Ian Somerhalder como Damon Salvatore em "All My Children" (©Quantrell D. Colbert/The CW/HBO Portugal)

Damon Salvatore arrancou-nos o coração (Parte IV)

Damon Salvatore roubou o protagonismo de Vampire Diaries, mas não só. Arrancou também o coração ao público e a questão é porquê.

Em 2019, num evento da SYFY Wire, Ian Somerhalder mostrou-se perplexo com a afeição do público à figura de Damon Salvatore: “Qualquer coisa que este tipo fizesse, ou o Stefan, vocês achavam bem. O que é isso?” Admitir o que este “assassino em série maníaco” fazia era um comportamento estranho que mereceria tanto um estudo sociológico como um exame de consciência, à noite antes de deitar. A menos que houvesse no vampiro qualquer coisa que explicasse esta estima, tornando-a compreensível: “Vocês gostavam do Damon Salvatore porque, sendo uma besta, era também vulnerável. O que vos ligava a ele era amar o irmão, saber o que é sofrer, saber o que é estar feliz, triste, todas estas componentes humanas que fazem de nós o que somos e com que nos podemos relacionar.”[1] De facto, um moralista sentir-se-ia tentado a ver o afecto generalizado por Damon como evidência dos níveis patológicos a que podem chegar os fenómenos de culto. E algumas respostas superficiais podem ser dadas para explicar, e eventualmente demitir, o facto como irrelevante. “Só porque éramos bem-parecidos?” repete Somerhalder, em tom de gozo e incredulidade, a resposta que alguém lhe grita do público. Também duvidamos que esta explicação seja suficiente, e razões mais substanciais deverão ser encontradas para dar conta da intensidade e perduração do apreço por esta figura em particular. E ainda com Somerhalder acreditamos que a resposta está no carácter complexo e contraditório deste vampiro sarcástico. E da sua história, claro, mas isso são cenas do próximo capítulo.

Damon Salvatore arrancou-nos o coração
Elena e Damon em “Bad Moon Rising” (© The CW/HBO Portugal)

A máscara de Damon Salvatore

Vimos como uma das qualidades mais icónicas da versão televisiva de Damon Salvatore é o seu sentido de humor sardónico, em contraste com a impassibilidade do original literário. Desde o início da série que Somerhalder explica este humorismo como “um remédio para o sofrimento, um penso rápido para a dor”, à maneira de muitos comediantes que usam “este imenso humor para se arrancarem da masmorra do desespero.”[2] Condenado a uma eternidade longe da única pessoa que lhe resta, um irmão com quem já não pode partilhar a existência.[3] Traído por uma mulher a quem amou “com a ingenuidade da juventude”[4] e por quem esperou inutilmente durante quinze décadas. A sátira vem com o cinismo acumulado ao longo deste século e meio de solidão: “Imaginem viver 170 anos. Se pensam que são cínicos agora, esperem 170 anos para ver quão cínicos serão nessa altura.”[5] Por detrás do riso, dos comentários sardónicos e da paródia esconde-se então uma sensibilidade que usa o sentido de humor como defesa: “O que torna Damon tão divertido é ele poder ser vulnerável. Ele é, à superfície, um homem muito duro, marcado pela vida, mas por baixo de tudo isto tem a capacidade de ser muito vulnerável e muito terno. Ferozmente leal, embora pudesse quebrar o nosso pescoço num piscar-de-olhos, sem pensar duas vezes.”[6] Conceber o sarcasmo como uma protecção foi uma das estratégias usadas para fazer Damon Salvatore evoluir organicamente de vilão unidimensional para um protagonista capaz de viver e crescer com a história e conquistar a simpatia dos espectadores. A vantagem do artifício está em desenvolver na personagem novas camadas sem obrigar ao abandono de nenhuma das anteriores: Damon permane sarcástico e vulnerável, vilão e protagonista.

