"Amulet" | @ MotelX

MOTELx ’20 | Amulet, em análise

Com “Amulet”, Romola Garai vira uma importante página na sua carreira. De atriz consagrada a cineasta do terror, ela prova que é tão formidável atrás como é à frente das câmaras. “Amulet” está na Competição de Longas-Metragens Europeias do 14º MOTELx.

Algures na Europa de Leste, uma guerra decorreu. Há muitos exemplos para tirar da História, mas a narrativa de “Amulet” nunca especifica o contexto do conflito. Como iremos descobrir, esse é o modus operandi da realizadora Romola Garai. Enfim, dessa guerra incerta e indefinida, muito trauma desabrochou, suas cicatrizes altas e bem visíveis na pele e na mente daqueles que a travaram. Tomas é um desses veteranos assombrados. Ele é também o protagonista de “Amulet” e, quando o conhecemos, está a fazer a vida com trabalho precário e noites passadas em abrigos britânicos. Um refugiado que nunca recebe esse nome, mas não deixa por isso de o ser.

Os pesadelos do passado não o deixam em paz e, quando vai dormir, Tomas faz questão de se prender com fita adesiva. O que tem ele medo de fazer no sono? Antes de sabermos tais mistérios, o nosso (anti) herói cruza-se com uma freira de aparência caridosa e, em três tempos, seu fado é radicalmente alterado. Graças à senhora religiosa ele arranja casa e trabalho fora das zonas de construção. Seu novo lar é decrépito, mas resguarda do relento, uma casa antiga e suja onde moram mãe e filha, também elas imigrantes de zonas desconhecidas da Europa. Infelizmente, nem tudo é o que parece.

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© MotelX

Garai não necessita do advento do sobrenatural para tornar o edifício num palco de horrores que nos dá calafrios. As paredes são autênticos palimpsestos de bolor e papel escamado, os tetos caem aos bocados enquanto os canos vomitam águas turvas e líquidos de um vermelho sanguíneo. Também não há eletricidade, pelo que as noites fazem da casa um palácio das sombras e silêncio, onde os ruídos vindos do sótão onde mora a mãe enferma tomam proporções demoníacas. Trata-se de um espaço clássico do cinema de terror, mas “Amulet” tanto apela à tradição como a viola, disseca e eviscera sem dó nem misericórdia.

Ao mesmo tempo que Garai conta a história de Tomas na casa das senhoras, também se aventura pela nebulosa memória dos tempos da guerra, quando o antigo soldado deu guarida a uma mulher em desespero. Contudo, o heroísmo de Tomas não é algo a ser aceite sem dúvida e, por muito que ele se considere a si mesmo como boa pessoa, há crimes de ontem cujas sentenças serão cumpridas hoje. A montagem faz muito para assim diluir a membrana porosa que separa cronologias e a culpa faz de agulha, suturando o antes e o agora em disforme união.

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Essa estrada para esse castigo não é reta nem de fácil visibilidade. O caminho é retorcido e o destino não é claro desde início, com o argumento e os atores a fazerem tudo para exaltar a ambiguidade e confundir o espetador. Este é aquele cinema que perturba mais do que assusta, que conjura uma atmosfera de pestilência cósmica ao invés de espicaçar com sustos repentinos ou visões grotescas. Não que, verdade seja dita, Garai nos poupe a algumas imagens cheias de sangue e carne decepada.

Um dos momentos mais gráficos da fita centra-se numa sanita e nos monstros que recheiam a canalização da casa e fazem da latrina um berço molhado. Tomas tenta limpar a casa-de-banho e acaba por se defrontar contra um morcego descarnado, meio-morto e meio-raivoso que emerge das águas e o tenta morder. Noutra ocasião, os jantares carnívoros do homem pagam os dividendos com um parto impossível, e, na mesma cena, uma concha gigante abre o portal para o pesadelo do divino feminino. Sim, “Amulet” pode não assustar, mas compensa isso com muito arrepio. De facto, quando o filme acaba quase que sentimos a necessidade de um duche ou talvez uma vacina contra o tétano.

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© MotelX

Por muito que este mural de pestilência da carne e do espírito nos perturbe, seu apelo visceral nem sempre é suficiente para esconder algumas falhas dramatúrgicas. Alec Secareanu, Carla Juri e Imelda Staunton fazem o seu melhor para dar vida ao enredo, mas a extrema ambiguidade das personagens leva a caracterizações esbatidas e pouco certas. Como resultado, nem sempre é fácil preocuparmo-nos com o que acontece em cena ou com o triste destino destes humanos e sua cosmogonia do mal. Algo é certo, Romola Garai é uma realizadora do terror cheia de potencial e esperaremos seu próximo filme com grande antecipação.

Amulet, em análise
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Movie title: Amulet

Date published: 11 de September de 2020

Director(s): Romola Garai

Actor(s): Alec Secareanu, Carla Juri, Imelda Staunton, Angeliki Papoulia, Anah Ruddin

Genre: Terror, 2020, 99 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

De alma podre e corpo doente, “Amulet” é um festim de repugna visceral. Entre imagens do ambiente doméstico feito em inferno e os fantasmas da guerra, o filme é um grito de raiva contra masculinidade tóxica e a violência contra mulheres que tanto envenena a nossa sociedade e cultura.

O MELHOR: A cenografia genialmente nojenta de Francesca Massariol.

O PIOR: O véu de ambiguidade excessiva que encobre toda a primeira metade da narrativa.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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