The Handmaid’s Tale, primeira temporada em análise

The Handmaid’s Tale contou com uma estreia sensacional. E irá tornar-se numa das melhores séries dos últimos anos, ao lado de Game of Thrones e outras.

2017 está a ser um ano abençoado por séries notáveis. Tivemos a estreia de Big Little Lies, American Gods, Feud: Bette and Joan e agora a de The Handmaid’s Tale. Embora possa parecer um pouco precoce da nossa parte, consideramos que esta foi e será a melhor estreia de 2017. Dificilmente outra nova série conseguirá superar a estreia da nova aposta do Hulu.

The Handmaid’s Tale é uma série ilustre por dois grandes motivos. Em primeiro lugar, porque como obra televisiva, é altamente completa e equilibrada em todos os seus elementos. E em segundo, é uma série que não se fecha no seu próprio meio televisivo e pretende ter um forte impacto no espectador e na sociedade. The Handmaid’s Tale começa por nos assustar, mostrando um futuro que pode não ser tão longínquo quanto pensamos. Mas o verdadeiro horror cai sobre nós quando percebemos que vários acontecimentos retratados na história não fazem parte de um possível futuro. Fazem parte de uma realidade atual. Já lá iremos.

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A história de The Handmaid’s Tale decorre num futuro distópico, onde os EUA deram lugar a Gilead. Sem haver uma explicação concreta, a taxa de natalidade no país começou a baixar drasticamente, enquanto o ambiente foi alvo de profundas alterações climáticas. Face a estes acontecimentos, um regime extremista consegue derrubar o governo e passa a controlar o país, impondo os seus ideais. Agora quem manda são os Comandantes, e o Antigo Testamento é a Lei. Mas as mudanças não ficam por aqui. Todas as mulheres férteis são raptadas e, posteriormente, treinadas para serem um espécie de barriga de aluguer dos casais inférteis e pertencentes à elite da sociedade. Tudo com o propósito de repovoar o país.

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Este é um cenário horrendo, especialmente para quem vive num mundo livre. Por isso não nos surpreende que várias cenas de The Handmaid’s Tale sejam profundamente revoltantes para quem as vê. Na verdade, muitas delas podem chocar imenso os espectadores mais sensíveis.

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Ao longo de dez episódios, o espectador acompanha June/Offred (Elisabeth Moss), à medida que ela tenta sobreviver neste universo. Para todos os efeitos, esta é a¨nossa protagonista. E a história gira essencialmente em torno dela. No entanto, ela é também a voz das várias servas de Gilead. Através desta personagem, conseguimos perceber o que vai no pensamento de todas as outras mulheres que se encontram na mesma situação que ela. Desde os seus maiores receios até aos meus secretos desejos. Mas não só. Conforme June deambula pelos corredores da casa onde é prisioneira ou pelas ruas de Gilead, ela dá-nos a conhecer a realidade de outras mulheres que não são servas como ela, mas que também estão de certa forma confinadas.  

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Esta abordagem que a série faz em relação às personagens femininas leva-nos a falar dos dois grandes temas de The Handmaid’s Tale. A desumanização e a ausência de liberdade. Estes dois assuntos estão constantemente de mãos dadas. E atingem principalmente as mulheres da narrativa. Sejam elas servas, empregadas domésticas (Marthas) ou esposas dos Comandantes. Estes temas são explorados de várias maneiras e em diversas vertentes, fazendo alusão a muitas crueldades cometidas pelo mundo fora.

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O caso mais evidente é o das servas. Estas mulheres não são vistas como pessoas, com os seus próprios sentimentos ou vontades. Aos olhos da sociedade, são objetos. São coisas. São propriedade de alguém. A mesma coisa acontece às esposas dos Comandantes, embora em menor dimensão. Ainda assim, estas figuras femininas, mesmo ocupando posições hierárquicas superiores, são também oprimidas e controladas pelo sexo oposto. Não têm permissão para exprimir as suas opiniões. Não são livres de tomar as próprias decisões. E se o fizerem, o marido nunca poderá descobrir.

