"Black Water: Abyss" | © MotelX

MOTELx ’20 | Black Water: Abyss, em análise

O género do terror sobre animais assassinos ganha um novo título com “Black Water: Abyss”, um filme australiano sobre a loucura homicida de um crocodilo. Esta obra integra a secção Serviço de Quarto do 14º MOTELx.

Não há nada que assuste mais o ser humano que o desconhecido. É por isso que a sombra e as trevas são o berço dos maiores papões, sua escura indefinição um convite à especulação ansiosa da mente. Desde muito cedo que os criadores de entretenimento do terror se aperceberam disso. Além do mais, o horror que vem do que não vemos pode ser uma ótima maneira de criar magistrais pesadelos com recursos mínimos. Foi isso que o famoso Val Lewton fez com os filmes de série-B da RKO nos anos 40.

Em “A Pantera” de 1942, Lewton e o realizador Jacques Tourneur contam a história de uma mulher que se transforma num felino homicida, mas tiveram de o fazer com um pequeníssimo orçamento e mínimo apoio do estúdio. Ao invés de dependerem em efeitos especiais pouco convincentes ou ridículas fatiotas de gatos humanoides, eles foram buscar alguns dos elementos formais do Expressionismo da década anterior e fizeram um filme onde o terror vive nas sombras e no que o espetador não vê.

black water abyss critica motelx
© MotelX

Anos mais tarde, Vincente Minnelli viria a fazer referência a tal engenho no seu filme sobre Hollywood “Cativos do Mal”. Além disso, o legado de “A Pantera” é transversal a todo o cinema de terror contemporâneo, especialmente no que se refere à representação de monstros tenebrosos. O subgénero de contos sobre bestas assassinas à solta foi particularmente influenciado por Lewton. O “Tubarão” de Spielberg e o “Alien” de Ridley Scott não seriam os mesmos sem o exemplo estruturante que Lewton e Tourneur estabeleceram décadas antes.

Tudo isto para dizer que o uso de escuridão para ocultar falta de recursos e conjurar o medo do espetador é uma tradição muito antiga do cinema de terror. Nesse sentido, “Black Water: Abyss” é um dos exemplos mais alegremente classicistas do MOTELx. Basicamente, o realizador australiano Andrew Traucki concebeu um muito convencional filme de série-B. É o casamento de “A Descida” e “Rastejantes”, uma sequela a “Pântano Negro” que pouco ou nada tem que ver com a primeira obra a não ser em termos de premissa base.

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“Black Water: Abyss” conta a história de um grupo de jovens australianos que se aventuram na exploração de uma caverna parcialmente submersa. Nesse espaço confinado, eles tornam-se presas de um crocodilo assassino que, um a um, vai ceifando as vidas dos humanos. Não se trata de uma história muito original e as caracterizações das personagens também não surpreendem. Há traições românticas pelo meio, laços fraternais e mais algumas ligações que servem para galvanizar o sentimento do espetador quando estas pessoas são desfeitas pelas mandíbulas do réptil.

Há um toque de profundo niilismo que se metastiza pelo filme como um cancro, atingindo seu píncaro no final quando a mão invisível do argumentista se torna bastante difícil de ignorar. Há uma insistência em prolongar o sofrimento das personagens, uma vontade meio sádica que ocasionalmente resvala no ridículo tal é a sua fome de dor. A parca glória de “Black Water: Abyss” não provém do seu texto, mas sim da execução da trama. Traucki pode não ser um grande contador de histórias, mas ele sabe usar sombras.

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© MotelX

Através de montagem que estilhaça a ação e apela à perspetiva de uma mente intoxicada de terror, o filme esconde o efeito barato do crocodilo e confere-lhe uma presença que genuinamente amedronta. Além disso, a escuridão da caverna sufoca o espetador com uma claustrofobia atroz. Um vislumbre da luz do dia é um alívio sublime depois de mais de uma hora dentro da penumbra que só é esbatida pela iluminação fraca de lanternas.

Trata-se de um pesadelo simples feito com modesto virtuosismo, cinema eficaz ao invés de arte inspiradora. Só gostaríamos que a conclusão não fosse tão absurda ou então que o filme tivesse uma gota de humor. Na sua presente forma, “Black Water: Abyss” é terror soturno que jamais encontra espaço para tons leves por entre a sua tapeçaria de ansiedade. Por outras palavras, é um quiçá monótono apesar das suas óbvias mais-valias. Com isso dito, não nos oporíamos a outro filme deste mini-franchise, especialmente se Traucki arranjar uns novos argumentistas que lhe deem algum sustento narrativo que esteja à altura do seu jogo de sombras.

Black Water: Abyss, em análise
black water abyss critica motelx

Movie title: Black Water: Abyss

Date published: 10 de September de 2020

Director(s): Andrew Traucki

Actor(s): Jessica McNamee, Luke Mitchell, Amali Golden, Benjamin Hoetjes, Anthony J. Sharpe, Louis Toshio Okada, Rumi Kikuchi

Genre: Ação, Drama, Terror, 2020, 98 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Entre a morte nas sombras da caverna e a morte nas mandíbulas de um crocodilo, “Black Water: Abyss” conjura um pesadelo tenso de cinema de terror com poucos recursos, mas muito engenho. O filme não é nenhuma obra-prima, mas entretém e surpreende com a sua competência audiovisual.

O MELHOR: As passagens em que a desorientação de personagens e audiência são mais capitalizadas. No limiar da água e da sombra, vive o medo.

O PIOR: Um acidente de carro que catapulta a história para um niilismo circense que mais depressa faz revirar os olhos do espetador do que o estimula.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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