"Pieces of a Woman" | ©Benjamin Loeb / Netflix

Pieces of a Woman, em análise

“Pieces of A Woman “, primeira obra em língua inglesa de Kornél Mundruczó (“Deus Branco”) , nitidamente uma narrativa escrita por uma mulher , relata na primeira pessoa as provações inerentes à perda profunda representada pela morte de um bebé recém-nascido.

Vanessa Kirby (“The Crown”) entrega aqui uma das grandes prestações do ano, neste filme Netflix chegado à plataforma a 7 de janeiro de 2021. 

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Uma produção original Netflix, “Pieces of A Woman ” estreou pela primeira vez no circuito de festivais no ano passado, em Veneza. Nesta edição invulgar do  festival de cinema mais antigo do mundo, realizada durante a crise pandémica, o filme encontrou-se em competição para o Leão de Ouro e, embora não tenha levado o prémio mais importante do certame, venceu o Arca CinemaGiovani Award, ou prémio jovem.

Conquistou ainda, em Veneza, a prestigiante Volpi Cup de Melhor Atriz, entregue a Vanessa Kirby. Este foi o primeiro indicador de que Kirby poderia entrar, com “Pieces of A Woman “, na corrida aos Óscares em 2021. Ainda recentemente Emma Stone venceu a Volpi Cup e posteriormente o Óscar de Melhor Atriz por “La La Land “. Premiações e reconhecimentos de indústria à parte, partimos para a experiência de ver “Pieces of A Woman ” com duas certezas: não será um filme fácil e podemos preparar-nos para uma prestação do mais alto nível. 

 

Pieces of a woman 2021
Vanessa Kirby como Martha |©Netflix

 

“Pieces of A Woman ” conta a história de Martha (Kirby) e Sean (LaBeouf), um jovem casal que aguarda com ânsia a chegada de uma muito desejada bebé. O seu pequeno núcleo familiar está prestes a aumentar e a harmonia reina no cosmos doméstico. Contudo, a sua vida e relação vêem-se transfiguradas para sempre depois de um parto caseiro resultar em tragédia. É este o ponto de partida para o filme, o qual nos permite contemplar as consequências da devastação de tal perda no corpo e na mente de uma jovem mãe.

Filmes sobre o que acontece a um casal quando um filho morre são abundantes mas “Pieces of A Woman ” eleva-se acima de diversos outros por não romantizar o seu objeto e  tragédia e por colocar a ênfase não na paixão perdida, mas antes na vida perdida. É Martha que nos guia e nos convida para a sua intimidade, depois de um fortíssimo plano-sequência inicial a rondar os 20 minutos, o qual antecede a abertura de créditos do filme e nos permite assistir, sem cortes, ao fatídico parto – como espectadores e quase como membros do juri, antecedendo o processo em tribunal que se segue.

Este plano-sequência inicial é importantíssimo, ditando o tom para o resto da obra e antevendo os desenvolvimentos e o próprio clímax final. Embora esta sequência que acompanha a dança aparentemente banal do parto se distinga pela gentileza no trato, não deixa de procurar estimular uma sensação de realismo sufocante à medida que os problemas começam a suceder-se.

netflix
Molly Parker como a parteira Eva e Vanessa Kirby como Martha |©Netflix

 

A narrativa entra, depois deste início marcante, numa nova lógica evolutiva fragmentada, à medida que os meses se vão sucedendo, e a relação de Martha e Sean vai sofrendo cada vez mais com as consequências desta morte. Um ponto importante do filme prende-se com a forma como tanto Sean, a sua mãe ( uma ainda em excelente forma artística Ellen Burstyn, que até tem aqui direito a um belo monólogo) e outros  na sua vida vão tentando controlar o que Martha sente ou quer. Se inicia um processo contra a parteira, quais os preceitos fúnebres –  todas estas condicionantes remetem para uma questão simples e fulcral, uma jornada de regeneração física e espiritual que deverá ser respeitada.

