Richie Bravo (Michael Thomas), um outrora carismático cantor romântico. ©Nitrato Filmes

‘Rimini’ de Ulrich Seidl, em análise

O realizador austríaco Ulrich Seidl, regressa com ‘Rimini’, mais uma das suas crónicas sociais, desta vez numa sátira sobre uma cantor romântico em decadência, passado na conhecida estância turística italiana. É a história de um falhado, feita em tons nostálgicos e divertidos, mas sobretudo bastante ácidos, como é seu costume.  

‘Rimini’, o novo filme do sempre ácido e polémico realizador austríaco Ulrich Seidl — recordam-se certamente da magnífica saga de três filmes intitulados ‘Paraíso’, 2012/13 ou do documentário Safari — é uma obra profundamente romântica, mas ao mesmo tempo muito dura. O filme, estreado na Berlinale 2022, conta-nos o triste destino de Richie Bravo (Michael Thomas), um cantor grandalhão com um visual ‘à viking’, rabo de cavalo e barriga volumosa, apertada com uma cinta e que veste um apertado smoking de lantejoulas, com calças à-boca-de-sino. Ele foi outrora um carismático intérprete do género ‘schlager’: um estilo de canção popular e romântica, ‘à Tom Jones‘, nos anos 60, mas típica da Europa Central e do Norte, em particular da Finlândia, Suécia, Dinamarca, Holanda, Suíça, Hungria, Áustria e Alemanha. Porém, por mais perverso e sujo que possa parecer, à primeira vista, este ‘Rimini’, devido em parte à figura e comportamento do seu protagonista, dificilmente um filme de Seidl esteve tão próximo de um ensaio profundo e até terno, sobre o sentido da vida, a decadência e o envelhecimento e de facto o realizador nunca mostrou tanto amor por uma das suas personagens.

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Rimini
A notável interpretação de Michael Thomas, combinada com o característico estética miserabilista do realizador. © Nitrato Filmes

A história de ‘Rimini’ começa no presente, na nostálgica praia italiana, molhada e fria em pleno inverno, como dá a entender o título. Richie Bravo — interpretado pelo actor austríaco Michael Thomas, vimo-lo entre outras coisas na emblemática série juvenil ‘Rex, o Cão Polícia’ — por causa do falecimento da mãe, viaja da estância de férias na Itália, o seu país adotivo e onde trabalha, até ao quarto da sua juventude e à casa da sua família de origem, na Baixa Áustria. O seu quarto está coberto de cartazes de filmes populares: Charlton Heston em Ben-Hur, Terence Hill e Bud Spencer em Trinitá – Cowboy Insolente’; e ainda observamos nas paredes, os vestígios de uma preciosidade cinéfila e de culto: imagens do filme ‘A Lei dos Apaches’ (no original, ‘Winnetou’- 1. Teil’,  [1963]), um western spaghetti, de produção germânico-italo-jugoslava, realizado por Harald Reinl, com música de Martin Böttcher. Um filme que foi um grande sucesso na altura na Europa Central e de Leste. Aliás um dos temas intitulado ‘Winnitou-Melodie’ é mesmo cantado pelo próprio Michael Thomas, num dos momentos deste filme notável e imperdível. De volta à história do Richie, a este junta-se-lhe o irmão mais novo e, terminadas as exéquias da mãe, ambos procuram celebrar da melhor maneira, a despedida da casa dos pais, com aguardente e melodias românticas tocadas na velha juke-box, guardada na arrecadação da adega. O pai deles — a última aparição do veteraníssimo actor alemão Hans-Michael Rehberg no cinema, falecido, no final de 2017 — está acamado numa casa de repouso, com a Alzheimer, delirando com as (boas, para ele) memórias do Anschluss e do nazismo.

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VÊ EXCERTO DE ‘RIMINI

Depois, regressamos novamente a estância balnear de Rimini, no Mar Adriático, em pleno inverno, com grupos de idosos, hospedados num hotel barato, que desfrutam alegremente dos espectáculos de Richie Bravo, cantando em coro, entre lágrimas e suspiros, as melodias românticas alemãs de outros tempos. Richie Bravo foi uma estrela da música com um relativo sucesso, porém também tem um passado turbulento e um futuro algo incerto: ganha mais dinheiro, com o seu charme barato e bombástico, como gigolo das idosas alemãs, à beira da velhice, do que como cantor. Entre os espectáculos de canções românticas (schmaltz), Richie vai conquistando os corações e os corpos envelhecidos das ‘madames alemãs’, à procura de um último grito de orgasmo. Tudo corre mais ou menos bem a Richie, até que a sua filha Tessa (Tessa Göttlicher), que abandonou ainda em criança e que nunca mais viu, vai por em causa a sua triste existência, aparece e hospeda-se com um grupo de amigos na Vila Richie Bravo, uma casa que já viveu tempos gloriosos cheia de cartazes nas paredes com o cantor em tamanho real. Richie ‘con molto amore’, continua a desenrascar-se, entoando as suas canções porém para satisfazer a vontade da filha e imerso em complexos de culpa, inevitavelmente vai dar um golpe maior, dos que costuma fazer.

