Carol | A delicada beleza dos figurinos de Sandy Powell

 

Concebido pela figurinista Sandy Powell, o guarda-roupa de Carol, o mais recente filme de Todd Haynes, é uma visão de luxuriante elegância e estilo.

 

Parte 2, O sedutor glamour de Carol Aird >>

 

Este ano, Sandy Powell repetiu a proeza que já tinha alcançado em 1998, tendo assegurado duas nomeações para o Óscar de Melhor Guarda-Roupa. Aquando dessa passada dupla nomeação, Powell arrecadou o Óscar pelo trabalho mais tradicional de A Paixão de Shakespeare e não pela sua extraordinária criação de uma versão mitológica do glam rock dos anos 70 para Velvet Goldmine de Todd Haynes. Talvez tal se vá repetir este ano com a subtil elegância de Carol a perder para a opulência fantasiosa dos figurinos de Cinderela, também da sua autoria. Independentemente de tais considerações da Awards Season, o trabalho desta genial figurinista no mais recente filme de Todd Haynes é merecedor de celebração.

Carol

Carol é um filme que retrata a história de amor entre duas mulheres, uma jovem aspirante a fotógrafa e uma matura e glamourosa dona-de-casa a meio do processo de divórcio do seu abastado marido, Therese Belivet e Carol Aird. A narrativa situa-se nos meses de inverno de 1952, sendo que, ao ser um filme de época, a construção visual desse mundo passado é uma parte fulcral da mise-en-scène do filme. Devido à realização estar a cargo do magistral Todd Haynes, os aspetos mais formais são colocados em posição de destaque, resultando num dos filmes mais deslumbrantes dos últimos anos.

Carol

Tal como o diretor de fotografia, Ed Lachman, e a cenógrafa, Judy Becker, Sandy Powell recebeu do realizador um look book, uma espécie de compêndio das várias pesquisas visuais de Todd Haynes, onde atmosferas, cores, pequenos detalhes e imagens chave se encontravam reunidas. Desse look book emergiu a cuidada paleta cromática do filme, assim como a invariável ligação de todos os visuais à fotografia da época, nomeadamente ao trabalho de Saul Leiter, caracterizado por vislumbres da vida urbana capturada em cores esbatidas, através de janelas, cheias de uma frieza pontuada por gentis toques de cores fortes.

Carol
Fotografia de Saul Leiter em comparação com uma imagem do filme

 

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O uso de cores intensas sempre foi uma característica do trabalho de Sandy Powell, já desde os seus primeiros filmes ao lado de Derek Jarman. No entanto, nas esbatidas confeções de Carol, a figurinista parece ter desenvolvido em si uma elegância e sofisticação outrora ignoradas, construindo aquele que é talvez o seu mais maturo trabalho. Mesmo assim, as cores fortes, como nas fotos de Leiter, emergem em vividos rasgões, como um chapéu vermelho e amarelo, ou um lenço coral, sendo que, na evolução das cores dos figurinos, se pode encontrar um discurso em constante evolução, um texto visual que só por si reconta, ao mesmo tempo que ilustra, a magnifica história de amor no centro deste filme.

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Apesar desta dependência estilística das fotografias da época, incluindo no trabalho de Vivian Maier e Ruth Orkin, há nos visuais de Carol uma formidável recusa dos habituais clichés da reconstrução deste específico período histórico. Mais do que vestir o seu elenco no esplendor da moda da década, Sandy Powell criou um guarda-roupa caracterizado por uma estética fortemente ligada ao período pós-guerra e não à opulência da América que usualmente é conjurada por retratos dos anos 50. Segundo as palavras da própria figurinista, a América de 1952, ainda não era aquela icónica visão da década, mas sim um período de transição entre a relativa austeridade do período de guerra e esse ideal de prosperidade ostentosa dos anos 50.

Carol

Apenas a personagem titular, tanto pela sua importância narrativa, como pela sua riqueza parece ter saído de uma revista de moda, mas mesmo o seu estilo é invariavelmente distante do New Look e dos estilos mais icónicos da década. Aliás, parte da genial reconstrução dos anos 50 feita por Powell está precisamente na sua exímia criação de uma sociedade organicamente plausível. Mesmo os figurinos dos figurantes demonstram as diferenças sociais que marcaram esta realidade histórica.

Carol

Os contrastes económicos entre Carol e Therese são uma parte essencial da narrativa, com Carol e a sua riqueza e segurança a representarem algo distante para Therese, quase idealizado e luminoso. A partir do seu olhar sentimos a necessidade de nos perder nas unhas escarlates de Carol ou de passar a mão pelo seu casaco de peles, de sentir o toque do seu penteado perfeitamente construído ou a textura dos ricos tecidos que cobrem o seu corpo. Nesse sentido há algo que é quase tátil no trabalho de Powell, cuja mestria em simbiose com os outros aspetos técnicos do filme cria uma experiência de inebriante sensualidade, uma orgia sensorial em forma de filme em que todos os elementos visuais e sonoros nos pedem para cairmos no mesmo tipo de paixão consumada das suas protagonistas.

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Tão importantes como estas inspirações visuais e detalhes históricos, foram as próprias palavras de Patricia Highsmith. No livro em que o filme se baseia, a perspetiva de Therese Belivet domina todos os procedimentos narrativos, e é pelo seu olhar que descobrimos o mundo deste romance, o olhar de uma amante. As descrições de texturas, dos conteúdos de uma carteira, da suavidade de um par de luvas e até do cheiro do cabedal foram essenciais para o trabalho da figurinista.

Costume Designers Guild Carol
Sandy Powell e Rooney Mara durante as filmagens de “Carol”

 

Na construção deste formidável guarda-roupa, Sandy Powell desenvolveu muito do seu trabalho em conjunto com os atores, sendo que ao construir estes visuais ela está essencialmente a dar vida à imagem e plasticidade das personagens da narrativa. Mesmo o uso de correta roupa interior representa uma parte essencial da visão de Powell, sendo que, segundo a figurinista, todas as roupas que usamos definem o nosso movimento e postura, sendo que é essencial que os figurinos ajudem os atores a encarnarem este passado e estas personagens. Os movimentos que são permitidos pelas limitações do vestuário, por exemplo, informam e influenciam as decisões de um intérprete.

Para explorares, em mais detalhe, o glamouroso vestuário de Cate Blanchett como Carol Aird, segue para a próxima página onde te espera uma inebriante coleção de elegância de outros tempos.

 

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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