“Pieces of A Woman “, que conta com argumento de Kata Wéber (que colaborou já com o realizador  e seu parceiro em “Deus Branco”), é um filme com um intuito muito claro, mostrar o que é viver com o trauma, ilustrando esta viagem através de uma alternância entre realismo, simbolismo e pura emotividade. É quando a narrativa, mais para o fim, se começa a focar na lógica de drama de tribunal que começamos a sentir que se está de certa forma a perder, ou pelo menos distanciar do foco original que fora dado a um retrato mais cru desta experiência.

A certa altura o filme perde também algum do seu poder, da sua tensão. Talvez o fantasma da sua sequência inicial seja demasiado avassalador para a restante hora e meia. Verdade seja dita, as mais de 2horas de duração não prestam um bom serviço a “Pieces of A Woman “, que poderia viver com menos vinte minutos, o que iria mitigar a natureza mais morna e letárgica do seu segundo acto, o qual acabou por transformar este num filme bastante desigual, embora pautado por certos momentos de extrema beleza. Por isso, dar-lhe uma nota quantitativa parece especialmente um esforço em vão, uma vez que muitos níveis distintos de execução se sobrepõem nesta obra.

Netflix filmes pieces of a woman
Ellen Burstyn como Elizabeth, em pleno julgamento |©Netflix

 

De acordo com as declarações oficiais do realizador no âmbito do filme, a vontade de o concretizar partiu de uma experiência muito própria com um aborto espontâneo. Esta tentativa de personalizar a dor, de nunca a banalizar, de a escrutinar e enfrentar é evidente na obra. Depois de um segundo acto bastante desacelerado, eis que as últimas cenas do filme recuperam algum momentum, permitindo a Martha conciliar-se com os acontecimentos recentes da sua vida.

A catarse emocional é evidente e sentida, embora os mais céticos a pudessem encarar como excessivamente emotiva, em especial se confrontada com outros momentos do filme. A sequência final no tribunal tem até uma ligeira pinga de sensacionalismo, e remete este filme de um realizador húngaro um pouco mais para o domínio da lógica hollywoodesca, dos finais marcados por grandes gestos dramáticos.

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Variações de tom e ritmo à parte, “Pieces of A Woman ” talvez pudesse ter sido mais, quiçá extraordinário fosse mais coeso e contido. Não obstante, é um filme que cumpre a sua premissa base e a dá resposta à sua raison d’être.

No final da visualização, fica a mágoa e a sensação de perda que comprovam que a missão dos autores se viu cumprida. 

Pieces of a Woman, em análise
pieces of a woman poster

Movie title: Pieces of a Woman

Movie description: Uma mulher lida com a culpa e sofrimento depois de um parto doméstico resultar em tragédia.

Date published: 18 de January de 2021

Country: USA

Duration: 128 minutos

Author: Kata Wéber

Director(s): Kornél Mundruczó

Actor(s): Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn

Genre: Drama

  • Maggie Silva - 80
  • Virgílio Jesus - 70
75

CONCLUSÃO

“Pieces of a Women ” até pode depender de emotividade para fazer avançar a sua narrativa. Não obstante, o seu maior trunfo reside num imbalável propósito: representar uma situação limite na vida de um casal, e na vida de uma mulher, sem nunca embelezar ou romantizar o seu sofrimento.

Sim, há inúmeras outras histórias sobre a dolorosa experiência que é perder um bebé recém-nascido. Muitas focam-se no final da paixão, “Pieces of a Women ” coloca todo o seu ênfase no direito da mulher de lidar com o sofrimento nos seus próprios termos. É aqui que se encontra a sua força.

Pros

  • Atuações dignas de prémios por parte de Vanessa Kirby e Ellen Burstyn. 
  • Um longo plano-sequência antes da abertura de créditos que assombra todo o resto do filme.
  • A franqueza emocional.
  • O foco na jornada da mulher e mãe.

Cons

  • As fragilidades do segundo ato são colocadas em evidência face a uma abertura fortíssima que ameaça engolir o resto do filme  – só temos direito à redenção num terceiro acto final capaz de fazer chorar as pedras da calçada.
  • As variações de tonalidade são evidentes e por vezes fazem parecer que estamos a ver vários filmes distintos.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

One thought on “Pieces of a Woman, em análise

  • A dor da perda de um bebê. Atuação de Vanessa Kirby é muito boa.

    (4)

    A dor da perda de um bebê. A atuação de Vanessa Kirby é muito boa.

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