"O Clube dos Milagres" | © NOS Audiovisuais

O Clube dos Milagres, a Crítica | Laura Linney e Maggie Smith em peregrinação sentimental

Em “O Clube dos Milagres,” também conhecido como “The Miracle Club,” Laura Linney, Maggie Smith e Kathy Bates fazem como muitas outras almas perdidas e peregrinam até Lourdes, em busca da salvação.

O passado persegue-nos a todos. Por muito que queiramos fugir, ele acaba sempre por nos apanhar, massacrando psiques que prefeririam o esquecimento ou um novo começo. Assim é o fado das mulheres que descobrimos na Dublin de 1967, quando “O Clube dos Milagres” abre a cena. Lily e Eileen são duas senhoras idosas que sonham em ir a Lourdes antes de morrer, essa célebre peregrinação que captura o imaginário de tantos Católicos. No caso de Eileen, ela vai à procura de um milagre, algum surto de graça divina que cure os caroços de cancro que lhe crescem no peito. No caso de Lily, apesar de uma perna magoada, é algo mais espiritual, uma promessa feita a si mesma em juventudes perdidas, quase esquecidas.

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Entre as duas, as amigas formam um grupo musical – the Miracles – na esperança de ganhar o prémio de um concurso organizado pela igreja. Nisso, são ajudadas por Dolly, uma rapariga mais nova que procura em Lourdes a solução para as mágoas do filho. Daniel ainda é pequeno, mas já estava na idade de falar. Contudo, nem um pio sai da sua boca. Ao longo da fita, o contexto acumulado pinta a imagem de um menino autista não-verbal cuja condição não será o horror espelhado nos olhos da mãe. Em suma, estão todas desesperadas por ganhar e ir a França, mesmo que os maridos rezingões se oponham à ideia.

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Ganhos os bilhetes, há um sobressalto nos planos delas. Maureen, amiga de longa data em semelhante situação às outras peregrinas, acabou de falecer. O funeral é um balde de água fria nos humores festivos, mas estas são pessoas acostumadas à perda. Contudo, não estão habituadas a ver fantasmas do passado ressurgir. Em certa medida, é isso mesmo que acontece quando Chrissie, a filha da defunta, aparece depois de quarenta anos emigrada nos Estados Unidos. Só que essa ausência não terá sido história benigna. Pelo contrário, o modo como a gente fala sugere um exílio desesperado, ora expulsão ou fuga a uma comunidade com sete pedras na mão.

Inicialmente, “O Clube dos Milagres” faz-se ambíguo, escondendo os detalhes da narrativa. Mas, gradualmente, lá se desvendam os segredos e mentiras, traições e suplícios. Terá havido um romance clandestino com o filho de Lily, uma gravidez fora dos laços matrimoniais no seio de uma Irlanda Católica, um mexerico cruel lançado por Eileen e ostracização generalizada. Em suma, dessa chamada Ilha Verde, a Americana tem poucas memórias felizes. Mas, em jeito de herança, Chrissie tem um bilhete para Lourdes, essa viagem que Maureen já não poderá realizar. Além disso, tem as últimas palavras da mãe, um apelo à reconciliação entre a filha, Eileen e Lily.




Esse é somente o primeiro ato do filme, uma apresentação de personagens pela qual o realizador Thaddeus O’Sullivan e sua equipa de argumentistas estabelecem a cena para um conto redentor. A ação principal passa-se em Lourdes, essa fábrica de milagres que teimam em se realizar, pondo à prova a fé das personagens ao mesmo tempo que os seus dramas internos vêm à superfície. De facto, em alguns casos, a trama tomba mesmo no melodrama, especialmente quando se mistura álcool com rancor e as palavras francas de um padre. Para esse último sujeito, o propósito da viagem a Lourdes será um teste de fé na ausência do milagre. Mas será essa a perspetiva dos cineastas?

O diálogo aponta para isso, uma conclusão forte para um projeto adocicado, quiçá gratuito no modo como puxa alternadamente pelo choro e pelo riso. Só que as cenas finais não remetem para essa leitura, especialmente quando se conjugam questões do aborto, a moralidade da escolha e da autodeterminação da mulher. A vontade de atar um laçarote em torno da história é problemática, embrulhando tudo como uma prenda otimista a dar ao espetador no final da projeção. Ao invés de sairmos a pensar, talvez a refletir sobre as vidas agridoce das personagens, somos quase empurrados para uma catarse às três pancadas.

