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Javier Calvo e Javier Ambrossi queriam fazer o maior filme de guerra queer de sempre. Acabaram por convocar Federico García Lorca, a repressão franquista, três gerações de homens homossexuais e um elenco que junta Penélope Cruz, Glenn Close e Guitarricadelafuente. Os realizadores espanhóis explicam como nasceu um dos filmes mais ambiciosos da temporada, que chega aos cinemas portugueses a 5 de Novembro.

«Estou farto de que os filmes LGBTQ+ sejam considerados produtos de nicho. Pensei: vamos fazer o maior e mais gay filme de guerra de todos os tempos.» Javier Ambrossi não costuma perder tempo com falsas modéstias. Ao lado de Javier Calvo, a outra metade da dupla conhecida como Los Javis, decidiu que estava na altura de fazer um filme sobre o desejo homossexual sem reticências, baixar a voz ou preocupar-se com a susceptibilidade dos espectadores mais conservadores. O resultado chama-se A Bola Negra, uma produção de grande dimensão que atravessa a Guerra Civil de Espanha, recupera Federico García Lorca e reúne três histórias separadas por várias décadas. «As pessoas querem comprar pipocas e ver um grande filme como Titanic. Este é o Titanic gay!», declarou Ambrossi ao The Guardian, com um entusiasmo que dispensa legendas.

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Tudo começou, curiosamente, com um projecto que não chegou a avançar. Los Javis preparavam uma cinebiografia quando surgiram problemas com os direitos de adaptação. Entretanto, um deles leu La Piedra Oscura, peça do dramaturgo Alberto Conejero sobre a relação entre Sebastián e Rafael. «Lembro-me de estar num avião, de ler a primeira página e começar a chorar descontroladamente. Nem percebia porquê. Tocou em alguma coisa muito profunda dentro de mim. Interpretei isso como um sinal.» A dupla conhecia a peça havia dez anos, mas uma nova leitura abriu outras possibilidades. «Numa única noite surgiu-nos a estrutura: três linhas temporais. Queríamos transformar Sebastián e Rafael numa história de amor queer impossível e incluir-nos a nós próprios na narrativa contemporânea, questionando o que fazemos com a nossa herança.»

«Se não abordamos o desejo, estamos a deixar escapar uma parte da vida»

A obra inacabada de Federico García Lorca forneceu-lhes a ligação entre as três histórias. Na primeira, um jovem é rejeitado por um casino de Granada devido a suspeitas sobre a sua homossexualidade. Na segunda, um soldado nacionalista apaixona-se por um prisioneiro republicano. Na terceira, situada em 2017, um investigador recebe uma herança literária que o obriga a confrontar-se com os segredos familiares. «A questão central é perceber o que fazemos com o nosso passado, com aquilo que herdámos, com os objectos e as obras de arte que permanecem, com os vestígios que a História deixa para trás», explica Calvo.

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Ambrossi admite que o filme representa também um confronto com a sua própria identidade. Durante treze anos, escreveram histórias sobre personagens LGBTQ+, mas evitaram colocar homens homossexuais no centro das narrativas. «Às vezes não queremos falar de nós próprios», reconhece Calvo. Ambrossi vai mais longe: «Não estava preparado para falar de desejo ou de sexo porque, de alguma maneira, sentia vergonha.» A conversa decisiva aconteceu com Pedro Almodóvar, cuja produtora El Deseo participa no filme. «Disse ao Pedro que tinha dificuldade em lidar com o desejo. Ele olhou para mim e respondeu: “Tens de começar a fazê-lo.” Foi então que percebi: se não abordamos explicitamente o desejo, estamos a deixar escapar uma parte da vida.»

Para os realizadores, a vergonha atravessa gerações. A bola negra utilizada pelos membros do casino para rejeitar candidatos transforma-se numa metáfora de exclusão social. «Hoje, pelo menos em Espanha, vivemos com direitos que nos parecem consolidados, mas não tenho a certeza de que reconheçamos verdadeiramente a luta que os tornou possíveis», observa Ambrossi. A repressão política interessa-lhes tanto pelas suas consequências históricas como pelas marcas íntimas que deixou. «O filme trata verdadeiramente da incapacidade de comunicar. A violência nasce do silêncio e da ausência de comunicação. Não conseguimos dizer: “Magoaste-me” ou “Desculpa”. E esse silêncio cria separação e violência.»

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O cinema surge, portanto, como uma maneira de recuperar aquilo que foi silenciado. «Perto do final existe uma frase de Lorca: “É preciso salvar A Bola Negra.” Porquê? Porque poderá ajudar as gerações futuras a não acabarem como as personagens desta história. Não se trata apenas de guerra ou de política. Trata-se de não nos sentirmos sozinhos, de não termos de nos despedir em silêncio de alguém que amamos.»

