Kay Cannon na rodagem de "Cinderella" (2021) © Amazon Studios

Cinderella | Entrevista à cineasta Kay Cannon que desafia o conto clássico

A MHD falou em exclusivo com Kay Cannon sobre a sua segunda longa-metragem “Cinderella”, onde desafia o conto clássico. 

Já praticamente tudo foi dito, escrito e imaginado sobre “Cinderella“. A maioria de nós associa a sua primeira aparição na cultura popular ao filme “A Gata Borralheira” (1950) criado pela Walt Disney Pictures, no entanto Cinderella já está neste planeta há vários anos. Trata-se de uma história clássica, cuja origem remota ao ano 23 d.C (quase tão antiga como a história do nascimento de Jesus). Mais tarde, o modernismo europeu teria a função de recuperar a nossa memória para este menina que trabalha dia e noite para a sua madrasta, numa história publicada pelos irmãos Grimm, na coleção de contos populares de 1812.

Seja qual for a tua versão preferida, a Cinderella, mais do que nenhuma outra personagem, conseguiu percorrer vários tempos e épocas. Mas será que alguma vez chegou a reinventar-se para se adaptar às novas audiências? A questão coloca-se porque agora há um novo filme prestes a ser lançado na plataforma de streaming Amazon Prime Video e que traz tanto de clássico como de revolucionário.

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Cinderella (1950) | © The Walt Disney Company. All rights reserved

Nos últimos anos, tivemos oportunidade de ver “Cinderella”, de Kenneth Branagh, um live-action protagonizado por Lily James, Cate Blanchett e Richard Madden, cujos figurinos de Sandy Powell estiveram na corrida ao Óscar de Melhor Guarda-Roupa. Essa produção foi criada pelas mãos da Walt Disney Pictures e surgiu na linha que o estúdio adoptou na passada década de revisitar todas as suas animações e transformá-las em histórias com atores de carne e osso. A história mantinha claramente o seu sentido mais classicista, e fez-nos perceber a força da Disney e da magia dos seus contos durante várias décadas. Inesperadamente, também a própria Walt Disney criou uma espécie de Universo Marvel dos contos de fadas quando colocou a personagem animada Ella no filme de animação 3D “Ralph vs Internet” (2018). Vimos uma Cinderella mais rebelde, ao lado de todas as outras figuras femininas do estúdio como Branca de Neve, a Bela Adormecida ou a Bela de “A Bela e o Monstro”.

Hoje chegou a vez de nos desviarmos por completo da princesa loira, para conhecermos a beleza de Cinderella como mulher latina, interpretada pela jovem cantora Camila Cabello, no seu primeiro papel no ecrã. Talento emergente, Camila Cabello permite a Cinderella seguir uma nova direção, desta vez mostrando-a como uma jovem empreendedora e motivada em vincar no mundo da moda. É uma mulher atrevida, que se consegue impor frente à sua madrasta e à sociedade machista que a rodeia. Para surpresa de muitos, a nova “Cinderella” é um filme original Amazon em colaboração com a Sony Pictures e não tem qualquer associação à Walt Disney. Não se trata de um remake dos anteriores filmes citados, mas de uma revisitação à história clássica, sem comprometer o seu peso na história dos contos infantis, embora com a finalidade de abrir as mentes dos espectadores mais conservadores.

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Lily James e Cate Blanchett

Até a escolha para a realização deste projeto foi bastante ousada. Kay Cannon, cineasta da comédia para adultos “Os Empatas” (2018), mostra como é possível mudar completamente de estilo da primeira para aquela que é apenas a sua segunda longa-metragem. No entanto, falamos de uma artista com vários anos de experiência em Hollywood, não tivesse sido ela argumentista e produtora executiva da série “30 Rock” (2007 – 2012) e mais tarde também ela a argumentista e produtora da trilogia “Um Ritmo Perfeito” (2012, 2015, 2017), onde cantar em A cappella passou a fazer parte do cânone de muitos musicais.

Em “Cinderella” Kay Cannon fez de tudo para conciliar passado e presente, e desta vez não é somente a personagem de Cinderella a inovar. A própria fada madrinha é interpretada por Billy Porter, um dos artistas que mais tem defendido a rutura da noção de género tanto fora como por detrás das câmaras. “Cinderella” é um filme feminista, um filme sobre a libertação de estigmas e de valores arcaicos. É um filme sobre o nosso presente, sobre pessoas de diferentes fisionomias, tons de pele, de diferentes géneros que têm uma coisa em comum: sonhar. Aqui não conhecemos apenas a perspetiva de Cinderella, e o objetivo de Kay Cannon passou por dar voz a todas as personagens, incluindo aquelas mais esquecidas.

Em “Cinderella” temos ainda músicas originais em alinhamento com músicas populares, como por exemplo, “Material Girl”, “Rhythm Nation” ou “Somebody to Love”, para que todos os espectadores estejam juntos nesta experiência, que pode e deve ser feita em família. Não basta ter uma história que todos conhecem, para Kay Cannon foi necessário ter também um conjunto de canções que todos os membros de uma família possam cantar e dançar em uníssono.

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A nova versão de “Cinderella” (2021) com Camila Cabello no principal papel © Amazon Studios

A nossa entrevista com Kay Cannon foi extremamente curta, no entanto a realizadora mostrou-se interessada nas nossas perguntas. Partilhamos contigo o texto da entrevista abaixo, mas poderás estar atento ao nosso Youtube, onde publicaremos brevemente a versão em vídeo desta conversa.