Rimini
Tudo corre mais ou menos bem a Richie, até que a sua filha Tessa (Tessa Göttlicher), aparece. ©Nitrato Filmes

Chocante, provocador, patético e cínico, estes são os adjetivos que definem o cinema do realizador Ulrich Seidl, que voltou com a primeira parte de um díptico — já explico o outro filme — que mostra como o cineasta continua fiel à sua visão crítica e desencantada do mundo. Porém, agora com uma personagem que parece adorar e estimar mais — ao contrário das suas personagens anteriores — algo que constitui uma raridade, em relação às suas abordagens habituais. Com interpretações impecáveis ​​a começar por um Michael Thomas, que em alguns aspectos assemelha-se a Gérard Depardieu em ‘Quand j’étais chanteur’, junta-se a este filme extraordinário, um exacerbado design de produção, personagens e exteriores — para além da música — que destacam maravilhosamente o lado gorduroso, kitsch, ridículo, decadente e melancólico de Rimini. É como se estivéssemos a embarcar numa viagem no tempo, para épocas passadas. Seidl constrói um filme fascinante, embora com um final bastante polémico e discutível, que de qualquer maneira não pretende estragar , nem encerrar a história, mas antes dar-lhe uma certa continuidade ou abertura.

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Rimini
‘Rimini’ começa no presente, na nostálgica praia italiana, molhada e fria em pleno inverno. ©Nitrato Filmes

Aliás, nas primeiras cenas do filme, quando Richie vai ver o pai ao lar de idosos encontra o seu irmão mais novo, com quem passa alguns momentos antes de regressar a Rimini. É justamente esse irmão que é o protagonista de ‘Sparta’, o segundo filme do díptico, passado na Roménia e que já deu muita polémica na competição do último Festival de Cinema de San Sebastian e foi mesmo retirado do Festival de Toronto 2022, devido às alegações de comportamento impróprio contra o realizador, que incluem acusações de exploração de menores durante a rodagem. Voltando a ‘Rimini’, o filme é quase um solilóquio solitário de uma só personagem, de um ‘cromo’, que consegue transmitir-nos a sensação de pena e compreensão, para lá da sua imoralidade como personagem. Porém, não foi certamente por acaso que Seidl, rodou este filme em Rimini, com personagens que parecem ter ficado por lá, desde os tempos de ‘Amarcord’ (1973), de Federico Fellini.

JVM




Rimini, em análise

Movie title: Rimini

Movie description: Richie Bravo (Michael Thomas), um outrora carismático cantor romântico, agora em decadência consegue ainda colocar os seus talentos ao serviço de algumas mulheres maduras. Porém veremos como as reviravoltas da vida o colocarão frente a frente com seus próprios fantasmas do passado, inclusive com os seus preconceitos raciais e culpas.

Date published: 25 de January de 2023

Country: Alemanha, Áustria, França

Duration: 114 minutos

Director(s): Ulrich Seidl

Actor(s): Michael Thomas, Tessa Göttlicher, Hans-Michael Rehberg

Genre: Drama, 2022,

  • José Vieira Mendes - 75
75

CONCLUSÃO:

‘Rimini’, de Ulrich Seidl é um filme fascinante e perturbador, iluminado por uma impressionante reviravolta central ou melhor torna-se num ensaio irónico e brilhante sobre as voltas que a vida dá. A história do controverso cantor romântico Richie Bravo (Michael Thomas) é assustadoramente precisa e dura, pois continua a abrir novos túneis através da mente, muito depois de terminada, como aliás demonstra ‘Sparta’, o segundo e polémico filme do díptico, ainda inédito em Portugal. Caracteristicamente sombrio este ‘Rimini’ tem o seu poder cómico unificador e a sua razão de ser sobretudo, na notável interpretação de Michael Thomas, em Richie Bravo, uma das personagens mais amadas do cineasta, algo que é uma raridade ou melhor uma novidade no cinema de Ulrich Seidl.  

Pros

A notável interpretação de Michael Thomas, com o realizador Ulrich Seidl, que continua a misturar magistralmente a melancolia existencial e a alegria desenfreada de viver, numa espécie de limbo, neste caso representado pelo balneário italiano, despovoado e decadente.

Cons

Um filme fascinante, embora com um final bastante polémico e de certo modo discutível, mas que de qualquer maneira algo, que não pretende estragar, nem encerrar a história, antes dar-lhe uma certa continuidade e prolongamento.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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