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«Queríamos que o filme fosse feito por homens homossexuais, não apenas que falasse sobre eles»

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A escolha do elenco obedeceu à mesma convicção. Os protagonistas são interpretados por actores assumidamente homossexuais, decisão que Ambrossi considera política. «Ter três homens assumidamente homossexuais como protagonistas de uma grande produção continua a ser raro. Ainda hoje, muitas histórias LGBTQ+ são contadas através de actores heterossexuais. Queríamos que este filme fosse verdadeiramente feito por homens homossexuais, e não apenas que falasse sobre eles.»

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Calvo esclarece que não pretende impor regras à representação. «Não queremos dizer que actores heterossexuais não possam interpretar personagens homossexuais. Não existem regras na arte.» Mas conhece as dificuldades de quem não corresponde às expectativas da indústria. Quando era adolescente, depois de interpretar uma personagem gay na televisão, aconselharam-no a cortar o cabelo e deixar de pintar as unhas para conseguir mais trabalho. «Não resultou. Suponho que as pessoas continuavam a perceber. Por isso, decidi escrever papéis para actores que não encontram espaço na indústria.»

O cantor Guitarricadelafuente, que se estreia como actor, foi escolhido para interpretar Sebastián. «Quando as pessoas leram o argumento, perguntavam-nos: “Vão mesmo entregar esse papel a um cantor? Porquê?” Mas, para nós, Guitarrica era o Sebastián perfeito. Escrevemos o papel para ele.» Miguel Bernardeau interpreta Rafael, Carlos González dá vida a Alberto e Milo Quifes assume o papel de Carlos. Ao elenco juntam-se Lola Dueñas, Penélope Cruz e Glenn Close. Los Javis continuam, assim, a misturar estrelas consagradas com intérpretes pouco conhecidos. «Aprendemos parcialmente essa lição com Pedro Almodóvar. Ele escolhia pessoas inesperadas: um toureiro, figuras do universo das drag queens, Miguel Bosé… Achava aquilo extraordinariamente estimulante.»

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A autenticidade estende-se à própria produção. «Trabalhamos com as mesmas pessoas há anos. Não são apenas colaboradores, são amigos», explica Calvo. «Nunca filmamos em cenários artificiais ou em cantos isolados, fingindo que o resto do mundo existe à volta. Utilizamos locais reais porque preciso de acreditar na realidade da cena quando estou na sala de montagem.» Ambrossi acrescenta: «Quero que os actores estabeleçam uma ligação verdadeira. Jantamos, saímos, organizamos festas, criamos laços. Tentamos construir uma família durante as filmagens.»

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Apesar da dimensão espectacular, os realizadores insistem na importância da poesia. «Hoje, com tanto ultra-realismo e tantas histórias autobiográficas, sinto por vezes que perdemos alguma sensibilidade para a poesia e para a beleza», afirma Calvo. Ambrossi aproveita para apontar o dedo à influência das plataformas: «Existe frequentemente a pressão de que tudo tenha de ser imediatamente compreensível. “Ah, esta cena é confusa.” Mas a poesia não funciona assim. Deixa espaço para o mistério, para a emoção e para a interpretação.»

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Até a neve que envolve o desfecho tem uma função dramática. «Na obra de Lorca, a neve, tal como a lua ou a prata, está sempre associada à morte», explica Calvo. «Adorava a ideia de começar com uma bola negra, ligada à rejeição, e terminar na neve branca. Uma viagem poética construída apenas através da cor.» A dupla inspirou-se também em Assim que Passem Cinco Anos, peça de Lorca sobre o tempo e o adiamento dos sentimentos. «O tempo continua a avançar, os fatos rasgam-se, o metal oxida-se e a vida prossegue.»

Entretanto, a relação sentimental entre os dois realizadores terminou durante a produção, embora a colaboração artística continue. «As pessoas dirigiam-se a mim sempre no plural. Sentia que tinha perdido a minha individualidade», confessa Calvo. Ambrossi encerra a questão: «Adoramos escrever e realizar juntos e vamos continuar a fazê-lo.» O futuro, garantem, será dedicado sobretudo ao cinema. «Devemos levar o trabalho a sério, mas não levar-nos demasiado a sério.»

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O Prémio de Melhor Realização em Cannes, os Prémios do Público em Toronto e San Sebastián, os milhões de espectadores espanhóis e a escolha para representar Espanha na corrida ao Óscar internacional parecem confirmar que a ambição não era descabida. Ambrossi encontra outra satisfação nas reacções do público: «As pessoas filmam-se antes de ver A Bola Negra e, depois, aparecem a chorar e a abraçar-se. Toda esta comunhão proporcionada pela experiência cinematográfica é lindíssima.»

E se alguém lhes perguntar se, depois de tantos prémios, devem mostrar a modéstia tradicionalmente atribuída aos espanhóis, respondem em uníssono: «Nós não.»

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