Master of None, a segunda temporada em análise

É uma das surpresas do ano. Na segunda temporada de Master of None, Aziz Ansari faz um ensaio sobre relações para falar subtilmente sobre solidão. Há muita Itália e o assumir de muitos riscos numa série que evoluiu e amadureceu de modo inesperado.

Numa fase em que alguns originais da Netflix têm desiludido (não é certamente o caso de 13 Reasons Why), o salto qualitativo de Master of None é quase um caso de estudo. Depois de uma simpática temporada de estreia em 2015, a dramédia de Ansari reinventou-se. E nasceu um exemplo de personalidade, liberdade criativa e autenticidade.

Quando há quase dois anos conhecemos Dev (Aziz Ansari), vivemos com ele a excitação do início de uma relação com Rachel. O final de temporada, no entanto, traçou dois caminhos distintos. Ela, rumo ao Japão. Ele, qual epifania, em direção a Itália para aprender a fazer as melhores massas. E à procura de se encontrar.

Master of None thief

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Desta vez, o mundo de Dev, pontuado por dúvidas, dilemas existenciais e medos, começa a preto e branco. Em Modena, e com várias homenagens estilísticas ao clássico italiano Ladri di Biciclette (1948). Desde o momento zero, Ansari e Yang assumem riscos e mostram ao que vêm. Preserva-se a capacidade singular de Master of None manter um tom uniforme, explorando os mais diversos temas sempre com perspetivas originais.

E desde bem cedo fica patente a italianização da série. Explora-se a cultura millennial mas sempre em direcção a Dev e Francesca (Alessandra Mastronardi). Uma rapariga italiana que nos enfeitiça como uma femme fatale do cinema clássico, e que nos faz torcer por algo errado.

master of none thanksgiving

O visionário comediante, talento forjado na “escola” Parks and Recreation, participou na escrita de todos os episódios, que se vêem a correr, e realizou quatro. E devagarinho encaminha o espectador novamente para os becos da vida do protagonista a que dá corpo. O aspirante a ator e aspirante a chef. Convertido entretanto em anfitrião de um programa televisivo de cupcakes.

Na temporada anterior, Master of None abordou temas incrivelmente díspares. O preconceito da TV norte-americana em relação aos indianos. As rotinas matinais de um casal. A realidade dos idosos num lar. Nesta, há um episódio inteiro para encontros via Tinder, e outro que viaja entre vários jantares de ação de graças ao longo de muitos anos. Um mecanismo perfeito para mostrar a backstory de Dev e da sua amiga Denise. E a morosa capacidade da família desta em aceitá-la como é.

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Master of None Amarsi Un Po

Entre episódios socialmente pertinentes, inclui-se uma vénia à mão-de-obra nova-iorquina, com o protagonismo dividido entre desconhecidos, e o carácter da série fica bem vincado numa decisão do quinto episódio, “Dinner Party”. Acabada a noite com Francesca, a câmara fixa-se durante mais de 2 minutos a acompanhar Dev em silêncio no banco de trás de um Uber até casa. Mostra-se, com todo o tempo do mundo, a difícil digestão de sentimentos. O impasse. A indecisão. O não saber para onde ir a partir dali.

O último episódio tem um shot final inteligente e ambíguo, mas é “Amarsi Un Po” que capta a essência da temporada. É o auge, entre traduções segredadas e danças em pijama.

master of none 02

Fica o aviso: vão-se apaixonar por Alessandra Mastronardi. É uma garantia, à prova de género e orientação sexual. A invasão italiana, desde a gastronomia à banda sonora (Ennio Morricone, Mina, Lucio Battisti, entre outros), e ao idioma do primeiro episódio, serve o seu ponto de chegada. E embora o nível dos atores seja desequilibrado – Angela Bassett e Bobby Cannavale são convidados, mas temos em simultâneo os pais amadores de Ansari -, a alma da temporada é a relação de Dev e Francesca.

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Uma química com algo de Annie Hall. Um hábito de flertar que se torna a consciência de que há linhas que se querem transpor. Um sonho, algo que se percebe ser potencialmente um desgosto à espera de acontecer.

Numa ode ao conceito de friendzone, ele não quer estar sozinho, ela tem medo de estar com uma pessoa só o resto da vida.

Dev master of none

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Com uma cinematografia de excelência, Master of None mascara o desespero e o cansaço emocional numa mistura de sabores e numa relação semi-platónica. Sem ser pretensiosa, explora quem somos e quem queremos ser. Como nos sentimos em certos momentos e como nos relacionamos.

E fá-lo com a simplicidade e honestidade de quem já passou por tudo o que coloca no ecrã.

TRAILER | Apaixona-te por Itália em Master of None

Master of None - Temporada 2

Name: Master of None

Description: Depois de acabar uma relação, e após passar alguns meses em Itália, Dev regressa a Nova Iorque e retoma a incessante busca de realização pessoal e profissional.

  • Miguel Pontares - 90
  • André Pisco - 90
90

CONCLUSÃO

O MELHOR - A empatia que Dev gera no espectador. A coragem de várias decisões (realização e argumento) que permitem abordar temas gastos com perspetivas únicas. E claro, Francesca.

O PIOR - Embora se compreenda o porquê, a desvalorização de algumas personagens secundárias. Mas, mais do que qualquer outra coisa, o facto de Aziz Ansari ainda não se ter comprometido a fazer uma terceira temporada.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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