"Éden" | © Alambique Filmes

Cannes em Casa | Éden (2014)

A cineasta francesa Mia Hansen-Løve está a fazer sucesso no Festival de Cannes. O seu novo filme “Bergman Island” tem recebido reações positivas e alguns críticos até se atrevem a nomeá-lo como o melhor trabalho da realizadora. Neste estado de plena euforia, decidimos relembrar um dos filmes anteriores de Hansen-Løve, uma obra muito pessoal que demarcou os seus primeiros e muito tentativos passos no caminho do cinema anglófona. “Éden”, quarta longa-metragem da autora, passou por muitos festivais em 2014 e 2015, inclusive pelo IndieLisboa. Por lá encantou muitos cinéfilos com seus sons eletrónicos, música sublime, e drama introspetivo.

Inspirando-se na história do próprio irmão, Mia Hansen-Løve canta, em “Éden” uma apaixonada ode à “house music” francesa. A história, que vai desde os anos 90 até à contemporaneidade do filme, foca-se num DJ parisiense chamado Paul Vallée. O ator Félix de Givry interpreta esta visão ficcionada de Sven Løve com um perpétuo toque de tristeza, uma negrura emocional sempre ao canto do olho, até nos momentos de maior êxtase. Trata-se de um trabalho de ator muito virado para dentro, recatado de tal maneira que força o espetador a reconsiderar seus preconceitos sobre o cenário filmado. Mesmo excluindo tudo o resto que a realizadora faz para gerar suas tonalidades emocionais, já esta figura central sugere a contradição sentimental no coração da fita.

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© Alambique Filmes

Apesar de passar grande parte dos seus 131 minutos em festas e jubilantes noites cheias de dança, álcool, sexo e música, “Éden” é tanto sobre euforia como é sobre melancolia. De facto, descrevendo o subgénero musical em que trabalha, Paul aponta para um ponto médio entre essas duas vertentes emocionais – algo perdido entre a euforia e a melancolia. Tanto as palavras servem para descrever essa sonoridade mecânica, “New York Garage com um twist de Paris”, como a tese central de “Éden”. Mais do que somente uma atmosfera elusiva, esse equilíbrio precário é aquilo que Hansen-Løve mais belissimamente retrata. Por outras palavras, para um filme sobre pessoas que dedicam a vida a dar alegria aos outros, raramente vemos a luz da alegria iluminar seus semblantes.

Por vezes, entreter é um trabalho da gente triste, e até o mais risonho dos palhaços chora quando a audiência não o vê. Assim sendo, faz perfeito sentido que “Éden” comece nesse espaço liminar quando o performer – ou até o espetador – está longe do centro das atenções, distante do calor do holofote. Num arvoredo, naquelas horas tardias mesmo antes da alvorada rebentar, pessoas deambulam depois de uma rave terminar. Ao longe ouvem-se os ecos da música, fantasmas de folia suspirados na brisa. É um princípio muito evocativo e difuso, deambulando, tal como as personagens, sem nenhum destino concreto. Muito gradualmente, depois da manhã chegar e os dias se encadearem, vamos percebendo quem é o nosso protagonista. Acima disso, descobrimos o milieu em que ele trabalha, em que ele vive e sonha.

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Inspirados por essas festas que tanto lhes enchem as noites, Paul e um amigo formam uma parelha DJ chamada Cheers. Apesar do sucesso inicial, tanto o duo como todos os seus outros companheiros parecem viver no limiar da falência. Mesmo assim, as oportunidades cumulam-se e, com elas, vem a fama miúda. Juntamente com amigos e amantes, colegas e cúmplices, Paul muda-se para Nova Iorque, chamado pela cultura de diversão noturna e inovação musical. Por momentos, parece que tudo vai correr bem e que “Éden” se vai tornar numa biopic vulgar, um crescendo que culmina no triunfo inspirador. Só que Hansen-Løve não está a fazer produto de Hollywood. Sobre as personagens cai um balde de água fria. Amizades desfazem-se, amores abandonam-se e até a tragédia do suicídio mostra a cara.

Neste mundo de clubes noturnos e festas pintadas com luz colorida, o sublime deslumbramento é sempre temporário. A alegria só dura o tempo de uma canção. Essa noção de efemeridade cósmica só se intensifica pelo modo como a realizadora estrutura este e seus outros filmes. No cinema de Mia Hansen-Løve anos passam no espaço de um corte singelo. Momentos não têm início e o fim não é visto. Tudo é uma ação perdida no contexto da vida. Tudo flutua numa constante reticência, uma fluidez temporal que dá ao quotidiano a aparência de um sonho ou quiçá uma memória esbatida pela passagem dos anos. Assim sendo, apesar de correr por anos de História moderna, “Éden” nunca mostra grande esforço ou fricção. Todo o momento cai no outro como um ballet inebriado, uma coreografia que parece desenxabida, mas exibe grande precisão.

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Essa montagem impressionista justapõe-se com a música, a fotografia e as performances, num palimpsesto que faz da biografia cinematográfica um exercício curiosamente frio, até distante. Nada disso é crítica ao filme. Pelo contrário, “Éden” ganha por essa mesma condição. Seria muito fácil para esta história resvalar no melodrama, na infelicidade indulgente daquele que só pensa na mágoa interior e se esquece de olhar para o mundo em redor. A realizadora mata o sentimentalismo na raiz, mesmo quando está efetivamente a homenagear o seu irmão. Perdendo-se em tardes passadas desbaratando em apartamentos despidos, concertos excitantes e tristezas comuns, Mia Hansen-Løve expande o seu cinema da esfera doméstica para algo mais épico, mas não menos íntimo. Este hino da geração perdida acaba ainda com umas notas transcendentes que não iremos revelar. Vejam o filme e experienciem essa maravilha do cinema francês moderno.

“Éden” está disponível na MEO e na FILMIN. Nessa segunda plataforma, podes ainda encontrar outros trabalhos de Mia Hansen-Løve, como “O Que Está Por Vir” e “Um Amor de Juventude”.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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