O espectador vê este cenário e é capaz de ficar revoltado, indignado. É natural. E também se compreende que fique assustado e receie que, um dia, o futuro possa ser algo parecido com o que vemos em The Handmaid’s Tale. Infelizmente, esse “futuro” já é, na verdade, o presente e o dia-a-dia de milhares de pessoas. Veja-se por exemplo dois momentos marcantes da série, ambos protagonizados por Alexis Bledel enquanto dá vida a Emily/Ofglen, uma serva.

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Num primeiro momento, a personagem é castigada por um suposto crime, visto como hediondo pelo regime. Acontece que em Gilead, ser homessexual é ser, como eles dizem, um “traidor de género”. Portanto, quando Emily é acusada de ter um relacionamento com outra mulher, a sua amante é enforcada, enquanto Emily recebe um castigo horrendo: mutilação genital. Tanto o crime de ser homossexual, como o castigo que Emily recebe, são absolutamente desumanos, e até macabros. E, infelizmente, são reais no mundo em que vivemos. A homessexualidade ainda é ilegal em cerca 70 países e dá direito a pena de morte em cerca de 10. E em relação à mutilação genital feminina? Continua a ser uma constante em sensivelmente 20 países africanos, árabes e asiáticos. Mas The Handmaid’s Tale apresenta outras ocasiões que espelham a realidade monstruosa que assombra tanta gente no mundo.

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Noutro episódio, voltamos a encontrar a personagem de Bledel, mais fragilizada, mas ainda capaz de se revoltar contra o regime. Inesperadamente, Emily consegue entrar num carro dos polícias e conduz durante uns instantes. No contexto da série, este é um momento importante pois é um grito de revolta, um desafio da autoridade opressiva do regime. E de certa maneira, dá força e esperança às restantes servas. É uma espécie de luz ao fundo do túnel. Uma faísca que reacende a chama da luta pela liberdade. Mas se procurarmos o significado que tem para o nosso mundo, somos reencaminhados novamente para a questão da liberdade e direitos da mulher. E somos lembrados que, por exemplo, na Arábia Saudita, as mulheres estão proibidas de conduzir. E as suas restrições, lamentavelmente, não ficam por aqui. Estes foram apenas dois exemplos. Mas ao longo da temporada de The Handmaid’s Tale, é possível encontrar mais casos.

Como dissemos anteriormente, The Handmaid’s Tale é uma obra bastante completa e equilibrada. É uma série com uma qualidade e um valor tão tremendos, que facilmente conseguirá várias nomeações nos Emmys deste ano. Incluindo nas grandes categorias de Melhor Série de Drama e Melhor Atriz Principal em Drama. Desde os primeiros minutos, a série agarra o espectador e mergulha-o no seu universo. E por mais chocante e medonho que este mundo possa ser, não somos capazes de desviar o olhar. Não somos capazes de abandonar June. Queremos acompanhá-la, no bem e no mal, com a esperança de que no final a protagonista vai conseguir ultrapassar todas as adversidades.

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Ao longo desta jornada, enquanto ficamos a conhecer melhor June, há outra mulher que desperta a nossa atenção. Falamos da esposa do Comandante Fred Waterford, Serena Joy Waterford, interpretada por Yvonne StrahovskiThe Handmaid’s Tale caracteriza-se imenso pela sua ambiguidade. E se existe alguém na série que exemplifica na perfeição esta característica é Serena Joy. Graças ao enorme trabalho por parte dos argumentistas, e principalmente da atriz Strahovski, a figura de Serena é um constante enigma.

Nunca sabemos o que esperar dela. E nunca percebemos de que lado ela está. Há momentos em que a personagem parece ser ternurenta e calorosa. E depois há outros em que ela mostra um lado oculto, e faz-nos tremer com um simples olhar. Chega a ter até atitudes vis e cruéis, dignas de um monstro desumano. E, no entanto, quando conhecemos o seu passado, através dos flashbacks (uma técnica muito utilizada na série), e ganhamos um pouco mais de contexto sobre a personagem, torna-se um pouco difícil de a odiar.