MHD: Como é que “Cinderella” irá conectar o presente e o passado?

Kay Cannon: Bem, eu gosto de pensar que esta versão, mesmo como história multi-geracional, não é apenas a história da Cinderella, mas também é uma história sobre o rei e a rainha. E também é uma história sobre a madrasta e sobre a possibilidade de descobrirmos mais sobre ela. Não é apenas sobre o romance, é sobre todas as personagens que procuram ser felizes para sempre. E eu acho que, ao contar essa história de várias gerações, irei conectar as visões tradicionais do passado sobre algo do presente. Era importante modernizar a Cinderella de forma a preencher a lacuna entre passado e presente.

MHD: Quão desafiante foi dirigir o extraordinário elenco de “Cinderella”, onde temos Camila Cabello no seu primeiro papel, mas também atores de enorme popularidade como Pierce Brosnan e Billy Porter? 

Kay Cannon: Com a pandemia, a rodagem de “Cinderella” foi bastante complexa. Quando filmas existem sempre desafios, que te superam. No entanto, em termos de elenco eu não tive nenhum problema. Foi um enorme prazer trabalhar com todos estes nomes. Estavamos todos no mesmo barco, uns com os outros. A comunicação entre a equipa foi ótima. Foi uma diversão (sorrisos). E eu fiquei muito grata por ter dirigido este belo elenco, incrivelmente talentoso. Graças a Deus que correu tudo bem, porque foi uma das coisas mais fáceis, já que haviam outros tantos obstáculos mais difíceis de superar.

Kay Cannon

MHD: A história da Cinderella é conhecida pelas audiências um pouco por todo o mundo… Qual foi a direção seguida para que a Kay pudesse se expressar como realizadora?

Kay Cannon: Eu decidi ficar o mais perto possível das minhas raízes cómicas. Eu queria fazer algo que fizesse as pessoas rir. O maior exemplo que te posso dar é provavelmente o momento em que os ratos se tornam humanos e começam a julgar os humanos pelo seu comportamento. Coisas dessas nunca vimos antes. Fiz uma releitura da Cinderella, para que conseguisse dar o meu toque pessoal mais cómico às pequenas coisas que antes não prestávamos muita atenção. Depois tive a possibilidade de utilizar músicas altamente divertidas, que todos conhecem, para que todos possam gostar.

Sendo uma história tão famosa mundialmente, o meu objetivo era incluir uma série de coisas que todos se possam identificar. Quero muito que as pessoas se unam, e partilhem a mesma energia através das músicas.

MHD: Esta é apenas a sua segunda longa-metragem como realizadora. Como foi a transição de “Os Empatas” para “Cinderella”?

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John Cena, Leslie Mann e Ike Barinholtz em “Os Empatas”, de Kay Cannon © NOS Audiovisuais

Kay Cannon: “Os Empatas” foi classificado como filme para maiores de 18 anos. “Cinderella” é uma comédia ligeira, que poderá ser colocada num lado completamente oposto da moeda. Eu esforcei-me ao máximo para contar uma história que fizesse sentido, que fosse surpreendente e engraçada. Mas sempre do lado da comédia. Na verdade, eu abordei realmente “Cinderella” como se fosse um filme de animação, onde as crianças tivesse a possibilidade de rir das piadas.

E também acredito que os adultos vão gostar das piadas que passam pela cabeça de uma criança. Os adultos também vão gostar de “Cinderella“. Então foi assim, eu quis encontrar o ponto ideal onde houvesse algo de engraçado para todos. Tomei o facto de ser um musical, e apesar de nunca ter feito nada desse género antes, quis arriscar. Eu tinha uma visão para cada personagem, para cada performance e para mim a rodagem foi muito sobre essa visão e ser capaz de comunicá-lo à minha equipa.

MHD: O que nos poderia dizer sobre o império de vestidos criado pela Ellen Mirojnick? Como foi trabalhar diretamente com ela? 

Kay Cannon: Eu adoro a Ellen, ela já fez tanta coisa e o seu currículo é tão incrível. Muitas vezes eu sentava-se e pedia para falar com a Ellen uns segundos. Depois eu perguntava-lhe: “então como foi trabalhar em “Instinto Fatal””? Eu queria que ela me dissesse tudo o que me poderia contar.

Cinderella

Eu e a Ellen falámos sempre muito francamente uma com a outra, comunicamo-nos muito bem e estivemos na mesma linha desde o início. A Ellen é alguém que gosta de ter muita pressão e que não queria fazer o tradicional vestido azul para a Cinderella. Agora que nesta história a Cinderella é ela própria uma estilista, que desenha o seu próprio vestido, a Ellen quis que a estrutura do vestido fosse moderna. A diferença dela é que há uma estrutura no corte do vestido, que tem até uma forma futurística. Ela soube fazer uma coisa bastante diferente… depois consegue criar um botão onde antes não havia botão. É aquela ideia de fazer algo novo nunca antes visto, mesmo que seja muito semelhante a outros trabalhos de outros filmes. Portanto, houve muita discussão sobre isso. A Ellen estava tão animada em fazer este filme, e eu estava muita ansiosa para ver como ficaria o vestido.

MHD: Obrigado Kay por esta entrevista.

Kay Cannon: Foi um prazer!

Trailer de Cinderella (2021), de Kay Cannon

“Cinderella” será lançado mundialmente na plataforma de streaming Prime Video na próxima sexta-feira, dia 3 de setembro. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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