Damon Salvatore | “Doom, gloom and personal growth”

Ao longo de toda a série, a crueldade, a dureza e o descompromisso do irmão rebelde serão fruto da mágoa, da solidão e do medo de desiludir os que ama. Em “The Return”, desprezado por Katherine e por Elena, porque “it’s always gonna be Sefan”, Damon perde a cabeça e parte o pescoço ao irmão de Elena, Jeremy. O anel de eternidade permite que a morte seja apenas temporária mas o acto permanece odioso a Elena que, mesmo assim, lhe percebe a motivação profunda: “There’s nothing good about him, Stefan, not anymore. He’s decided what he wants. He doesn’t wanna feel. He wants to be hated. It’s just easier that way.” Mais à frente, já no final da terceira temporada, em “Heart of Darkness”, o próprio Damon confessa que não contou a ninguém o que fizera por Rose “because when people see good, they expect good, and I don’t wanna have to live up to anyone’s expectations.” A mesma razão que apresentará, já na sétima temporada, a Bonnie na carta onde explica a sua cobardia ao ir-se embora: “You’re going to make me face the future without Elena, and you’re gonna help make me the best man I can possibly be, the same way she did. And I’m absolutely terrified of failing you both. So I’m leaving, because I’d rather let you down once, than let you down for the rest of your life.”[7] Um temor que nasce do desgosto por si próprio, do que sabe de si, como o reconhece Elena, na ilha ao largo da Nova Escócia: “So things aren’t easy and you’re gonna push me away? That’s what you do, Damon. You think that you don’t deserve something, so you ruin it.”[8] Ou Stefan, quando pede a Elena que seja mais forte do que esta faceta do irmão: “Damon keeps pushing you away because he hates himself. Who he is, what he’s done. Just remember that you never gave up on me, so don’t give up on him. And don’t let him give up on you, either”[9]. Uma faceta com a qual Stefan não consegue lidar, que o deixa impotente, sem saber como arrancar o irmão da espiral de autodestruição em que esta o mergulha: “It’s like the more pain he can cause, the more reasons there are for people to hate him. He wants to confirm everyone’s lowest expectations of him.”[10] O medo que Damon tem de si, do mal que é capaz de causar, leva-o a abandonar os que estima, “because when I stay, I destroy things”, diz ele a Enzo em “No Exit”.

O sentido de humor como máscara irónica, fachada que esconderia e protegeria a fragilidade de alguém que podia ser, e foi, magoado,[11] revelava a existência de um conflito em Damon Salvatore entre a natureza de vampiro e a anterior natureza humana, não desaparecida como se poderia pensar inicialmente mas apenas soterrada. Não era só Stefan quem carregava o peso da luta moral entre as duas naturezas, mas também o irmão que começara por ser introduzido como um vilão, perigoso no seu antagonismo e cómico na inquestionada aceitação do vampirismo em toda a sua monstruosidade. Quando no final do piloto, Stefan lhe diz que “it’s all fun and games, Damon, but wherever you go, people die”, Damon responde muito naturalmente que “that’s a given.” Até aqui temos o tom da trivialidade de uma propriedade biológica da espécie, cómico no seu pasmo de que a questão possa sequer ser vista de outro modo. Mas quando Stefan se opõe com uma injunção, “not here, I won’t allow it”, Damon deixa de ser só um predador consciente e o vilão emerge, com o desejo de desobediência e intento maligno: “I take that as an invitation.” Manifesta-se uma vontade de destruir a vida ou felicidade alheias, com o travo da personagem alegórica do Vício dos autos de moralidade medievais, de que Iago ou Don John são o resquício renascentista. E, se não passasse disso, Damon Salvatore nunca poderia ter evoluído para um potencial protagonista. Enquanto puro vampiro, predador ou monstro – desprovido da natureza humana com a qual pode vir uma individualidade relevante, uma identidade não apenas genérica mas pessoal –, Damon nunca poderia representar mais do que um perigo a temer, um obstáculo a superar ou um problema a resolver. Era preciso que o desafio a Stefan não resultasse de pura malevolência mas fosse motivado por razões provenientes de uma história particular. É verdade que este vampiro é o irmão do protagonista, contra quem dirige, em concreto, a sua maldade, tudo traços individuais, afectivamente carregados. Mas, como se percebe pelo caso de Don John, em Much Ado About Nothing, isto não é suficiente, a menos que associado a um qualquer desejo de bem, ou ganho para si, ainda quando “mal orientado”[12].