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E nem se fala do modo como a figura de Daniel é usada, mais um adereço que uma pessoa. Ora visto como um inocente espiritualmente superior ou como o castigo para uma mãe pecadora, o menino protagoniza o pior momento da fita – sua última cena. Falta complexidade ao retrato, falta candura e empatia para com a criança ao invés daqueles que o olham com estranheza. Não pedimos que “O Clube dos Milagres” nos dê uma lição moral. Mas é isso mesmo que tenta fazer, salientando quão inepto é o tratamento dessa figura assumida autista. Ainda para mais, falta a tudo isso um toque de aspereza, alguma vontade de desafiar o espetador ao invés de lhe fazer a indulgência.

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Enfim, não podemos afirmar que “O Clube dos Milagres” não tem valor pois, apesar dos muitos problemas, há sempre uma salvaguarda capaz de justificar tudo. São elas as atrizes que O’Sullivan encena nos seus cenários de época com figurinos a condizer. Laura Linney dá vida a Chrissie com toda a reticência e dúvida que o papel pede, sempre a fugir às tonalidades simples do guião e capaz de puxar por semelhante trabalho nas companheiras de cena. A atriz Americana partilha o protagonismo com Maggie Smith, no papel de Lily, tão precisa e comicamente áspera como sempre. O melhor vem nos momentos mais transtornantes, quando a crueldade de ações antigas ecoa no presente e a mulher tem de escolher entre sustentar a dor ou tentar superá-la. Na sua caracterização, o passado fora de cena faz-se sentir na ação presente.

Kathy Bates tem menos que fazer como Eileen, um papel curioso para a atriz. Enquanto Laura Linney faz todo o sentido para interpretar uma mulher que vive há quatro décadas em Boston, o trabalho vocal de Bates tende a Americanizar o papel de uma senhora que nunca saiu da Irlanda. No meio de todas estas grandiosas intérpretes, Agnes O’Casey perde-se um pouco, como que ofuscada pelas estrelas em seu redor. Dito isso, ela supera as expetativas como Dolly, a mulher mais jovem na peregrinação cuja culpa materna lhe pesa na consciência. Apesar de constrangedora, a conversa em torno do aborto que O’Casey partilha com Linney é um ponto alto para o seu trabalho interpretativo. É certo que, neste “Clube dos Milagres,” as atrizes são o maior milagre do cinema.

O Clube dos Milagres, a Crítica
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Movie title: The Miracle Club

Date published: 16 de May de 2024

Duration: 90 min.

Director(s): Thaddeus O'Sullivan

Actor(s): Laura Linney, Maggie Smith, Kathy Bates, Agnes O'Casey, Stephen Rea, Mark O'Halloran, Mark McKenna, Hazel Doupe, Eric D. Smith, Brenda Fricker

Genre: Drama, Comédia, 2023

  • Cláudio Alves - 60
60

Conclusão:

Os eventos mais marcantes na história de “O Clube dos Milagres” aconteceram todos fora de cena, no passado das personagens. Contudo, a fita de Thaddeus O’Sullivan faz por invocar esses fantasmas, exorcizando a dor antiga numa peregrinação a Lourdes. O guião é problemático, por vezes convoluto, e a abordagem formal não convence. Dito isso, a obra tem uma arma não tão secreta na forma de um elenco exemplar. Laura Linney e Maggie Smith protagonizam, tão espetaculares como sempre, enquanto Kathy Bates brilha num papel secundário e Agnes O’Casey é uma revelação. Elas são a melhor razão para ver este “Clube dos Milagres.”

O MELHOR: O trabalho do elenco, com especial destaque para Maggie Smith e Laura Linney. Também se reconhece a qualidade de design, uma boa reconstrução do passado histórico irlandês.

O PIOR: A teimosia num final feliz sem multidimensionalidade ou complicação tonal. Parece-nos forçado, traindo a complexidade que cada atriz traz ao seu papel. Além disso, a estratégia audiovisual da fita deixa muito a desejar.

CA

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