©Outsider Filmes

Deserto Particular, em análise

O novo filme do realizador brasileiro Aly Muritiba é um drama sentimental que conta com algum suspense, uma história de um amor impossível, ambientada no Brasil machista e homofóbico da actualidade. 

Em primeiro lugar, além de estrearem poucos filmes brasileiros nas salas nacionais ‘Deserto Particular’, o novo filme do realizador brasileiro Aly Muritiba (‘Ferrugem’), lançado na 18ª Giornate degli Autori de Veneza 2021, é de louvar esta co-produção portuguesa, com a Fado Filmes, de Luis Galvão Teles, que une efectivamente Portugal e Brasil na defesa dos ideais de liberdade de expressão no cinema, em tempos difíceis, para o País-Irmão. Este filme, foi realizado num momento conturbado para o cinema brasileiro, tanto do ponto de vista do financiamento, como da liberdade de criação, defendida por um jovem realizador, que define aliás, esta sua nova e polémica obra, como uma história de ‘afectos masculinos no Brasil contemporâneo’. Aly Muritiba é aliás um dos mais promissores realizadores do cinema brasileiro, já com participações internacionais em festivais importantes como, Sundance (‘Ferrugem’, 2018), Veneza (‘Tarântula’, 2015), San Sebastian (‘Para Minha Amada Morta’, 2015/‘Ferrugem’, 2018) e nas curtas-metragens da Semana da Critica de Cannes (‘Pátio’, 2013).

Aly Muritiba
Intensas e empenhadas interpretações de Pedro Fasanaro e Antonio Saboia. ©Outsider Filmes

‘Deserto Particular’, é um filme que viaja do sul para o nordeste do Brasil, por lugares distantes e muito distintos, tanto a nível geográfico como emocional. Sobre o filme Muritiba refere ainda quase numa mensagem política de afirmação, que ‘após a eleição de Jair Bolsonaro, todas as minorias, mulheres, indígenas, comunidade LGBTQI +, negros, entre outros, passaram a ser perseguidos sistematicamente e o país foi dividido entre o sul conservador e o norte/nordeste progressista. Muitas vezes chegamos à beira de um confronto armado. E esses tempos de ódio motivaram-me na hora de decidir qual seria meu próximo filme. Decidi que faria um filme de encontro. Nesses tempos de ódio, decidi fazer um filme de amor.’ ‘Deserto Particular’ é por isso, um drama sentimental ao estilo road movie, em que o seu protagonista descobre uma parte desconhecida de si mesmo. Porém, seria mais um filme sobre um amor impossível, uma história homo-afectiva, se Muritiba não lhe introduzisse uns interessantes elementos de suspense, mistério e incerteza.

VÊ TRAILER DE ‘DESERTO PARTICULAR’

Daniel (Antonio Saboia, vimo-lo em ‘Bacurau’) não pára de pensar em Sara, uma mulher que conheceu através da internet, mas que nunca viu pessoalmente, pois mora do outro lado do país. Daniel é um policia federal, caído em desgraça, suspenso das suas funções, por ter sido duro e ter agredido um recruta, durante uma instrução policial. Além disso, Daniel está envolvido numa teia de problemas, a precisar de apoio e conforto, pois tem várias coisas com que se preocupar: o sucessivo adiamento do seu julgamento, por esse caso de violência excessiva — que se tornou mediático —; tem de tomar conta do seu pai idoso, um ex-militar, que está demente e precisa de cuidados durante 24 horas. Na primeira metade do filme, acompanhamos o stressado Daniel, no seu triste quotidiano,  para sobreviver a tanta pressão, enquanto e para se desenrascar, arranja um emprego como porteiro de uma boate; ou então a discutir com a sua irmã, que quer mudar o pai para uma casa de repouso e que entretanto se apaixonou por outra mulher, algo que Daniel, um policia durão, obviamente, não aprova, nem aceita.

