O Grande Circo Místico, em análise

Respeitável público! O maior espectáculo do mundo está prestes a começar nas salas de cinema e as atrações na arena do ‘Grande Circo Místico’, ou desculpem no ecrã, são imperdíveis e estão às ordens de um dos ‘mestres de cerimónias’ do cinema brasileiro: Carlos (Cácá) Diegues.

Poucos dias depois de uma tomada de posse de um novo presidente, chega-nos agora às salas de cinema e com grande sentido de oportunidade ‘O Grande Circo Místico’ uma preciosa metáfora lírica sobre a política e a sociedade brasileira da actualidade: um grande circo, cheio de contradições, mas ao mesmo tempo imbuído de esperança. Este filme, marca a 17ª longa metragem do veterano Carlos (Cácá) Diegues (‘Bye, Bye Brasil’, 1980), que é uma das mais importantes figuras do cinema novo dos anos 60/70 e da cultura brasileira em geral.

O Grande Circo Místico
Celavi (Jesuíta Barbosa), um extraordinário mestre de cerimónias.

‘O Grande Circo Místico’ parte de uma adaptação (ou antes uma inspiração) de um poema quase mítico (e místico), segundo o próprio realizador, do multi-facetado escritor modernista brasileiro Jorge de Lima (1893-1953). Um poema que começa quase como prosa lírica, mas que vai contando a genealogia de uma família real e da realeza europeia, que i migrou para o Brasil, fundou e administrou o Grande Circo Knieps, que em tempos deu muitas histórias na imprensa brasileira, do início da Republica. Cacá Diegues já conhecia o poema e a história dos seus tempos de juventude, aliás era um fervoroso admirador da obra de Lima. Logo após a estreia do seu filme anterior ‘O Maior Amor do Mundo’, (2006), o realizador passou por uma crise criativa, que durou uns anos antes de se envolver neste novo projecto de ‘O Grande Circo Místico’.

O Grande Circo Místico
A velha capa do disco da banda sonora de Edu Lobo e Chico Buarque.
Lê Também:
Opinião | Ingmar Bergman: O Centenário do Senhor Testosterona

Num desses dias de reflexão, encontrou um disco com uma capa curiosa, que tinha o desenho de um cavalo com pernas humanas. Sobre o lombo do animal, estava um circo amarelo e verde. Era a velha banda-sonora da autoria de Edu Lobo e Chico Buarque feita para o espetáculo ‘O Grande Circo Místico’, do Balé Teatro Guaíra, de Curitiba, então dirigido pelo coreógrafo português Carlos Trincheiras (1937-1993), na década de 80. Na altura, Naum Alves de Souza também escreveu o argumento deste musical-coreográfico, a partir o poema homónimo desse ilustre parnasianista/modernista Jorge de Lima, publicado na obra ‘A Túnica Inconsútil’, em 1938. O espectáculo foi cuidadosamente preparado durante todo o ano de 1982 e estreou em 17 de março de 1983, combinando música, ballet, ópera, circo, teatro e poesia. O sucesso foi tal que originou uma tournée de dois anos pelo Brasil, assistida por mais de 200 mil pessoas, em quase 200 apresentações, lotando o Maracanãzinho e culminado depois em apresentações em Portugal, no Coliseu dos Recreios cheio, em Lisboa, que aplaudiu o então director-coreógrafo português.

O Grande Circo Místico
A bela contorcionista Beatriz interpretada por Bruna Linzmeyer.

Desde o último filme de Cacá Diegues, até ‘O Grande Circo Místico’ passaram 12 anos, o tempo necessário para o cineasta ultrapassar alguns obstáculos e para a maturação de um argumento para cinema, escrito pelo próprio, em parceria com George Moura, um dos maiores argumentistas do cinema brasileiro. Sem compromisso com o realismo da história do poema original e do espectáculo do Balé Teatro Guaíra, o filme procura contar a epopeia — as aventuras e os amores imorais — de cinco gerações de uma aristocrática família dona de um circo, desde 1910 até aos dias de hoje, ou seja desde o seu apogeu até a sua decadência, culminando numa extraordinária surpresa final. Contudo, entraves logísticos e financeiros foram os principais responsáveis por esse longo intervalo de tempo de pré-produção de ‘O Grande Circo Místico’, mais de uma década entre a consolidação da ideia e a chegada do filme às salas de cinema, que estreou primeiro fora da competição, em Maio, no último Festival de Cannes.

