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Colmeia, em análise

Blerta Basholli traz-nos “Colmeia”, um drama premiado, que conta com Ylka Gashi e Aurita Agushi nos papeis principais!

UMA PICADA DE ABELHA-MESTRA…!

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Colmeia
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Num enxame de abelhas, a abelha-mestra é a única fecunda, a rainha, a que assegura a reprodução da espécie. No filme que em albanês se chama ZGJOI (COLMEIA), 2021, primeira obra da realizadora Blerta Basholli, a protagonista de nome Fahrije, interpretada por Yllka Gashi, vive rodeada de outras abelhas, umas mestras e outras obreiras ou operárias, leia-se, qualquer delas mulheres que sentem na pele a necessidade de organizarem as suas vidas contra as adversidades passadas e presentes e que não estão dispostas a desistir de assumir as suas responsabilidades perante elas e as famílias que representam. Mulheres que em certos casos não se inibem e estão prontas a ferrar nos preconceitos canalhas de uma sociedade misógina que continua a discriminar por género e a considerar os valores femininos como os da fada do lar, mãe exemplar e sacrificada, aquela que está nomeada, quer ela goste ou não, por um poder masculino que a obriga a salvaguardar os valores ancestrais da separação entre sexos, perpetuando práticas retrógradas absolutamente em contraciclo com as necessidades básicas de uma sociedade que viu morrer muitos dos seus homens. Mesmo que a sociedade pule e avance, por vezes, nem sempre da melhor maneira. De facto, a acção decorre no Kosovo e numa pequena e fechada aldeia daquele país dos Balcãs, país que foi palco de uma guerra brutal que deixou, mais do que as marcas da destruição material, o peso insuportável da morte e a incerteza do paradeiro dos que morreram a pairar sobre a existência de muitas famílias, destruídas no que sempre será mais difícil reconstruir, o equilíbrio emocional e a paz de espírito perdidos no meio de massacres e de inúmeras violências sem nome. No genérico final, os produtores decidiram complementar a frase inicial (que nos dizia ser a história destas mulheres baseada em factos reais) com uma breve, muito breve contextualização da guerra e dos dramáticos acontecimentos associados. Está no fim, antes do genérico final, mas na minha opinião esses parágrafos deviam surgir no início porque são frases que ficariam a ecoar de uma maneira mais aguda e poderosa ao longo do fluir narrativo. Reza assim: “Em Março de 1999, as aldeias de Krusha e Madhe sofreram um dos piores massacres da Guerra do Kosovo. Mais de 240 habitantes foram mortos e desapareceram. Mais de 1600 pessoas continuam desaparecidas, 64 oriundas daquelas duas aldeias. Há quem diga que umas foram atiradas ao rio e outras assassinadas na floresta. Há quem mantenha a esperança de que alguns dos desaparecidos voltem… vivos”. Passaram mais de duas décadas. Era importante que os espectadores, sobretudo os que provavelmente não eram nascidos ou então já nem se lembravam desta selvajaria, soubessem desde as primeiras imagens e da primeira sequência de COLMEIA qual o impacto que a busca do marido, alegadamente morto, possui no corpo e na alma de Fahrije. Dúvidas e angústias que não se apagam de um dia para o outro e que estão estampadas no rosto da corajosa actriz. Será ela viúva de um morto vivo ou mulher de um fantasma? Seria fundamental sabermos do que se está a falar no argumento, não só porque a memória da brutalidade se esvai com os anos e o impulso para esquecer provoca depressões graves na psique individual e colectiva, como, do ponto de vista do efeito dramático, cada passo que aquela mulher desse a partir dali neste filme seria um passo num caminho minado. Porque a qualquer momento, se o marido voltasse do “reino da morte”, mas vivo, como quem se tivesse evadido de uma prisão sem grades onde ficara exilado por acontecimentos que o ultrapassaram, quem garantiria que o status quo das abelhas-mestras e das abelhas-obreiras não se alteraria de um dia para o outro, voltando a sua família e uma parte da aldeia a ficar novamente submetida ao patriarcado dominante? Na verdade, as mulheres como Fahrije não querem ser apenas donas de casa mas donas do seu próprio destino, começam a perceber que a rédea curta do poder macho não sobrevive se elas souberem gerar os meios para se assumirem com força, unidade e independência. Por isso, ela produz e negoceia mel, produção escassa oriunda das colmeias que o marido construíra e que são o último reduto da memória ainda viva de alguém que muito possivelmente nunca voltará. Entretanto, avança igualmente com as outras companheiras para um negócio de produção de “ajvar”, uma massa de pimentão muito apreciada nos Balcãs, que conseguem colocar para venda num supermercado com um gerente particularmente cooperante. Enfim, ainda há homens de boa vontade por aquelas bandas. Por contraste, os grunhos da aldeia invadem o armazém onde os frascos são guardados e partem a maior parte. Será o momento de Fahrije deixar de olhar com raiva para os autores descarados deste ataque e passar a vias de facto. Aplica-lhes a fórmula “amor com amor se paga” e lá vai uma pedrada na janela de uma baiuca em forma de bar onde eles se concentram. Muitos dizem que COLMEIA é um filme feminista, e sinceramente, penso que essa visão um pouco superficial passa ao lado do essencial. Estamos aqui, isso sim, perante um filme que assume a introdução da matéria real no plano ficcional para reivindicar o pleno da dignidade humana, qualquer que seja o sexo de quem quer ser livre. No fundo, COLMEIA, no contexto do Kosovo e de muitos países que sofreram e sofrem as consequências da guerra, apresenta-se como o depoimento necessário para que se pense melhor cada vez que falamos dela de um modo dicotómico, como algo entre nós e os outros, o preto e branco que reduz ou abafa a verdade dos factos. Não, as vítimas da guerra estão nos dois ou mais campos de batalha, e a batalha pela emancipação feminina não passa de uma etapa para se chegar ao patamar da paz e da harmonia entre os povos. Se não for assim, daqui a uns anos os filhos da realizadora e da equipa que ela dirigiu serão obrigados a fazer novo filme sobre novos massacres, sobre novos homens e novas mulheres. Porque parece que não aprendemos nada com os erros da História.

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Escusado será dizer que estamos perante um filme urgente para quem quer ou souber olhar para os conflitos procurando perceber as suas mais profundas raízes e a sua dimensão humana.

Colmeia
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Colmeia, em análise
Colmeia Poster

Movie title: Hive

Date published: 5 de May de 2022

Director(s): Blerta Basholli

Actor(s): Yllka Gashi, Çun Lajçi, Aurita Agushi

Genre: Drama, 2021, 84min

  • João Garção Borges - 70
70

CONCLUSÃO:

PRÓS: No Festival de Sundance de 2021 fez o pleno ao ser a primeira obra a receber simultaneamente o Grande Prémio do Júri, o Prémio do Público e o Prémio da Realização na secção competitiva Cinema Mundial – Drama. Depois, integrou a short list para as nomeações aos Óscares. Mais alguma recomendação? Bom, olhem para o bom desempenho das actrizes que acompanham uma muito segura Yllka Gashi. Destaque ainda para um argumento que não cai na armadilha, nem do feminismo puro e duro, antes pelo contrário, nem do militantismo sem bandeira definida, do combate porque sim. Aqui, as razões daquelas mulheres são claras e não são histéricas. Quem lhes dá razão, sem o querer, são os homens e, diga-se, algumas mulheres que fazem o seu jogo mais ideológico do que sexista.

CONTRA: Nada de especial. Receio que possa passar ao lado de muitos numa altura em que as ofertas de filmes de autor se multiplicam, mas haja esperança.

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