Deserto Particular

A única pessoa que parece compreendê-lo e o consegue fazer sorrir parece ser Sara, a mulher que conheceu virtualmente, com quem troca mensagens e fotografias pelo de Whats App do telemóvel. No entanto,  de um dia para o outro, a mulher deixa de atender o telefone e desaparece do aplicativo. Daniel decide então pegar no seu carro e viajar do Paraná, para o nordeste do país — junto à barragem de Sobradinho, uma gigantesca hidrelétrica, no Estado da Bahia  — deixando tudo para trás inclusive o seu velho pai — para percorrer cerca de três mil quilómetros na esperança de encontrar a misteriosa Sara. É aqui que o realizador parece querer mesmo começar uma nova história, apresentando os créditos iniciais, cerca de meia hora após o início do filme. Ao chegar ao seu destino, Daniel cobre a pequena cidade onde Sara mora, com cartazes com a sua fotografia, esperando que alguém a reconheça e lhe diga onde ela vive. Finalmente, um homem (Thomas Aquino) entra em contato com Daniel e informa-o sobre o paradeiro da Sara, mas nada mais do que isso. É neste momento do filme e o rumo desta história muda radicalmente em vários sentidos, revelando quem é afinal Sara e como leva a sua dupla vida diária? Enquanto isso, Daniel prático na investigação, consegue finalmente, localizar a sua amada, insistindo aliás em conhecê-la. Porém, Sara não conseguirá mais fugir a uma verdade inevitável e que procurou durante muito tempo esconder.

Deserto Particular

‘Deserto Particular’ é uma história de um encontro inesperado, que obriga um ‘durão’, a questionar-se em relação às suas próprias certezas como homem, levando-o primeiro à decepção, raiva e à violência, antes de ajudá-lo a reconectar-se consigo próprio e com as suas emoções mais profundas. É também uma história sobre uma decepção, uma relação impossível, em que duas almas perdidas, acabam suspensas entre o amor e o ódio, numa crónica de um encontro e do confronto, entre dois mundos, dois ‘Brasis’ bem diferentes: o sul, frio, conservador e mais rico; e o norte ensolarado, progressista e pobre. O realizador aborda todas estas questões sociais do Brasil actual, sempre com muita delicadeza, contando para isso com as intensas e empenhadas interpretações de Pedro Fasanaro e Antonio Saboia. O resultando é um filme equilibrado e sensível, que questiona o conceito de liberdade individual e as ‘barragens’ de preconceitos, que construímos em relação à sexualidade e ao amor, que acontece por vezes de uma forma inesperada. O resto é para ir descobrindo aos poucos, como se nós próprios fizéssemos parte desta investigação pessoal e andássemos à procura de Sara.

JVM

Deserto Particular, em análise
Deserto Particular

Movie title: Deserto Particular

Movie description: Daniel (António Saboia), de 40 anos, foi suspenso do seu trabalho de policia no activo e está sob investigação interna, por violência. Quando Sara, o seu caso de amor na internet, pára de responder suas mensagens, Daniel decide loucamente viajar de carro para o norte do Brasil, à procura da mulher. Ele vai mostrando a fotografia de Sara, mas ninguém parece reconhecer a mulher. Até que, eventualmente, um homem aparece, dizendo que pode colocar os dois em contato, sob condições muito específicas.

Date published: 5 de July de 2022

Country: Brazil/Portugal, 2021

Duration: 121 minutos

Director(s): Aly Muritiba

Actor(s): Antonio Saboia, Thomas Aquino, Pedro Fasanaro,

Genre: Drama

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  • José Vieira Mendes - 60
60

CONCLUSÃO

‘Deserto Particular’, do realizador brasileiro Aly Muritiba é um filme que retrata as obsessões amorosas, do ponto de vista masculino. Daniel (António Saboia) passa de um choque inicial, para o reconhecimento de que o amor, pode assumir formas inesperadas; enquanto Robson/Sara (Pedro Fasanaro) acaba por aceitar também, que seu lugar no mundo pode não estar ali. Trata-se de arco dramático, que não é nada forçado, que flui naturalmente, sendo que às vezes até adquire um tom romântico, de uma enorme emoção e compreensão. É um filme até um pouco cerebral, mas suficiente, para fazer de uma música tão melosa como ‘Total Eclipse of the Heart’, de Bonnie Tyler, num tema musical comovente e sensível, num dos grandes momentos deste road movie romântico, com algumas doses de suspense e investigação policial.

Pros

A fluidez de um drama em nada forçado, está muito bem associado às intensas e notáveis interpretações dos dois actores (Antonio Saboia e Pedro Fasanaro) que são os protagonistas.

Cons

O romance obsessivo, parece tão fadado ao fracasso, tornando-se tão cerebral que o coração e a emoção, acabam por ficar um pouco em segundo plano.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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