BEM-VINDO AO GRANDE CIRCO MÍSTICO

‘O Grande Circo Místico’ foi praticamente todo rodado em Lisboa, em co-produção com a Fado Filmes de Luis Galvão Teles. Era necessário recriar um circo de 1910 a 1960 com animais e domadores de feras. A legislação brasileira proíbe a apresentação de animais nos circos, e nesse sentido a maior parte das filmagens realizaram-se na capital portuguesa, em belas e recriadas localizações da cidade e sobretudo por causa dos bichos na tenda do prestigiado Circo Victor Hugo Cardinali. Outro agravante para o atraso na produção de ‘O Grande Circo Místico’ foi também o elevado custo de uma produtora francesa, especializada em efeitos especiais, que não sendo espectaculares reforçam a competente realização de Cácá Diegues e dão um belo efeito à esplêndida fotografia de Gustavo Hadba.

O Grande Circo Místico
‘O Grande Circo Místico’ é um filme sobre várias gerações de mulheres.

‘O Grande Circo Místico’ à primeira vista é um filme sobre várias gerações de mulheres tentando afirmar-se contra o poder dos homens, mas também pode ser visto como uma metáfora de um século da história político-social do Brasil e um reflexo da actualidade. Embalado pelas belas canções de Edu Lobo e Chico Buarque cantadas por outros como Milton Nascimento (‘Beatriz’), Tim Maia (‘A Bela e a Fera’), Gilberto Gil (‘Sobre Todas as Coisas’), Gal Costa (‘A História de Lily Brown’), o filme constrói-se sobre um repertório de devaneios visuais barrocos e sobretudo muita fantasia, sendo que essa fantasia anti-naturalista acaba por se transformar no outro lado do espelho, dessa realidade brasileira ferida pela descriminação de géneros e desigualdade social. No entanto, nenhum personagem representa melhor o estilo anti-naturalista de ‘O Grande Circo Místico’ do que Celavi (Jesuíta Barbosa), um extraordinário mestre de cerimónias que não envelhece com o passar do tempo e vai conduzindo a narrativa do filme. Ele convive com as estrelas da tenda, com duas belas mulheres: a contorcionista interpretada por Bruna Linzmeyer e a trapezista encarnada por Mariana Ximenes, mulheres marcadas pelo poder masculino.

O Grande Circo Místico
O Grande Circo Místico’ é um filme muito bonito e poderoso, que defende o papel das mulheres.

O Grande Circo Místico” é também um filme de uma espantosa ironia e uma obra fundamental para entender o Brasil de hoje, a sua sociedade, as perspectivas sociais e políticas para o futuro: o grande circo é no fundo a nação brasileira actual, com a sua desorganização social, violência e casos de corrupção política. O elenco é notável e conta além de Barbosa e das duas musas, ainda com a participação de António Fagundes, Juliano Cazarré, Marcos Frota, os portugueses Nuno Lopes e Luisa Cruz. Como guest star está o actor francês Vincent Cassel, no papel do mau-da-fita.

O Grande Círculo Místico
O actor português Nuno Lopes tem um importante papel nesta saga familiar.

O Grande Circo Místico’ representa para além dos delírios e angústias de um povo que parece estar sob a lona de um circo, acumulou ainda recentemente a frustração e a quebra de expectativas em que muitos apostavam: não está sequer na short list para disputar a nomeação ao Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira 2019. A última vez que o Brasil esteve representado entre os finalistas a esse prémio foi em 1999, com ‘Central do Brasil’, de Walter Salles. ‘O Grande Circo Místico’ é um filme muito bonito e poderoso, com uma excelente banda-sonora, que apesar de defender o papel das mulheres, tem um senão que pode prejudicá-lo: a maioria das cenas de sexo são autênticas violações e abusos sexuais e passíveis de críticas dos activistas do #MeToo.

O Grande Círculo Místico, em análise
O Grande Circo Místico

Movie title: O Grande Círculo Místico

Date published: 2019-01-03

Director(s): Cácá Diegues

Actor(s): Jesuíta Barbosa, Bruna Linzmeyer, Vincent Cassel

Genre: Drama, Musical, Brasil, 2018, 104 min

  • José Vieira Mendes - 70
70

CONCLUSÃO

‘O Grande Circo Místico’ tem um elenco notável e bem nosso conhecido das telenovelas brasileiras faz acrobacias, palhaçadas, truques de mágica e domam animais selvagens, numa emocionante história de uma família centenária sobre as arenas de circo. A mística do circo ao longo dos anos, num filme fantástico e lúdico que mistura circo, cinema e música.

O MELHOR: A trilha sonora de Chico Buarque e Edu Lobo, e a notável interpretação de Jesuíta Barbosa.

O PIOR: A maioria das cenas de sexo que são autênticas violações e abusos, passíveis de mexer com o #MeToo.

JVM

Sending
User Rating 3 (1 vote)
Comments Rating 0 (0 reviews)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending