At the Sea, de Kornél Mundruczó. ©Berlinale 2026/Divulgação

Quando Já Não Sabemos Quem Somos | Berlinale 2026

De Cape Cod (“At the Sea”) à Bulgária (“Nina Roza”) profunda e a um estaleiro alemão (“My Wife Cries”) onde ninguém se entende, a Competição mergulhou nas falhas da identidade, nos fantasmas do passado e na incapacidade crónica de deitar cá para fora o que realmente dói por dentro.

Vimos três filmes que insistem em mexer em zonas onde talvez preferíssemos não tocar. O dia de hoje da Competição da Berlinale 2026 trouxe-nos efectivamente três filmes, três geografias, três variações sobre a mesma pergunta: quem somos quando aquilo que nos definia deixa de funcionar? Entre “At the Sea”, “Nina Roza” e “My Wife Cries”, o festival ofereceu-nos um tríptico involuntário sobre identidade em crise. Não houve grandes reviravoltas narrativas nem muita acção. Houve silêncios, introspecção e libertação de fantasmas do passado. E isso, às vezes, é muito mais violento.

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“At the Sea”: Amy Adams e a ressaca da identidade

Kornél Mundruczó continua obcecado por momentos de ruptura. Depois de “Pieces of a Woman” — assim ficou o título na plataforma Netflix — regressa a esse território movediço onde a vida pessoal implode e obriga a uma redefinição brutal do eu. Em “At the Sea”, Laura — interpretada por uma extraordinariamente despojada Amy Adams — regressa à antiga casa de família, em Cape Cod, após uma recuperação forçada na sequência de um acidente de viação provocado por condução sob o efeito do álcool, com o filho no carro. A premissa já chega carregada de culpa suficiente para três filmes, mas Mundruczó não transforma o caso num drama moralista. O que lhe interessa é o que vem depois do choque. Laura foi durante anos o rosto da companhia de dança contemporânea do pai falecido. Cresceu à sombra de um legado artístico enorme que funcionava como identidade substituta. O alcoolismo funcional era tolerado, romantizado até, enquanto ela continuasse a dançar. Quando o corpo pára, a mentira deixa de ser sustentável. O filme é um estudo clínico da sobriedade como território instável. A família não sabe lidar com a “nova” Laura. O marido oscila entre a devoção e o medo. A filha adolescente não lhe perdoa a distância e a falta de afecto. O filho pequeno observa, silencioso. A casa, numa zona privilegiada entre praias e dunas de Cape Cod, é filmada com frieza quase documental e transforma-se no próprio espaço das memórias e dos conflitos emocionais. Amy Adams faz aqui talvez um dos trabalhos mais arriscados da sua carreira. Não há o brilho nervoso de “Golpada Americana”, nem a contenção doce de “Arrival – O Primeiro Encontro”. Há uma mulher que percebe que, sem palco, sem aplauso e sem álcool, precisa de descobrir quem é afinal: como esposa, mãe, ou ex-artista, que terminou a carreira. E essa descoberta não é cinematograficamente bonita. Mundruczó filma o mar como metáfora óbvia — mas eficaz — de instabilidade. As marés sobem e descem, como a confiança, como a abstinência, como a vontade de desistir. O filme é exigente, por vezes desconfortavelmente longo nos silêncios, mas há uma coerência brutal na forma como recusa qualquer redenção fácil. Não há grande discurso final. Há apenas a aceitação de que a cura não é linear nem rápida. Demora. E custa.

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“Nina Roza”: o regresso impossível

Se “At the Sea” fala de identidade colapsada, “Nina Roza” fala de identidade deslocada. A canadiana Geneviève Dulude-De Celles constrói um filme aparentemente simples: um especialista em arte, Mihail (Galin Stoev), regressa à Bulgária para autenticar as pinturas de uma menina-prodígio de oito anos, Nina (Sofia Stanina), que se tornou viral. Mas o que começa como uma investigação artística transforma-se numa viagem íntima ao seu passado. Mihail deixou a Bulgária nos anos 90, após a morte da mulher, e criou a filha em Montreal. Vive entre línguas, entre memórias, entre versões de si próprio. A ida à aldeia onde vive Nina obriga-o a confrontar aquilo que pensava ter arrumado. O filme tem uma elegância discreta. Não há grandes confrontos, mas há uma tensão constante: será Nina realmente autora das obras? Estará alguém a instrumentalizar o talento infantil? E, mais importante, que direito tem Mihail de interferir naquela realidade? Dulude-De Celles não está interessada num thriller sobre fraude artística. Interessa-lhe a fragilidade do sentimento de pertença. A relação entre Mihail e a menina é construída com delicadeza, como se ambos reconhecessem no outro algo que não sabem nomear. A Bulgária rural é filmada sem exotismo. Não é cenário pitoresco; é um território emocional. A cada conversa, a cada silêncio partilhado, Mihail aproxima-se não apenas da verdade sobre Nina, mas também da sua própria história e da família que deixou para trás e daquela que construiu longe dali. O filme questiona a indústria da arte contemporânea, sempre pronta a transformar génio precoce em activo financeiro. Mas fá-lo sem moralismos panfletários. Prefere a ambiguidade. Prefere deixar-nos suspensos. No final, talvez a pergunta não seja se Nina pinta sozinha, mas se alguma vez somos realmente autores isolados daquilo que nos tornou quem somos.

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“My Wife Cries”: a gramática do silêncio

E depois chega Angela Schanelec (“Music”, ganhou o Prémio de Melhor Argumento da Berlinale 2023) para lembrar que o cinema pode ser um exercício de contenção radical. Em “My Wife Cries”, Thomas, operador de grua, recebe um telefonema da mulher. Ela sofreu um acidente. No hospital, descobre-se que o parceiro de dança dela morreu. Carla tenta explicar. Thomas fecha-se. É isto. E é tudo. Schanelec trabalha no território da incomunicabilidade conjugal com precisão quase cirúrgica. Os planos são rigorosos, a câmara observa mais do que comenta. O diálogo é escasso e, quando surge, parece sempre insuficiente. Há quem saia irritado. Há quem saia fascinado. Eu saio com a sensação de que vi um filme que não quer ser amado — quer ser compreendido. Thomas não explode. Não acusa. Não faz cenas. Retira-se. E nesse recuo constrói-se um abismo entre duas pessoas que, teoricamente, partilham a vida. Schanelec já tinha mostrado a sua singularidade em trabalhos anteriores, mas aqui atinge uma depuração quase ascética. O filme pergunta: o que acontece quando a honestidade de um não encontra espaço emocional no outro? Quando a verdade, em vez de aproximar, afasta? Não há banda sonora manipuladora. Não há lágrimas catárticas. Há apenas a frustração de duas pessoas, de um casal que fala idiomas afectivos diferentes e que talvez já não saiba traduzir-se.

JVM

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