio, mas sim uma tragédia operática onde o protagonista é, na verdade, a nação dos EUA.

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Antes ainda de O.J: Made in America ter feito a sua muito breve passagem pelos cinemas e estreia televisiva, já um muito publicitado programa sobre o mesmo caso tinha vindo relembrar o mundo do escândalo mediático. American Crime Story: The People vs O.J. Simpson é uma produção orquestrada pela mente enlouquecida de Ryan Murphy e, tal como acontece com todas as suas criações, existe uma linha de melodrama lascivo a sombrear todo o projeto. Felizmente, neste caso, a sensibilidade de Murphy não assassinou as suas ambições de comentário sociopolítico, talvez pela natureza turgida e mediática dos factos originais, e o resultado final foi um dos programas mais criticamente aclamados de 2016.

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Para a execução desta proposta de dramatização histórica, Murphy reuniu uma equipa cheia de caras conhecidas das suas produções, tanto em frente como atrás das câmaras. No entanto, a cargo da construção do monumental guarda-roupa necessário para a série está uma estreante na oeuvre de Ryan Murphy, a figurinista Hala Bahmet. Apesar disso, o seu trabalho não mostra quaisquer marcas de esforço ou insegurança, sendo, e Bahmet recebeu uma merecida indicação para o Emmy de Melhores Figurinos, um galardão que, na nossa opinião, ela devia ter levado para casa.

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A uma primeira análise, o trabalho de Bahmet poderá parecer uma extensa e exaustiva recriação arqueológica dos eventos do caso judicial. Certamente, a figurinista vestiu o interior do tribunal em que o caso foi julgado com roupas replicadas das horas infindáveis de filmagens que, na época, foram emitidas em direto para todos os EUA. Para alcançar tal feito, ela recorreu a muitas das marcas originais em busca de peças de arquivo, especialmente fatos masculinos, e chegou mesmo a contactar alguns dos alfaiates das figuras histórica para obter réplicas exatas de camisas ou coleções de centenas de gravatas das mesmas linhas preferidas pelos reais intervenientes da trama.

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No entanto, fora do olhar das câmaras estende-se toda uma vida privada marcada pela celebridade mas segregada do testemunho público e aí, a figurinista teve de se apoiar na sua estudada conjetura e sentido estilístico. O episódio que se foca no júri sequestrado, por exemplo, é um festim das modas ressacadas dos anos 80 misturadas com alguns apontamentos de novas tendências que, consoante o background socioeconómico das pessoas em questão, as personagens poderiam ter credivelmente vestido na vida real. Além do mais, mesmo em cenas à vigília das câmaras televisivas, os figurinos da série exemplificam uma moderada estilização dramática – por vezes é o contraste cromático entre as duas equipas de advogados que é exagerado, outras vezes são as proporções démodé que são suavizadas para não distrair a audiência ou, pelo contrário, a escala de um padrão é exagerado para guiar o olho do espetador.

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Entre a subtileza sagaz e o melodrama desenvergonhado, tanto a série como o seu guarda-roupa se desenvolvem e o mesmo aconteceu com o próprio julgamento. Não devemos esquecer o papel que a imagem pessoal e cultural teve em todo este escândalo, onde advogados da defesa chegaram a usar gravatas com padrões africanos para sinalizar ao júri a herança sociocultural do seu cliente, ou como o júri apareceu todo vestido de preto em forma de protesto silencioso, ou até como os media escrutinaram venenosamente todas as escolhas estilísticas de Marcia Clark, cujas makeovers reacionárias são tema de um inteiro episódio. Efetivamente, poderíamos dizer que, no seguimento de toda a sua carga histórica, política e ideológica, a primeira temporada de American Crime Story foi uma investigação sobre o poder da imagem pública e suas cruéis repercussões a nível individual e coletivo. Consequentemente, a exata especificidade do guarda-roupa edificado por Hala Bahmet torna-se num elemento tão importante como a prestação bombástica de Sarah Paulson ou o guião acídico cheio de considerações críticas sobre os eventos do passado recente.

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Assim termina a nossa lista dos melhores guarda-roupas televisivos de 2016. Concordas com as nossas escolhas ou pensas que omitimos algum extraordinário feito de design de figurinos? Deixa a tua resposta nos comentários!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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