A Bela e o Monstro | o vestuário do Monstro

Entre modelos digitais, figurinos físicos e o estilo setecentista de Dan Stevens, a personagem do Monstro tem um dos guarda-roupas mais interessantes de A Bela e o Monstro.

 


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a bela e o monstro jacqueline durran

Para além das usuais exigências criativas, conceber os figurinos para o protagonista masculino de A Bela e o Monstro provou-se um descomunal desafio técnico para a figurinista Jacqueline Durran. É que, mesmo durante as filmagens, o realizador Bill Condon e os executivos da Disney estavam em conflito sobre o modo de criar o Monstro no grande ecrã e isso levou a mudanças drásticas e constantes que afetaram diretamente o guarda-roupa da personagem, sem contar com o trabalho do ator Dan Stevens. É que, originalmente, Condon queria filmar o Monstro a partir de efeitos práticos, com um fato especial para alterar a forma do corpo do ator e extensiva maquilhagem transformativa para tornar o charmoso ator de Downton Abbey e Legion numa criatura fantasiosa e muito peluda.

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No final, mesmo com cenas já filmadas com a maquilhagem especial, os executivos responsáveis pelo projeto exigiram que, em pós-produção, o Monstro fosse tornado numa criação completamente digital. Isto resultou num desagradável meio-termo em que, apesar da sua aparência desumana, os movimentos do príncipe amaldiçoado não têm nenhuma da brutalidade animalesca da versão animada, nem nenhuma da fisicalidade visceral que o uso de efeitos práticos possibilitaria. Ao invés, temos uma amálgama gerada por computador com um aspeto irritantemente plástico.

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Enfim, este artigo não se trata de uma crítica do filme, mas sim de uma exploração dos figurinos da personagem do Monstro. Figurinos, esses que foram todos desenhados e executados por Jacqueline Durran e a sua equipa. Posteriormente, o seu trabalho foi usado para se fazerem scans digitais e servir de material de referência aos animadores da versão final da personagem. Todas essas considerações são, contudo, relegadas somente ao panorama da execução técnica.

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No que se refere ao discurso visual estabelecido pelos figurinos de Durran, a história é bem diferente. Longe de percalços inesperados e desenvolvimentos erráticos, os figurinos do Monstro refletem uma evolução gradual que é claramente inspirada pelo seu análogo animado. Tal como em A Bela e o Monstro de 1991, o Monstro conhece Belle em andrajosos farrapos que ele arrasta consigo pelos sombrios corredores do seu castelo, mas, lentamente, vai-se aprumando e começando a vestir peças mais claramente humanas e menos deterioradas. Interessantemente, a sua cor principal é o azul, algo que estabelece logo uma ligação forte para com a sua futura companheira amorosa, mesmo quando os dois ainda não se conseguem entender.

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Como acontece com Belle, o píncaro dessa evolução é a icónica cena do baile em que, para acompanhar a sua convidada vestida de luminoso amarelo, o Monstro enverga um conjunto novo em folha. Este figurino, que reflete bem a inspiração setecentista de todo o guarda-roupa do filme é em tons de azul que, para criar uma ligação aos detalhes no vestido de Belle, Jacqueline Durran pontuou com pormenores doirados. Esses pormenores, ao invés de serem bordados, são pintados sobre o tecido e aplicados, tal como acontece com o conjunto de Belle que é magicado do nada graças aos estranhos poderes do castelo e seus habitantes.

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Até agora falámos apenas das roupas usadas pelo protagonista na sua forma monstruosa mas Dan Stevens ainda aparece algumas vezes em cena sem a sua aparência sobrenatural. Primeiro, temos a melhor cena deste novo A Bela e o Monstro (é uma das poucas que não é um remake pueril do filme de 1991) em que Condon e sua equipa nos mostram o momento fatídico em que um príncipe arrogante rejeita os pedidos de auxílio de uma feiticeira disfarçada de indefesa idosa e é prontamente castigado. Aqui, Stevens é uma visão do excesso e desinibo hedonismo que caracterizava tanta da aristocracia francesa nos anos anteriores à Revolução em 1789.

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Com uma peruca empoada e uma maquilhagem que o faz parecer uma estrela de glam rock, Dan Stevens é majestoso e o seu figurino não lhe fica atrás. Quando todos os seus convidados estão vestidos de branco e ouro, ele enverga preto e quantidades insanas de bordado decorativo e até pérolas cosidas ao material da sua casaca formal. O fausto quase grotesco deste visual é um reflexo óbvio do seu terrível carácter – para além da sua arrogância, o príncipe financia a riqueza do seu lar com o fruto de monstruosos impostos sobre os aldeões e gasta fortunas em festas para as quais são apenas convidados os mais ricos e belos.

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Os anos passados como um monstro amaldiçoado conjugados com o amor e compaixão de Belle derretem o coração gelado deste aristocrata e, quando o vemos no final a meio de uma festa de celebração, a sua aparência mudou muito. Longe das maquilhagens exuberantes de outrora, ele agora mostra uma cara limpa de cosméticas pseudo setecentistas e o seu cabelo, apesar de estar num estilo histórico, não mostra a exuberância passada. De modo semelhante, o veludo preto e renda dourada dão lugar a um conjunto em seda azul (outra ligação cromática a Belle) e pormenores brancos que o colocam em perfeita harmonia visual com os restantes convidados, mesmo os mais humildes aldeões.

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Agora que já falámos dos dois protagonistas de A Bela e o Monstro, exploraremos também o vestuário das personagens secundárias, a começar pelos servos do castelo encantado na próxima página!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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