"Nós Controlamos a Noite" | © Columbia Pictures

Cannes em Casa | Nós Controlamos a Noite

Este ano, James Gray compete pela quinta vez à Palme d’Or com “Armageddon Time,” um projeto com leituras autobiográficas. Para comemorar a ocasião, olhamos para trás, para a segunda fita que o realizador americano levou a Cannes. Em 2007, “Nós Controlamos a Noite” foi mal recebido pela crítica, mas certas reapreciações têm levado à sua recente redescoberta. Hoje em dia, há quem aponte para a obra como um dos grandes feitos de Gray.

Ao longo da sua carreira, James Gray tem sempre estado em diálogo com a Nova Hollywood dos anos 70. “Viver e Morrer em Little Odessa,” o seu primeiro filme, situava a ação nas comunidades judaicas de origem russa em Brooklyn, desenrolando uma história onde laços familiares e crime organizado se cruzam. O realizador assim propôs espécie de resposta eslava às muitas narrativas sobre máfia italo-americana. “Nas Teias da Corrupção” troca de bairros, mas permanece no mesmo millieu, apurando mais a estética sem cair totalmente no pastiche.

“Nós Controlamos a Noite” foi o último capítulo nesta trilogia informal. No filme, novamente se investigam épicos familiares e a máfia russa, mas a perspetiva autoral mudou. Ao invés de contar narrativas contemporâneas com afetações do passado, esta longa-metragem passa-se assumidamente nos anos 80. Além disso, há romantismo no seu enredo, uma espécie de tonalidade trágica, quase operática, que apela a algo mais grandioso que os eventos em si. Sentimos o sabor da História com “H” grande, como se esta intriga nova-iorquina fosse alguma lenda antiga.

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© Columbia Pictures

Trata-se do conto de dois irmãos, cada um em lado diferente da lei. Apesar de vir de uma longa dinastia de polícias, Robert Grusinsky prefere a companhia de criminosos, hedonismos ilícitos ao invés de dever regimental. Tanto ele se quis afastar das origens que mudou o nome, chamando-se agora Bobby Green. É sob esta nova identidade que ele se assumiu manager de El Caribe, um clube noturno com ligações à máfia russa e ao tráfico de narcóticos. Em contraste, o pai de Bobby é Chefe da Polícia e o irmão, Joseph, seu capitão.

Certa noite, estes dois mundos colidem, quando as forças policiais fazem rusga ao El Caribe. As relações entre Bobby e Joseph deterioram-se ainda mais, só que uma tentativa de assassinato contra o capitão da polícia desperta a hipótese de reconciliação. A partir daí, “Nós Controlamos a Noite” torna-se num conto de redenção sem justiças forçadas ou sentido inspirador. A vingança motiva Bobby a regressar à família, a se virar contra os patrões e pôr em risco o romance com Amada, a sua namorada de longa data.

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Outros cineastas poderiam retratar estes arcos narrativos como a história de um herói, mas Gray jamais se rende a moralismos tão simples, tão redutivos. Quaisquer conclusões que aqui existam são um repúdio do mundo visto a preto-e-branco. Apesar dos cinquenta tons de âmbar na fotografia de Joaquín Baca-Asay, o texto vive em gradações de cinzento. A glória nunca se manifesta e o ouro é dos tolos, pirite cinematográfica que singra pelo valor ilusório, pelo modo como nos troca as voltas e encontra originalidade numa premissa profundamente perfuntória.

Há quem descreva o projeto como uma tentativa de imaginar o tipo de filme que teria aparecido se os preceitos da Nova Hollywood tivessem sobrevivido ao fim da década de 70. Se a ascensão do blockbuster nunca tivesse ocorrido, se o conservadorismo consumidor da América de Ronald Reagan não fosse mais que um pesadelo passageiro, que forma teria tomado o cinema de Coppola, Lumet, Scorsese e outros que tais? Quiçá se assemelhasse a algo como “Nós Controlamos a Noite” sem o seu véu de melancolia por uma era perdida.

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© Columbia Pictures

Notam-se nostalgias nas escolhas audiovisuais de Gray e companhia, mas jamais a homenagem se converte em cópia descarada. Já mencionámos a fotografia, mas os ares de Nova Hollywood renascida são transversais a outras áreas do filme. As melodias de Wojciech Kilar remetem para um ponto médio entre o lamento apaixonado e a marcha fúnebre, rebentando com percussões em momentos de maior suspense. O compositor já foi colaborador de Coppola, pelo que a ligação às tradições do passado, a devoção do aprendiz para com os mestres, mantêm-se em vigor.

Mas nada disso resultaria sem a sonoplastia densa em texturas urbanas, imergindo o espetador numa Nova Iorque chuvosa, cheia de dor ruidosa e um silêncio de morte. A montagem é tão afiada que corta e os elementos de design sustentam o jogo da fotografia. Além do virtuosismo técnico, também as interpretações impressionam. Mark Whalberg e Eva Mendes raramente estiveram tão bem, mas é Joaquin Phoenix que merece o maior aplauso. O ator-fétiche de James Gray prova aqui por que razão o cineasta o considera sua musa, personificando toda a proposta narrativa na caracterização de Bobby.

Podes ver “Nós Controlamos a Noite,” alugando o filme pela MEO. Em alternativa, a obra também está disponível em DVD.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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