"Uma Separação" | © Alambique Filmes

Cannes em Casa | Uma Separação (2011)

“Ghahreman”, também conhecido como “A Hero”, foi hoje estreado no Festival de Cannes. O realizador iraniano Asghar Farhadi é cara bem conhecida do circuito dos festivais e dos cinéfilos. Enquanto esperamos que o novo trabalho deste mestre do cinema chegue às salas portuguesas, recordamos e voltamos a celebrar um dos seus primeiros e maiores sucessos. Em 2011, “Uma Separação” tornou-se num dos filmes mais premiados na história da Berlinale. Não só ganhou o Urso de Ouro, como também ceifou os prémios para Melhor Ator, Melhor Atriz, do Júri Ecuménico e dos leitores da Berliner Morgenpost. Escusado será dizer que foi uma sensação internacional, mais tarde nomeada para dois Óscares – Melhor Argumento Original e Melhor Filme Internacional. Este último resultou em mais uma vitória.

Papéis numa fotocopiadora, documentos passam num ciclo sem fim e sem que ninguém os mude. As roldanas da burocracia são algo desumano, reduzindo pessoas a papelada, passaportes e certificados. É sobre tais imagens que “Uma Separação” tem início. Ou melhor, esse é o fundo para os créditos. A primeira cena a sério é muito mais arrojada que um mero cortejo de documentação carregada de valor simbólico. Numa sala espartana, um casal está sentado, fitando a câmara diretamente. É algo estarrecedor, o tipo de escolha que põe o espetador em sobressalto e lhe espicaça a atenção. Nader e Simin estão aqui para apresentar seu caso a um oficial e a nós, suas audiências passivas, distantes e quase que igualmente impotentes.

Acontece que este par iraniano se quer divorciar. Simin, sentindo-se pressionada e oprimida pelos cismas políticos e sociais do seu país, quer mudar-se para fora do Irão. Ela não especifica bem essas razões, mas gradualmente nos apercebemos de que a divisão destes dois é tão ideológica quanto emocional. Nader, por seu lado, recusa-se a sair. A razão que ele dá centra-se num pai idoso, com Alzheimer e em necessidade de cuidado contínuo. Há pragmatismo na argumentação e fundamentação deste divórcio. Enquanto mulher casada, Simin não pode sair do país sem o marido. Em certa medida, ambos os nossos protagonistas são razoáveis no modo como explicam o desentendimento e é difícil apontar o dedo a algum deles enquanto culpado.

uma separacao cannes em casa
© Alambique Filmes

Mesmo assim, o burocrata atrás da câmara recusa o pedido. Nader e Simin terão de continuar juntos para o Estado e ela não pode partir. O plano de abertura acaba com o rosto enfurecido de Simin confrontando o juiz e a nós. Isto ainda não acabou. De facto, é só o início e o filme já nos está a pôr em posição difícil. Ao nos associar à perspetiva subjetiva do oficial do estado, o realizador Asghar Farhadi está a exigir que sejamos uma audiência em diálogo pensativo com o filme. Está também a desafiar-nos, como que perguntando se, com as informações apresentadas, podemos ter a certeza do que se passa entre o casal. A inescrutabilidade essencial de todo o ser humano é quiçá o tema mais importante de “Uma Separação”. Isso e a questão de quem tem o direito de passar julgamento moral. Será que alguém tem esse direito?

Enfim, é um filme complicado, mas não por isso maçudo. Quem julgue que este é um pas de deux matrimonial simples e minimalista, desengane-se. Daqui para a frente, a história torna-se muito mais complicada. Depois do divórcio negado, Simin muda-se para a casa materna, deixando a filha aos cuidados de Nader. Sem saber o que fazer e cheio de responsabilidades exigentes, o patriarca contrata uma cuidadora temporária para o pai. Ao contrário da família abastada, cheia de privilégios e liberalidades, de Nader e Simir, essa senhora vem de uma classe mais baixa, de uma esfera social mais resignada aos ditames da religião. Ela é Razieh e entra no filme como um fantasma ensombrado, toda vestida de preto e com barriga de grávida, uma filha pequena sempre ao seu lado como que um anjinho e contraposto visual da mãe.

