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Locked Down, em análise

’Locked Down’, de Doug Liman com Anne Hathaway e Chiwetel Ejiofor é  mais um dos filmes inspirado na quarentena e na era pandemia Covid-19. Trata-se de uma divertida e despretensiosa comédia romântica, engenhosamente pensada para utilizar imagens dos dispositivos digitais. Estreou na HBO.

 ‘Locked Down’, — a HBO Portugal decidiu não alterar-lhe o título e bem — é uma comédia romântica, misturada com a tensão de um filme género ‘golpada’ (ou heist), e centrada apesar da ironia sempre presente, em temas como o relacionamento de um casal, o aumento do desemprego e as diferenças sociais provocadas pelo impacto da pandemia de Covid-19 e o dever de ficar em casa. Mas ‘Locked Down’, não é para ser levado assim tão a sério! É mesmo para passar umas boas duas horas e nos sentirmos identificados com uma realidade que também pode ter um lado divertido e de mudança nas nossas vidas. Esperemos que para melhor!

Locked Down
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O filme foi escrito por Steven Knight (‘Promessas Perigosas’, Locke e da série Peaky Blinders) e realizado por Doug Liman (‘Identidade Desconhecida’, ‘Mr. e Mrs. Smith’, ‘No Limite do Amanhã’). E na verdade parece quase uma versão light e agridoce do saudoso ‘Mr. e Mrs. Smith’, caso ironicamente ficassem em quarentena, como muita gente em todo o mundo. A história anda à volta de Linda (Anne Hathaway), uma executiva americana de uma fetch de produtos de luxo e Paxton (Chiwetel Ejiofor), um intelectual intermitente em termos de trabalho, que cumpriu uma pequena pena de prisão, que só consegue encontrar emprego como motorista de entregas, apesar de ter pretensões a poeta e ser um fanático ‘motoqueiro’.

VÊ TRAILER DE ‘LOCKED DOWN’

Eles formam um casal inter-racial que descobre que a vida tem outros planos para eles, e no momento em decidem separar-se, veem-se presos na mesma casa no centro de Londres (na burguesa Portland Street), por causa do confinamento obrigatório. A coabitação entre os dois vai revelar-se um complicado desafio, alimentado pela poesia e por grandes quantidades de vinho, nem sempre de boa qualidade. No entanto, a decisão de roubarem um valioso diamante do icónico armazém londrino, Harrods de Knightsbridge — onde ela tinha trabalhado anteriormente — irá (re)aproximá-los de uma forma bastante surpreendente. Antes propriamente do possível golpe do casal ‘Locked Down’ mostra muitas situações que se vieram fazer parte do nosso dia-a-dia, partir da primeira fase de confinamento e comuns à maioria das grandes cidades: teletrabalho, reuniões de trabalho em video-chamada por Zoom ou Skype, as conversas com os amigos e família também através das aplicações digitais, o uso das máscaras em locais públicos e transportes, as ruas desertas, o distanciamento social e os cumprimentos com o cotovelo, as filas à porta dos supermercados e o açambarcamento nomeadamente de papel higiénico; a dada altura Paxton pergunta mesmo a alguém que passa por ele, com uma grande embalagem de papel higiénico: ‘Quantos Cus é que tens?’.

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No elenco virtual, estão ainda figuras como Claes Bang, Ben Stiller ou Ben Kingsley, entre outros que sedivertiram e fizeram uma ‘perninha’, dando vida a personagens secundárias, num filme que usa o engenhoso recurso dos dispositivos digitais e numa produção com um orçamento relativamente modesto, rodada de forma relâmpago entre setembro e outubro em Londres; respeitando obviamente os novos protocolos de segurança para trabalhar em cinema e televisão na era da pandemia. Embora a produção tivesse muitas limitações, não foi difícil ao que conta o realizador, garantir o Harrods como uns dos locais de filmagem, em perfeita fase de desmontagem por causa do encerramento forçado. São cenas de alguma tristeza, que nunca nos passariam pela cabeça de qualquer um. Criado em 1849, embora o exterior do Harrods possa ser visto em bastantes filmes, só  Peter Rabbit (2018), uma produção de Hollywood recentemente, conseguiu filmar dentro das suas paredes e instalações.

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O enredo de ‘Locked Down’ consegue ir mais fundo que os andares de exposição da grande loja, filmando nos seus corredores subterrâneos, que normalmente são reservados aos funcionários e seguranças. Outra coisa interessante no que diz respeito às localizações de ‘Locked Down’, passa pela casa em West London e que serviu de cenário para as magníficas e divertidas interpretações de Ejiofor e Hathaway. Trata-se de um verdadeiro lar de uma família, e as pessoas que participam nas cenas exteriores são mesmo a vizinhança, mesmo confinada, disposta a participar no filme, a agradar e a conviver à distância, com a equipa de filmagens e sobretudo com as duas estrelas Hathaway e Ejiofor, ilustres visitantes da Portland Street. Como aliás já tinha acontecido em parte com muitos dos funcionários do Harrods, a trabalharem na realidade na difícil missão de arrumarem tudo para fechar a loja. Quem não caça com gato, caça com rato e em tempos desesperados exigem decisões inteligentes e divertidas que nos ajudam a passar este tempo com optimismo. E por isso divirtam-se!

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Locked Down, em análise
Locked Down

Movie title: Locked Down

Date published: 8 de February de 2021

Director(s): Doug Limam

Actor(s): Anne Hathaway, Chiwetel Ejiofor

Genre: Comédia romântica, 2021, 118 min

  • José Vieira Mendes - 70
70

CONCLUSÃO:

No fundo ‘Locked Down’ trata-se de uma divertida crónica de uns tempos difíceis, sobre a ansiedade de duas pessoas iguais a quase todos nós, muito bem interpretadas por Anne Hathaway e Chiwetel Ejiofor, que a dada altura sentem necessidade de mudar de vida. A quarentena forçada vai ajudar e acelerar todo este processo de crise, como se estivessem numa guerra que nenhum deles sabe muito bem como será no futuro ou como irá acabar.   

O MELHOR: as interpretações dos dois actores principais mas também as deliciosas aparições quase todas online dos secundários;

O PIOR: O confinamento é visto apenas como um empecilho e um tédio na vida de duas pessoas com um razoável estilo de vida e não mostra realmente os danos do vírus.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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