Joseph Losey | ©Medeia Filmes

Ciclo de Cinema | O Essencial sobre Joseph Losey

O Cinema Nimas regressa à sua programação que intercala estreias de cinema de autor, com ciclos de  realizadores clássicos. Agora na reabertura das salas de cinema, a 19 de abril, na próxima semana apresenta já a retrospectiva ‘Joseph Losey, Cineasta Essencial’. Aqui numa síntese a selecção de filmes essenciais de Joseph Losey.

São ao todo 6 filmes, que sintetizam o essencial da obra de um realizador algo subestimado, devido às suas motivações políticas. É uma oportunidade para um grande (re)encontro com um dos maiores cineasta do século XX. Os filmes do realizador (e encenador) norte-americano Joseph Losey (1909-1984) regressam com a abertura das salas de cinema primeiro ao Cinema Nimas, em Lisboa e ao Teatro Campo Alegre, no Porto; depois percorrem o País, em vários cineteatros e sessões de cineclubes.  E durante os meses de maio e junho o ciclo chegará também ao Auditório Charlot, em Setúbal, ao Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, ao Teatro Circo de Braga e ao CAE, da Figueira da Foz. E mais do que nunca vale a pena revelar o cinema de Joseph Losey, a sua interessante carreira e os seus ideais políticos, que marcaram toda a sua obra cinematográfica. Apesar da tentativa de muitos sectores mais conservadores o quererem levar ao esquecimento, Joseph Losey, é para muitos críticos e historiadores do cinema, um dos mais importantes cineastas dos anos 60 e 70, do século XX. Tal como outros realizadores como Nicholas Ray, Elia Kazan e Samuel Fuller, também Joseph Losey, foi um dos principais expoentes de uma ‘nova sensibilidade’ (também política) do cinema clássico americano e o grande mentor do cinema de autor europeu, depois da II Guerra Mundial. Tal como aconteceu com Ray e a Fuller, também os estúdios em Hollywood, fecharam-lhe as portas, obrigando-o a uma carreira de realizador, de certo modo errante, mas bem sucedida, pelos estúdios e produções na Europa. Em ‘Joseph Losey, Cineasta Essencial’ vamos ter oportunidade de ver em cópias digitais restauradas, algumas das suas obras como ‘Prisão Maior’ (1960), ‘Eva’ (1962) ‘O Criado’ (1963), ‘Acidente’ (1967), ‘Mr. Klein-Um Homem na Sombra’ (1971) e ‘O Mensageiro’ (1971).

Joseph Losey
Joseph Losey inspirador da nova vaga do cinema europeu. | ©Medeia Filmes
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PRECURSOR DO CINEMA DE AUTOR

Joseph Losey nasceu no Wisconsin (EUA) em 1909 e começou a sua carreira com filmes educativos e documentários, logo marcados por temas controversos, como a corrupção, preconceito racial, questões sociais e políticas, algo que se irá reflectir também na suas obras posteriores ainda nos EUA. Até que, em 1947, começou a ser vítima da chamada ‘caça às bruxas’, um processo de perseguição política de cariz anti-comunista, a determinadas personalidades, que assolou Hollywood no período que sucedeu à II Guerra Mundial. Assumidamente de esquerda, Losey viveu e estudou teatro na URSS, transpôs para a cena peças do activista-dramaturgo Bertold Brecht seu colega e amigo. Ainda nos EUA, dirigiu entre 1948 e 1951, alguns filmes politicamente assumidos: ‘O Rapaz dos Cabelos Verdes’, ‘Intolerância’ ou ‘M’, este um remake do filme com o mesmo título de Fritz Lang. A causa desta perseguição, deveu-se efectivamente à sua ligação a grupos de teatro de esquerda e a sua formação teatral com Brecht, na Alemanha. Entretanto desempregado nos EUA, e acusado de pertencer ao Partido Comunista norte-americano, fez o percurso inverso de muitos dos grandes cineastas europeus que tinham fugido do nazismo na Europa, para trabalharem em Hollywood. Chegou a Inglaterra em 1952, e a primeira fase desse exílio europeu não foi fácil para Losey, que teve mesmo de começar a trabalhar sob pseudónimo. A partir de 1958, com o filme ‘A Cigana Vermelha’, sua carreira mudou radicalmente e os filmes que dirigiu a seguir, sobretudo dramas psicológicos e thrillers, acabaram por lhe dar notoriedade junto do público e da crítica. Foi neste caminho que Losey se tornou um dos maiores vultos do chamado ‘cinema de autor europeu’, o precursor do ‘free cinema britânico’ e inspirador da geração angry young men, que há bem pouco tempo o Cinema Nimas dedicou, bem a propósito, um outro ciclo de cinema. Desta época de mudança e agitação social e política na Europa e das décadas seguintes ficaram alguns dos mais importantes filmes da sua carreira, parte deles realizados com o dramaturgo-argumentista britânico Harold Pinter: ‘O Criado’ (1963), ‘Modesty Blaise/A Mulher Detective’ (1966), ‘Acidente’ (1967), ‘Dois Vultos na Paisagem’ (1970), ‘O Mensageiro’ (1970), ‘O Assassinato de Trotsky’ (1972), ‘A Casa da Boneca’ (1973), ‘A Inglesa Romântica’ (1975), com Glenda Jackson, ou ‘Mr. Klein-Um Homem na Sombra’ (1976), com Alain Delon, dois dos seus filmes mais populares. Realizou ainda alguns filmes com produção italiana, francesa e espanhola, entre eles ‘A Estrada do Sul’ (1978), uma continuação de ‘A Guerra Acabou’ de Alain Resnais, com Yves Montand, no papel de exilado espanhol em permanente conflito ideológico. Até 1984, o ano da sua morte, aos 75 anos, trabalhou com grande actores europeus como Michael Caine, Monica Vitti, Julie Christie, Jeanne Moreau, Alain Delon ou Isabelle Huppert, entre outros. Aqui ficam uma resenha desses essenciais que configuram esta retrospectiva: 