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O trajado conservador esconde a gravidez de Nader, mas esse está longe de ser o único segredo que Razieh detém. Seu marido, Hodjat, está no desemprego, perdido numa espiral de orgulho masculino muito machucado. Para não o ofender, a esposa esperançosa esconde as especificidades dos seus afazeres profissionais, tentando ganhar para dar de comer à família sem despoletar a ira do esposo religioso. Hão-de reparar quanto a questão da fé entra no argumento. A certa altura, quando o pai de Nader tem um acidente lamentável, Razieh tem que telefonar a uma linha de auxílio espiritual. Apesar do senhor estar caído, despido e sujo, completamente incapaz, ela não sabe se lhe deve tocar enquanto mulher casada. Nos píncaros do fundamentalismo, só se encontram absurdos e desumanidade mascarada de virtude.

Não que Razieh seja uma pessoa malévola. Tais extremos morais não existem neste filme. Tudo é gradações de cinzento, não havendo aqui o preto-e-branco que tanto conforta o espetador. Em “Uma Separação” todos são pessoas complicadas a tentarem fazer o melhor que sabem, tentando ser morais e corretas. Só que a vida tem como nos passar as voltas e, às vezes, alguém é herói e vilão ao mesmo tempo. É tudo isso e também não o é. A dúvida persiste e explode de dentro da tela para fora, consumindo todos os que veem o filme. Depois de uma tragédia a meio da fita, então é que estamos todos perdidos. Quem sabe a quem pôr as culpas? Quem é responsável? Foi um acidente ou não? Isso importa quando há consequências tão tristes como aquelas manifestas na história?

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© Alambique Filmes

De conto matrimonial, “Uma Separação” passa ao género do mistério, da investigação e até ganha cheirinhos de thriller. Farhadi tudo faz para nos passar a perna. Seu estilo é humilde e sem trejeitos vistosos, mas há todo um jogo entre o que a câmara mostra e o que deixa de parte, entre o que estamos a ver e o que a montagem nos esconde.  Trata-se de uma perícia perfeitamente Hitchockiana na sua criação de suspense. A um certo ponto, somos confrontados com a nossa incapacidade de saber o que é verdade e o que não é. No cinema, estamos habituados a ter a o paradigma da realidade confirmado pela forma. Neste caso, o aparato cinematográfico existe para nos relembrar quanto o ser humano jamais pode saber a verdade absoluta. Tudo são suposições e crenças, boas deduções e não tão bons enganos.

O elenco que dá vida a tal esquema é um dos melhores já reunidos na história do cinema. Concordamos com o Festival de Berlim e seu júri nesse aspeto. Ao invés de presentearem os Ursos de Prata para Melhor Ator e Atriz a um par de indivíduos, todos os atores do elenco principal levaram troféus para casa. É difícil escolher quem é melhor, mas temos de bater palmas especialmente fortes para Payman Maadi, Leila Hatami, Sareh Bayat e Shahab Hosseini como os dois casais cujos fados se entrelaçam no âmago da narrativa. Mais ainda temos de aplaudir sua bravura política. Como devem entender, “Uma Separação” é crítica afiada do estado religioso do Irão, sua corrupção política e as desigualdades de classes. Apesar de ter sido aclamado internacionalmente e enviado para consideração da Academia, “Uma Separação” esbarrou com problemas de censura no seu país natal. De facto, é um milagre que Farhadi tenha conseguido fazer o filme e por isso estaremos infinitamente gratos. Esta é, sem sombra de dúvida, uma das grandes obras-primas cinematográficas do século XXI.

Esta magnífica “Separação” de Asghar Farhadi pode ser alugada na MEO e na FILMIN. Esta segunda plataforma tem na sua oferta de streaming outras obras do realizador também.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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