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Elisabeth Moss é outro monstro em The Handmaid’s Tale. Mas no bom sentido, é claro. A atriz é magnífica em todos os momentos que é captada pela câmara. Ela dá vida a June de uma forma intensa e visceral, não deixando ninguém indiferente. Uma das grandes virtudes da série é não querer fazer um uso exagerado de exposição. Ou seja, se June/Offred se estiver a sentir de determinada maneira, a série evita deixar isso preto no branco através de uma fala, ou de outro meio qualquer. Em vez disso, foca-se apenas na atriz, nos seus movimentos corporais e deixa a interpretação à responsabilidade do espectador. Como seria de esperar, Moss não desilude, e podem ter a certeza que ao verem a atriz na pele de June, estão a ver um trabalho de ator arrebatador e ao seu melhor nível.

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Por último, é preciso falar no trio de elementos mais técnicos, mas fundamentais para dar vida ao mundo de The Handmaid’s Tale. A realização, a fotografia e a banda-sonora. Cada uma destas partes é formidável tanto individualmente, como no seu conjunto. No âmbito da realização, foi dada uma grande importância ao modo como a câmara se movimentava. Se estivermos a ver uma cena em Gilead, no presente, a câmara é praticamente estática, e só se move quando é realmente necessário. Mas quando estamos perante um flashback, a câmara é mais irrequieta e parece ter mais vida. De certa forma, o movimento da câmara procura representar o ambiente que está a captar.

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A fotografia também desempenha um papel importante na construção do mundo de The Handmaid’s Tale, e especialmente de Gilead. As cores claras predominam na maioria dos espaços. O objetivo é criar a sensação de paz, de sossego, como se estivéssemos num mundo perfeito. Mas esta sensação é quebrada quando entram no plano as cores vivas e contrastantes das roupas das servas, das esposas dos comandantes ou dos polícias.

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É interessante ver o simbolismo desta cores. No caso das servas, elas usam roupas da cor vermelha, que ironicamente, está associada à guerra, violência, poder e ao espírito de revolução. Faz-nos lembrar uma das frases mais marcantes de June/Offred “They should never have given us uniforms if they didn’t want us to ne an army”. Em relação à cor azul, usada pelas esposas dos comandantes, existem vários significados. Por um lado, a cor representa harmonia, tranquilidade e serenidade. Esta é a imagem que estas figuras pretendem transmitir. No entanto, a cor também simboliza frieza e monotonia, um claro reflexo das vidas e personalidades de muitas destas mulheres.

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E por último: a banda-sonora. Adam Taylor é o responsável e apresenta um conjunto de composições musicais minimalistas, maioritariamente interpretadas por instrumentos de cordas. Taylor cria melodias lentas e melancólicas. Em alguns casos, as notas dessas melodias são prolongadas ao máximo, novamente para espelhar os sentimentos das personagens. As peças compostas por Taylor conseguem transmitir igualmente a sensação de pânico, medo, terror e claustrofobia do ambiente da série.

Se ainda não começaram a ver The Handmaid’s Tale, está na hora de o fazerem. Podemos garantir que não se vão arrepender. Estamos perante uma série com um enredo emocionante e com uma grande relevância política e social. Os atores do elenco têm performances fenomenais e memoráveis. Já o dissemos, e voltamos a repetir. Esta é a melhor série que estreou em 2017. Vejam!

The Handmaid’s Tale | Trailer

 

 

(Artigo publicado originalmente em 27 de Junho de 2017)

The Handmaid's Tale, primeira temporada em análise
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Name: The Handmaid's Tale

Description: Num futuro distópico, uma mulher é forçada a viver como concubina sob uma ditadura fundamentalista teocrática.

  • Filipa Machado - 95
95

CONCLUSÃO

O MELHOR: Enredo emocionante, elenco de qualidade e com performances notáveis, grande relevância social e política.

O PIOR: Termos de esperar vários meses pela segunda temporada.

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Filipa Machado

Licenciada em Estudos Artísticos e uma grande apaixonada (e viciada) por Literatura, Televisão, Cinema e, em especial, por Animação Japonesa.

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