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Peaky Blinders, quinta temporada em análise

“Peaky Blinders” chega agora ao quinto ano de exibição. Com um elenco de excelência e um guião audacioso, esta promete ser a melhor temporada da série de Steve Knight. 

Quinta-feira, 24 de Outubro de 1929. O mundo colapsou.

A bolsa de acções de Nova Iorque conhecia o seu dia mais negro. O valor das acções descia a pique. Inúmeras famílias perdiam as suas fortunas e vários negócios eram afectados. Os Shelby, que agora procuravam enveredar por um caminho legítimo e legal, não foram excepção.

Era o inicio da chamada Grande Depressão – o desemprego disparou e os “sobreviventes” tentavam juntar o que havia sobrado do crash – mas, era também o inicio do caos no seio dos Peaky Blinders, o razor gang mais respeitado e temido nas ruas de Birmingham.

Este é, precisamente, o pontapé de partida de Steve Knight, criador e argumentista de uma das séries mais aguardadas do ano, exibida na plataforma de streaming Netflix. Quase dois anos depois do final da quarta temporada regressamos a Birmingham, o habitat natural dos Peaky Blinders. Começamos a ouvir a voz de Nick Cave e o instrumental dos The Bad Seeds – with a red right hand – e somos instantaneamente transportados para um período histórico deveras conturbado e marcado pelo caos.

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A quarta temporada foi marcada pela vingança de Luca Changretta (Adrien Brody) que se mostra um insucesso, uma verdadeira humilhação e pela traição de Alfie Solomons (Tom Hardy), que julgávamos estar do lado de Tommy mas que afinal apostou “no cavalo errado”. No final desse quarto ano de “Peaky Blinders” vemos Tommy (Cillian Murphy) ser aceite como membro do parlamento britânico. É, precisamente, aí que o encontramos, dois anos depois dos acontecimentos do final da quarta temporada. Black Tuesday, o primeiro episódio da quinta temporada, procura mostrar, logo de inicio, o impacto que a diversidade de problemas que afectam a família Shelby tem sobre o seu líder, que atravessa frequentemente a linha ténue que separa o ser precavido e o ser paranóico. Nem tudo é tão controlável quanto Tommy desejaria e, o crash na bolsa veio colocar à prova a sua capacidade de lidar com o imprevisto e o caos. A par com isto surgem divergências familiares, fruto das personalidades fortes e vincadas que nesta família existem e, Tommy é obrigado a procurar novas fontes de rendimento mas… novos negócios acarretam novos riscos.

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Cillian Murphy ©Netflix

No entanto, agora que Tommy ingressou no mundo da política a sua figura (e da sua família) não pode ser afectada por escândalos nem pela barbarie tão característica das temporadas iniciais. É necessário cautela. Sobretudo quando um político extremamente carismático se aproxima do cabecilha dos Peaky Blinders. Trata-se de Sir Oswald Mosley (Sam Claflin), que procura cativar o apoio político de Tommy na sua luta.

Steve Knight já nos habituou à mistura realidade-ficção, tanto que os próprios Peaky Blinders são um conhecido gang dos anos vinte. Esta temporada, que se mostra deveras ambiciosa, não é excepção e apresenta-nos também uma personalidade histórica, uma vez que Mosley é o fundador da UBF (União Britânica Fascista), um partido de extrema-direita britânico, mundialmente conhecido pelo seu apoio ao nazismo. Com a fragilidade da sociedade, resultante do crash e da Grande Depressão, começam a surgir esses partidos e essas ideologias extremistas que se viriam a revelar nefastas numa escala mundial. Steve Knight mais uma vez não falha e, com um argumento audacioso e diálogos muito bem construídos mostra o contexto histórico-político da época e como isso afecta cada membro da família Shelby.

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O personagem de Sam Claflin – Oswald Mosley – bem como o crash e as suas consequências oferecem a esta temporada de Peaky Blinders um panorama político perfeito para entendermos a urgência e o perigo imediato para todos os envolvidos. Esse plano de fundo entra na narrativa, não de forma subtil, mas sim de forma abrupta pelas violentas acções dos Billy Boys – um gang escocês rival dos Peaky Blinders. Estes são liderados por Jimmy McCavern (Brian Gleeson), o braço direito de Mosley, que não olha a meios para atingir os objectivos da causa.

