Porto Post Doc Bisbee '17 critica

Porto/Post/Doc ’18 | Bisbee ’17, em análise

Bisbee ‘17” explora uma tragédia histórica bem à moda americana e tenta encontrar paralelos entre o passado e o presente com mecanismos de performance e metacinema. O filme de Robert Greene é apresentado em Portugal como parte da programação do Porto/Post/Doc de 2018.

Pouco depois da entrada dos EUA na 1ª Guerra Mundial, a 12 de julho de 1917, uma tragédia de abuso de poder e preconceito criminoso teve lugar na cidade de Bisbee no Arizona. Nesse dia, as autoridades locais decidiram intervir numa greve de trabalhadores da grande mina de onde a maior parte da riqueza regional provinha. Liderados pelo xerife, cerca de 2000 membros da população civil foram reunidos, armados e comandados a prender os cerca de 1200 trabalhadores em greve. A maioria dos grevistas eram mineiros de origem mexicana ou da Europa de Leste e foram todos levados para o meio do deserto, expulsos da cidade e abandonados à mercê dos elementos.

Tais eventos marcam não só um capítulo hediondo na história dos direitos dos trabalhadores e sindicatos americanos, como também representa um mini ato de limpeza étnica, sendo que com estes atos, a cidade de Bisbee se livrou de quase toda a sua comunidade de recentes imigrantes. Quem ficou foram as mulheres e famílias desamparadas dos grevistas e toda uma sociedade de sangue anglo-saxão que se achavam mais americanos que os parasitas que, ao fim do dia, tinham sido responsáveis pelo sustento financeiro da cidade. É claro que, depois da mina ser construída e explorada, já não havia necessidade para tal mão-de-obra e os “verdadeiros americanos” decidiram expulsar os estrangeiros da sua comunidade.

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Bisbee é uma cidade fantasma.

É impossível não olhar para a tragédia de Bisbee e nela encontrar paralelos para as atuais políticas de imigração dos EUA. Robert Greene, o realizador de “Bisbee ‘17” certamente não resistiu a tais comparações, construindo com o seu mais recente projeto uma exploração da história americana e seus ecos na sociedade atual. Como pano de fundo para tal exercício cinematográfico, Greene usou a própria cidade de Bisbee durante as preparações para o centésimo aniversário do que, entre locais, é conhecido como a “A Deportação de Bisbee”.

Como não podia deixar de ser, sendo este um filme assinado por Greene cuja filmografia contém títulos como “Actress” e “Kate Plays Christine”, “Bisbee ‘17” é em si um exercício de metacinema onde o ato da performance e suas permutações são postos em posição de destaque. Aqui, através o artifício da reencenação histórica, Bisbee interpreta-se a si mesma. A população local interpreta os fantasmas do seu passado turbulento cujos crimes e cuja vitimização estão gravados a ferro e fogo na identidade cultural da comunidade.

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Entenda-se que “Bisbee ‘17” é um filme sobre fantasmas e assombrações, não só devido a esta invocação das vidas perdidas entre a selvajaria de outros tempos. A cidade é toda um fantasma de uma prosperidade perdida, sendo uma das mais pobres do Arizona. A mina “Copper Queen” que em tempos foi fonte de riqueza, agora é uma ferida geológica na paisagem e uma lembrança constante de tudo o que se perdeu ao longo do tempo. Nem é preciso a manifestação da banda-sonora digna de um filme de terror ou as estilizações de Greene para sugerir tais qualidades espectrais.

Em suma, a própria cidade de Bisbee parece uma metáfora urbana formulada por um escritor a tentar fazer comentários portentosos sobre a essência da América. Talvez por isso, as muitas manipulações tonais e factuais de Greene não pareçam muito despropositadas, mesmo a imperdoável sugestão que os deportados de 1917 morreram no deserto. É claro que tal natureza também confere aos esforços do realizador alguma redundância. Afinal, não é preciso muito para desenterrar significado e um organismo de história metastizada em cancros culturais em Bisbee.

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Temos de olhar criticamente para a nossa História e cultura.

Quando o filme se começa a desdobrar em cenas musicais reminiscentes de “The Act of Killing” ou em honras fúnebres a ancestrais que são falados como se as pessoas em cena os tivessem conhecido, a exploração de Greene ganha algo de demasiado artificial e até um pouco supérfluo. Felizmente, o que pode falhar na conceção da estrutura e jogo performativo de “Bisbee ‘17” é mais do que contrabalançado pelo casting. Ou seja, a escolha das figuras sobre as quais o realizador mais centra o seu estudo.

A maioria dos intérpretes em cena são necessariamente os descendentes daqueles que ganharam a autoridade de escrever os livros de História, aqueles que expulsaram os imigrantes de Bisbee na alvorada da participação americana na guerra. Até existem pessoas que tanto internalizaram as justificações dos seus antepassados, que ainda hoje em dia falam dos acontecimentos de 1917 como se o exílio ilegal dos mineiros tivesse tido justificações. A grande exceção a esta regra é Fernando Serrano e nele se centra o coração do filme, sua alma e seu urgente aviso para aqueles que olham passivamente para a História e se reduzem a apatia política.

Sem cair no erro de uma evangelização didática do seu sujeito e ator, Greene documenta como o processo de dramatização histórica ajuda Serrano a florescer em termos de consciência política e histórica. Ele, um individuo queer de origem mexicana cuja mãe foi deportada, nunca se reviu na história dos mineiros exilados de Bisbee e a própria forma como fala da mãe remete para uma aceitação descomplicada da letra da lei sem nunca questionar a justiça da situação.

Ao colocar-se no lugar de alguém tão violentamente injustiçados como os mineiros é como se o jovem começasse a questionar aquilo que até aí tinha vindo a entender como constantes imutáveis da ordem do mundo. Como “Bisbee ‘17” nos tenta mostrar, tais convenções históricas e culturais existem para ser desafiadas. É um processo difícil, mas temos de os fazer ou condenar-nos a nós mesmos a dançar sempre a mesma coregrafia de tragédia e injustiça. Talvez o seu discurso panfletário não seja totalmente coerente ou claro, mas Greene faz aqui um bom apelo ao fim desta dança. Chegou a altura de parar.

Bisbee '17, em análise
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Movie title: Bisbee '17

Date published: 29 de November de 2018

Director(s): Robert Greene

Genre: Documentário, Western, Musical, 2018, 112 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO

“Bisbee ‘17” é uma fascinante exploração de crimes ancestrais de uma pequena comunidade americana, onde se sintetizam muitas das grandes doenças sociopolíticas de toda uma nação a apodrecer de dentro para fora. Certas manipulações e mecanismos mais teatrais entram um pouco na redundância. Este palco histórico e necessariamente comunitário faz pouco para sublinhar as melhores qualidades de Robert Greene enquanto realizador.

O MELHOR: A presença de Fernando Serrano e seus confrontos com a hipocrisia da história americana.

O PIOR: A manipulação do facto histórico é indesculpável e põe em causa toda a integridade ética do projeto.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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