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Tudo Acaba Agora, em análise

Charlie Kaufman juntou-se à Netflix para nos trazer o seu novo, “Tudo Acaba Agora” e em boa verdade, se acabasse, acabava muito bem.

Em 1999, Spike Jonze lançava o filme “Queres Ser John Malkovich”, uma comédia dramática com um toque de fantasia, que fez furor junto da crítica e do público, devido à originalidade da história e da realização. Nos créditos desse filme, à frente do guião, encontramos um nome, Charlie Kaufman, argumentista que começava apenas a dar os primeiros passos no mundo do cinema, mas cuja carreira viria a ser marcada por sucesso, atrás de sucesso. Depois de em 2004 ter escrito o icónico, “O Despertar da Mente”, Charlie Kaufman decidiu que estava na hora de parar de ficar só atrás da máquina de escrever e passar também para trás da câmara. A sua estreia na realização deu-se em 2008 com o extraordinário, “Sinédoque, Nova Iorque” e continuou em 2015 com o igualmente bom, “Anomalisa”. Em 2020, num ano atípico para o cinema, coube a Kaufman a tarefa, de trazer a público um dos melhores filmes do ano.

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Adaptado do livro homónimo de Ian Reid, “Tudo Acaba Agora”, é uma viagem de força, que usa e abusa da linguagem cinematográfica para contar uma história atípica com vários níveis, povoada por personagens multidimensionais.

Em “Tudo Acaba Agora”, acompanhamos a viagem de Jake com a sua namorada sem nome, que regressam à casa de infância de Jake, para visitarem os seus pais. Ao longo do filme, a câmara quase nunca abandona o carro e ao longo de duas horas, somos brindados com uma quantidade infindável de diálogos, que podiam levar a uma experiência aborrecida, mas que, pelo contrário, nos levam  a uma experiência extremamente interessante, e se parte da culpa disso é da brilhante escrita de Kaufman, a outra parte é sem dúvida das maravilhosas interpretações de Jesse Plemons e Jessie Buckly.

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Jesse Plemons e Jessie Buckley | © Netflix

Como já nos tem habituado, Charlie Kaufman apresenta aqui um guião quase perfeito, com diálogos que nos prendem cheios das já habituais dúvidas existenciais que o autor espalha ao longo dos seus filmes e que são no fundo, reflexões das suas próprias questões. Não é um filme fácil, ao longos das duas horas e quinze minutos de filme, são-nos dadas informações que são mais tarde alteradas e de vez em quando cortamos, sem razão aparente, (ou assim parece),  para um homem idoso que trabalha como contínuo numa escola, as personagens agem de forma estranha e errática e no fim, nada parece fazer sentido, mas faz. O filme,  leva-nos numa viagem abstracta, que nos desafia a olhar com atenção e usar a intuição, não nos dando, ao contrário de muitos filmes, “a comida à boca”.

A montagem e a realização, têm aqui uma relação incólume, com Kaufman a demonstrar de forma extraordinária, que não só sabe onde pôr a câmara , mas também onde cortar. Durante as várias conversa de Jake e da sua namorada no carro, a câmara vai cortando de um para o outro com uma fluência que nunca parece mecânica, indo algumas vezes fora do mesmo, onde uma violenta tempestade lança neve para todos os lados. Quebra-se a quarta parede, sem a quebrar verdadeiramente e existem momentos de perigo iminente, onde não há perigo nenhum, tudo isto fruto de uma forte capacidade de realização, montagem e conceptualização.

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Eventualmente, os dois personagens chegam ao seu destino, a quinta dos pais de Jake e todas as cenas neste local são incríveis, desde as metáforas que aqui são criadas, até às maravilhosas cenas de refeição dos pais de Jake com o casal e aqui, é preciso falar de Toni Collette e David Thewlis, os dois absolutamente brilhantes. As duas personagens erráticas e absurdas, protagonizam alguns dos melhores momentos do filme, com alguns dos melhores diálogos. São cenas marcadas por algum surrealismo, e os quatros actores envolvidos fazem um belíssimo trabalho, mas é preciso dar também crédito a Kaufman e às suas escolhas na montagem e na direcção de actores.

Num filme em que interpreta vários personagens, mesmo que nem sempre o pareça, é necessário realçar o trabalho de Jessie Buckley que com a direcção perfeita de Kaufman, leva o filme a bom porto conseguindo ser extremamente versátil em diversas cenas e tornando credível cada acção, tique ou expressão das suas várias personas.

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Jessie Buckley e Charlie Kaufman | © Netflix

A direcção de fotografia fica a cargo de Lukasz Zal e há aqui muito para apreciar. Filmado em 4:3, o aspect ratio é usado de forma muito relevante, servindo não só como escolha estilística, mas também como um detalhe importante na história. A iluminação, em conjunto com a neve sempre presente, criam um ambiente muito próprio, que transmite um sentimento constante de isolamento e cria também um cenário onírico que reforçam as temáticas exploradas no filme.

Mais para o fim, chegado o momento de encerrar as diversas ideias que vão sendo apresentadas ao longo da narrativa, Kaufman fá-lo de forma soberba, mas não tão óbvia como se poderia esperar, o filme num todo não o é e ainda bem.  Os personagens convergem para um local chave, onde assistimos a um clímax extremamente bem preparado, onde as capacidades de escrita e realização de Kaufman são postas à prova em nível máximo,  felizmente ele passa o teste a dá-nos um final que encerra a história com estilo, ritmo e pujança.

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© Netflix

No que toca a pontos negativos, surge-me apenas um, num filme composto maioritariamente por diálogos, note-se que alguns são um tanto ou quanto intrusivos, com Kaufman a introduzir em alguns momentos,  questões que soam pouco naturais ao serem ditas pelos personagens nos mesmos.

“Tudo Acaba Agora”, é Kaufman a explorar os seus medos e inseguranças, fazendo-o de uma forma criativa,  interessante e tecnicamente perfeita, que nos obriga a tomar atenção aos mais ínfimos detalhes espalhados na sua escrita, que é, como sempre, extremamente rica. O argumentista e realizador continua a insistir em narrativas pouco tradicionais, onde a forma é desformada, mas consistente, levando-nos para um universo de infindáveis possibilidades, que nos desafia a tentar percebê-lo, ou, caso não estejamos para isso, simplesmente a apreciar a viagem, que é por si só, bastante agradável.

O que achaste de “Tudo Acaba Agora”?

  • Duarte Gameiro - 95
95

CONCLUSÃO

“Tudo Acaba Agora” é uma viagem abstracta, mas consistente, rica em detalhes técnicos e narrativos que nos desafiam a perceber o seu universo ou simplesmente a apreciar tudo o que tem para oferecer.

O MELHOR: A criatividade da narrativa e da maneira como é apresentada

A criatividade na exploração de temáticas

A montagem

A realização

A escrita

A prestação dos actores

A fotografia

O PIOR: A falta de subtileza de alguns diálogos

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