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Sam Claflin ©Netflix

Com todo este panorama as convicções de Tommy são abaladas. Os seus tormentos psicológicos regressam. Grace (Annabelle Wallis) surge em visões, tentando acalmá-lo como sempre fez, na realidade. E o frasco de láudano que teima em ficar vazio…

Por outro lado, Michael (Finn Cole), filho de Polly, que era um dos favoritos da audiência, assume agora um papel intrigante que também acaba por prender o espectador. Tommy confiava-lhe o comando as operações em Nova Iorque e, aquando do crash ordenou-lhe que vendesse as acções. Michael recusou. Portanto, assume-se agora  como peça central na dicotomia traição versus lealdade.

Tommy, tal como sabemos, almeja sempre mais, mas até que ponto estará disposto a ir?  A ambição vale todos os perigos?

 – Tu não és Deus! (Charlie)
– Não, não sou Deus. Ainda não. (Tommy)

Esta quinta temporada de “Peaky Blinders” vai mais além, mostra-nos Tommy e o seu trauma de guerra, visto poucas vezes na série, deixando-o paranóico, descontrolado e ainda mais insensível, distanciando-o dos seus filhos, de Lizzie (Natasha O’Keeffe) e da família no geral. Nesta temporada o protagonista vive numa espécie de prisão da qual não consegue sair, tal como também ninguém consegue entrar.

Se em temporadas anteriores aplaudimos o desempenho de Helen McCrory (Polly) e Paul Anderson (Arthur) pelos seus fascinantes papéis, nesta tiramos, sem dúvida, o chapéu, a Cillian Murphy, que nos traz um Tommy mais instável que nunca. Steve Knight, por sua vez, além do guião fabuloso prima ainda pela concepção de uma imagem mais sombria e algo fantasmagórica, ajudando a criar essa ideia do desequilíbrio psicológico de Tommy e da sua possível queda, dentro e fora da família.

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Helen McCrory e Sam Claflin ©Netflix

Mas, os louros não podem ser totalmente atribuídos ao herói da história. Afinal de contas o que faz um bom herói não é um bom vilão? Sam Claflin brilha como antagonista de Tommy. Fascista e violento mas, carismático e charmoso. Este carácter dúbio tornam-no numa personagem fascinante que faz com que o espectador deseje entrar dentro do ecrã só para o agredir.

Outro aspecto inédito desta temporada é a transparência dos planos de Tommy Shelby. Sempre mantidos em segredo para permitir reviravoltas que visam mostrar que o protagonista joga sempre dez passos à frente, nesta temporada tudo fica às claras para permitir o crescente de suspense em direcção ao clímax. Também a banda sonora de excelência contribui para esse crescente, ficando maioritariamente a cargo de Anna Calvi, mas contando com nomes sonantes como Radiohead, Black Sabbath e Joy Division.

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Esta quinta temporada de Peaky Blinders é a mais política até então, mergulhando num mar turbulento que reflecte a década em que se insere. Depois dos loucos anos vinte em que os Peaky Blinders eram Reis, chegam agora os conturbados anos trinta, repletos de mudanças, não só no contexto histórico-político mas também no seio da própria família Shelby.

TRAILER | PEAKY BLINDERS QUINTA TEMPORADA

Ansiosos pela próxima temporada? Qual será o contexto histórico que irá assombrar Tommy e a sua família? 

Peaky Blinders - Temporada 5
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Name: Peaky Blinders

Description: A série que aborda um gang familiar de Birmingham regressa para uma quinta temporada num contexto histórico bastante conturbado - o crash da bolsa de valores e a grande depressão.

  • Ana Fernandes - 95
95

CONCLUSÃO

O MELHOR – A vertente paranóica de Tommy Shelby nunca antes explorado deste modo, a par com o desempenho de Sam Claflin que se revela um antagonista de excelência.

O PIOR – Serem apenas seis episódios e termos que aguardar cerca de um ano pela próxima temporada.

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