A PARTIR DE 19 DE ABRIL

The Criminal
‘O Acidente’ (1960) | ©Medeia Filmes

Prisão Maior/The Criminal (1960, 97’)

Com Stanley BakerPatrick MageeSam Wanamaker

Também conhecido por ‘The Concrete Jungle’, é um filme policial londrino, e um retrato de um mundo corrupto filmado a preto e branco pela câmara de Robert Krasker, o director da fotografia de ‘O Terceiro Homem’, (1947), de Carroll Reed, com Orson Welles. É também o filme da primeira das várias colaborações entre Joseph Losey, um amante de jazz, e o famoso compositor britânico John Dankworth. Johnny Bannion (Stanley Kramer) passou os três últimos anos na prisão, a planear o maior roubo do seu trajecto de criminoso. Fora da prisão, consegue concretizar o seu plano, enterrando depois o dinheiro num campo. Contudo Bannion é preso antes de ter a oportunidade de contar aos seus cúmplices, o paradeiro do dinheiro. Até porque estes cometem o erro de disparar sobre Bannion, antes deste lhes contar toda a historia, de onde guardou o produto do roubo. Mais um clássico do filme policial, com extraordinárias interpretações como a de Sam Wanamaker, no papel do ganancioso empregado de escritório que, tal como, Losey, exilou-se em Inglaterra, fugindo à lista negra de Hollywood.

Eva
‘Eva’ (1962) | ©Medeia Filmes

Eva (1962, 116’)

Com Jeanne Moreau, Stanley Baker, Virna Lisi, James Villiers

‘Eva’ é um verdadeiro clássico do cinema de todos os tempos, que assinala uma importante etapa na carreira de Losey, depois de uma série de anos difíceis de trabalho, que se seguiram ao seu exílio e à sua recuperação profissional em Inglaterra. Filmado em Veneza e Roma, adaptado de um livro de James Hadley Chase, com a presença inesquecível de Jeanne Moreau, este filme tem muitas semelhanças estéticas e formais com o chamado cinema de autor europeu, desta época — e doravante, Losey será mesmo considerado como um cineasta-autor europeu, apesar de ser norte-americano. O filme conta a história da estranha relação sado-masoquista entre um vaidoso escritor britânico (novamente Stanley Baker) e uma prostituta francesa (Jeanne Moreau) que fará dele o seu joguete, recusando-o sistematicamente, para melhor o dominar. É um dos grandes e inconformáveis papéis da actriz francesa Jeanne Moreau. Stanley Baker, é o escritor medíocre que negligencia a esposa para ir atrás de uma mulher que o humilha (Moreau). Basicamente a história é essa e não há muito mais o que dizer, a não ser destacar a impressionante realização de Losey, com uma câmera que persegue os atores, à maneira do cinema europeu; além da sua incrível habilidade para criar momentos de enorme exuberância visual. Um belo exemplo disso é a memorável cena do cortejo fúnebre pelos canais de Veneza. O comportamento da câmera nessa cena é uma verdadeira lição de cinema e realização.

The Servant
©Medeia Filmes

O Criado/The Servant (1963, 116’)

Com com Dirk Bogarde, Sarah Miles, James Fox, Wendy Craig

Mais uma obra-prima do realizador, esta sobre a luta ou melhor a diferença de classes e a aristocracia decadente. Tony (James Fox) é um homem rico que se muda para Londres e contrata Hugo Barret (Dirk Bogarde) para o ajudar em todas as tarefas da casa, ou seja uma espécie de criado para todo o serviço, com vagas nuances de um fascínio homossexual. Hugo mostra-se um empregado leal e competente e aos poucos vai ganhando a confiança de Tony. Porém, a ‘irmã’ de Hugo, Vera (Sarah Miles), muda-se também para essa casa em Londres para trabalhar e dar-lhe apoio nas tarefas domésticas. Num fim-de-semana, Tony e a namorada Susan (Wendy Craig) resolvem fazer uma pequena viagem, e ao regressarem, encontram Hugo e a suposta irmã na cama do quarto de Tony. Na verdade os criados, eram amantes, e perante a situação Tony manda os dois embora. Habituado a todas as mordomias Tony, volta a encontrar Hugo num pub londrino e volta a contratá-lo como mordomo. Mas desta vez é o empregado, que mostra a sua verdadeira personalidade, substituindo-se aos poucos ao patrão.

