Condor | © AMC

Condor T2, primeiras impressões

A segunda temporada de “Condor” reativa as atividades extra-curriculares oficiosas de Joe Turner, numa toada mais lenta, pretextada e especulativa. Tolstoy já dizia: “os dois guerreiros mais poderosos são a paciência e o tempo”.

Não será obviamente com a dita citação, que “Condor” volta a reabrir a sua cartilha de ação sexy para espião ver, mas é com uma outra menos camuflada e mais deliberada nas suas devotas intenções. Curiosamente, o piloto da primeira temporada começava a sua digressão assassina na solidão árida do Novo México, e também aqui, as mesmas pontas soltas voltam a ser apadrinhadas numa tal solitude pútrida nas areias do Mar Negro. E é com essa tónica na profissão mais antiga e solitária de todas, que somos convidados a despertar para uma sessão noturna de disparos traidores com sotaque russo, só para sermos relembrados ao que vamos, para logo de seguida levarmos com as insónias remordidas do jovem Turner, abandonado pelo toque feminino naquele típico varandim solteiro de uma moradia em Budapeste. Ou seja, Katzberg continua a puxar o lustre à “conspiração romântica” da paisagem com o seu sujeito, enquanto Turner dá uma tragada num cigarro húmido encostado às traves confessionais da centenária Ponte da Liberdade, com Mae do outro lado da rede telefónica. Dito assim, ainda vai soar mais aquele rebatido clichê de um agente secreto amargurado numa cidade cheia “clicks” perfumados, mas há qualquer coisa entre o carisma de Max Irons e os seus locais de passagem, que enamora com o espetador como uma velha canção tocada vezes sem conta.

Condor T2 Primeiras Impressões Corpo
Condor | © AMC

A mesma fórmula de pavimentação aleatória dos múltiplos rastilhos da trama permanece intacta, com novas caras a darem-se a conhecer sem convite, como o novo amigo colorido de Mae: Tracy Crane (Eric Johnson), que preenche o vazio emocional da sua viuvez com um perfil em tudo semelhante ao do seu falecido marido; Vasili Sirin (Alexei Bondar) – um coronel russo desertado da SVR (Serviço de Inteligência Estrangeiro), que segue o rasto de Joe em troca de informação classificada e asilo; e Gordon Piper (Toby Leonard Moore) – um oficial da Agência com uma agenda de operações no terreno no mínimo suspeita. Para já, são estes os rostos proeminentes desta salganhada de relações promíscuas e objetivos obscuros ainda latentes, com Vasili a assumir as rédeas preliminares do protagonismo, enquanto evade os capangas da sua eliminação por átrios e ruelas românicas, que os criadores de “Condor” mapeiam magistralmente com panorâmicas verticais apanhadas de cima. Contudo, à que dizer que o elo argumentativo da junção dos ex-agentes é algo forçado e rebuscado, causando algum esmorecimento no impacto total das cenas. É por isso que teremos de avançar com cautela relativamente à alta fasquia deixada pela estreante temporada de “Condor”, ainda para mais quando a sua produtora acabou de puxar o tapete à continuidade da série, mesmo antes desta última ir para o ar.

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Mas poderá haver salvação para “Condor”, mesmo quando o argumento apresenta algumas dentadas de toupeira, já que temos ainda em jogo alguns repetentes de peso a sustentar todo um rol de performances competentes. Reuel Abbott (Bob Balaban) – o Diretor-Adjunto da CIA, continua com o seu semblante passivo-agressivo a maniatar o tabuleiro dos acontecimentos; Bob Partridge (William Hurt) tem uma breve aparição; Mae é o contra-peso mais audível de toda a testosterona à solta; e Lily poderá não ser só a recatada esposa de um alto funcionário governamental. Aliás, quer-nos parecer que as mulheres voltam a jogar no campo de batalha ofensivo dos homens, e desta vez poderão até ser as esposas a renunciar ao rótulo de meros peões dos seus planos maquiavélicos. E com Turner de regresso a solo americano à procura de um propósito existencial, disparam as falsas conversas de circunstância disfarçadas por um sorriso intolerante, como aquele belo charuto de final de tarde finalizado com um shot ácido de tequila. Ou seja, vende-se tempo para montar quaisquer que sejam as ratoeiras pessoais, talvez em demasia, o que por um lado confere aquela pitada de realismo mundanal, mas por outro corre-se o risco de ficarmos encorralados numa teia vulgar de ações inconsequentes.

Condor T2 Primeiras Impressões Corpo
Condor | © AMC

Ainda assim, este segundo ato de “Condor” parece uma proposta recomendável, sobretudo por agregar um elenco respeitável com resmas de charme e paleio, além de possuir o mérito de evocar o lado mais puro e romântico do antiquíssimo ofício da espionagem, sem se deixar desvirtuar pela usual aparelhagem de gadgets futuristas, como se os velhos métodos fossem mera literatura de museu. São estes condimentos que concorrem para catapultar “Condor” da tradicional mediania deste género televisivo, mas é necessário não depositar todas as fichas nas sequelas de grandes sucessos de audiência, pois tendem a confirmar a má fama de gorar as expetativas. Para já, tem o nosso selo de aprovação…

Condor T2 | Primeiras Impressões
Condor T2 Primeiras Impressões Póster

Name: Condor (AMC)

Description: Baseada no filme “Os Três Dias do Condor”, protagonizado por Robert Redford e Faye Dunaway em 1975, “Condor” é um thriller que tem como protagonista Joe Turner (Max Irons), um perito informático que se tornará o único sobrevivente de uma unidade especializada da CIA, após o ataque de um grupo criminoso. A partir desse momento, Turner terá de lutar para se manter vivo e também para descobrir a identidade dos terroristas que ameaçam a vida de milhões de pessoas no mundo.

Author: Miguel Simão

  • Miguel Simão - 70
70

CONCLUSÃO

A revisitação a “Condor” só poderia deixar-nos entusiasmados, não só pelo pedigree que o seu nome acarreta, mas pela primeira tentativa tão bem sucedida. No entanto, os dois novos episódios que tivemos oportunidade de visualizar privilegiadamente, cortesia dos nossos amigos da AMC, deixaram-nos com um sabor agridoce que não nos aquece nem nos arrefece.

Queremos mais, muito mais! 🤞🔥🎲

Pros

  • Elenco fantástico
  • Altos valores de produção

Cons

  • Argumento preguiçoso e vago
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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