Accident
©Medeia Filmes

Acidente/Accident (1967, 106’)

Com Dirk Bogarde, Michael York, Stanley Baker, Jacqueline Sassard, Vivien Merchant, e Delphine Seyrig. 

Stephen (Dirk Bogarde), um professor de meia idade da Universidade de Oxford, sonha em viver uma fantasia sexual com Anna (Jacqueline Sassard), uma das suas alunas. Contudo Stephen disputa as atenções da rapariga com um aluno, William (Michael York) — cuja a jovialidade inveja o mestre — e com seu rival académico, o professor Charley (Stanley Baker). ‘O Acidente’, é um dos melhores filmes — há quem diga que é o melhor — admiravelmente construído sobre um argumento que, reduzido às suas significações mais simples, pretende contar a fantasia sexual de dois maduros professores de Oxford por uma aluna. Mas é muito mais que isso começando pela própria figura da jovem austríaca (Jacqueline Sassard), uma princesa, uma aluna ou uma ‘fille fatale’ — com uma quase correspondência com a figura da femme fatale de Hollywood — que procura exibir uma espécie de vácuo existencial da aristocracia ou melhor personificar uma crítica de costumes, marcada também por com um ligeiro toque de thriller psicológico. Mas há ainda muitas significações e pontos de referência para desvendar neste filme bastante enigmático: o jardim e a escada do cottage de Stephen (Dirk Bogarde), os carrilhões da Universidade de Oxford, o sapato de Anna pisando o rosto de William, uma das mais importantes pistas para desvendar os mistérios de um filme concebido como se fosse um círculo, que abre e fecha com um acidente invisível; ou seja com um começo e um fim de uma nova experiência (ou de um pesadelo), na vida do auto-reprimido e fleumático Professor Stephen.

Mr. Klein
‘Mr. Klein-Um Homem na Sombra’ (1976) | ©Medeia Filmes

Mr. Klein—Um Homem na Sombra (1976, 123’)

Com Alain Delon, Jeanne Moreau, Francine Bergé. 

Um filme que vagueia entre a crónica de costumes, filme guerra e o thriller de espionagem. Passa-se em Janeiro de 1942, durante a ocupação nazi de Paris, na França de Vichy. O enigmático Robert Klein (Alain Delon), de origem alsaciana, aparentemente apolítico, é um comerciante de arte rico, católico de nascimento, que se aproveita da situação dos judeus franceses que precisam de vender obras de arte para poderem fugir do país. Um dia a tranquilidade de Robert é quebrada ao encontrar na porta de sua casa um exemplar do jornal ‘Informações Judaicas’, com seu nome e morada na etiqueta, como destinatário da assinatura. Na verdade, descobre que um outro Robert Klein, que também mora em Paris, um judeu procurado pela polícia, encaminhou o seu correio para ele, numa aparente tentativa de destruir a sua reputação e tornando-o num alvo de anti-semitismo. O receio de ser tomado por judeu, logo se transforma na busca obsessiva de Klein para encontrar o homem que age sob a sua identidade visando comprometê-lo. E a situação complica-se ao comunicar esta situação à polícia, que suspeita que tal homem não existe, surgindo a desconfiança de que Robert possa estar a criar este ardil, para disfarçar a sua verdadeira identidade.

A PARTIR DE 13 DE MAIO

The Go-Between
O Mensageiro (1971) | ©Medeia Filmes

O Mensageiro/The Go-Between (1971, 118’)

Com Julie Christie, Edward Fox, Alan Bates.

Trata-se de uma adaptação de um romance do escritor L.P. Hartley (1895-1972),  entregue ao dramaturgo Harold Pinter, que foi o responsável pelas alterações do argumento, e que lhe dá uma visão estilizada das memórias de um velho narrador, numa evocação perfeita no tempo, espaço e ambiente social. Trata-se da história de um amor não correspondido, que desafia a inabalável estrutura social da época. Passa-se num meio rural de Norfolk, no Nordeste de Inglaterra, e é contada em flashback por Leo Colston (Michael Redgrave). Marian Maudsley (Julie Christie) é uma aristocrata que está noiva de Hugh Trimingham (Edward Fox), um homem rico com boa posição social. No entanto, é o lavrador Ted Burgess (Alan Bates) que Marian ama, numa relação impossível e condenada obviamente pela rigidez da sociedade da época. O então jovem Leo Conston, que, aos 13 anos serviu de mensageiro do amor, entre os dois amantes, é o narrador desta história. Com este filme o realizador Joseph Losey ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1971 e Margaret Leighton foi nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Secundária pela sua interpretação do papel de Mrs. Maudsley, a mãe da jovem Marian.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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