Damon Salvatore | “I don’t get hurt”

A partir do momento em que a eternidade de miséria prometida por Damon a Stefan é, na realidade, uma vingança, esboça-se um conflito, com razões de parte a parte, envolvendo uma história partilhada entre duas pessoas: “Há uma certa porção de humanidade nisso. As pessoas que são muito boas umas com as outras ou as pessoas que são muito más umas para as outras, todas elas têm uma razão, há alguma coisa que as levou a isso e, no caso de Damon, ele sente que foi injuriado de modo muito grave pelo irmão, há muitos anos atrás”[13]. Claro que, se a malevolência nasce da ira e do ressentimento por um agravo cometido, um bem sonegado, como Katherine ou a própria humanidade, então, “embora à primeira vista ele possa parecer cruel, aprofundando um pouco, pode-se encontrar uma certa justificação algures.”[14] E a separação entre o bem e mal passa a ter de ser traçada, não entre Stefan, o herói, e Damon, o vilão, mas no interior de cada uma destas personagens: “Por mais bondade que exista em Stefan, há maldade em Stefan. Por mais maldade que exista em Damon, há bondade nele também, por isso ambos têm a capacidade de entrar e sair desses dois domínios”. Trata-se de uma luta que um e outro têm de travar, mesmo se cada um a seu modo. Stefan precisa de toda a sua consciência ética, força de vontade e autodomínio para deter o Estripador dentro dele e “Damon não é diferente, apenas age mais com base no seu impulso.”[15] Por isso, à medida que a primeira temporada vai avançando, as linhas nítidas com que se começara vão-se esbatendo, as personalidades de ambos os irmãos vão-se arredondando e adquirindo o claro-escuro da tridimensionalidade. Por altura de “Miss Mystic Falls”, enquanto Damon salva Elena da humilhação de ser deixada sem acompanhante, no baile de gala de Founder’s Day, Stefan tenta resistir ao impulso de atacar uma das candidatas que atraiu para os jardins, repetindo entre dentes que “I don’t hurt people, I don’t do that, I’m the good brother”.

The Vampire Diaries | “Where’s Stefan?”

Damon Salvatore, um vilão com um propósito

O sarcasmo um penso rápido para a sensibilidade ferida, a eternidade de miséria uma vingança por antigos ultrajes, a vilania já não é só a monstruosidade do vampiro em Damon Salvatore, mas um conjunto de acções cruéis motivadas pelo sofrimento e desilusão, dignos de compaixão. Estas acções malévolas, bárbaras ou, no mínimo, discutíveis irão continuar ao longo do seu caminho de transformação e encontrarão uma explicação, já não no passado, mas agora no contexto pragmático da luta pela sobrevivência. “If you’re gonna be bad, be bad with a purpose, otherwise you’re just not worth forgiving”[16], aconselha Damon a Klaus. Como qualquer versão da teoria de que os fins justificam os meios, é difícil concordar com as suas decisões, até porque muitas vezes as soluções que encontra despoletam novos problemas. Estamos contudo muitas vezes tentados a reconhecer que as circunstâncias extremas em que o gangue se encontra e o calibre dos adversários envolvidos parecem requerer as medidas dúbias ou drásticas a que Damon recorre: “I don’t mind being the bad guy, because somebody has to fill that role and get things done.” Ou terão então uma atenuante no caráter impulsivo de Damon. Não interessa quais os estragos causados por essas acções irreflectidas, como no caso da morte do lobisomem Mason, por exemplo. Porque a impulsividade é sinal de desejos e sentimentos, revelando a presença de uma humanidade desorientada mas fervorosa. De novo, torna-se difícil para o público condenar esta personagem cujos erros desmedidos prometem uma igual desmesura no bem se alguma vez o encontrar.

Como a confirmar esta possibilidade, emerge entretanto uma virtude inequívoca de Damon, ainda quando o leve por vezes a actos equívocos. Ian Somerhalder diz que ele é de “uma lealdade feroz, é loucamente leal ao irmão, leal à namorada, leal… é leal, ponto.”[17] Por várias vezes, durante os períodos de desavença, acontecia Elena formar impressões erróneas dos motivos e acções de Stefan, que este não estava em condições de desfazer. Não faltaram a Damon ocasiões para, por contraste, beneficiar destes mal-entendidos. E de todas as vezes, como no roubo dos caixões da família de Klaus ou na procura da cura para o vampirismo, o vilão que tudo faria por Elena contou-lhe a verdade, contra a vontade do próprio Stefan: “I know you think Stefan has been lying to you, which, yeah, he has but this rough patch you two have been going through is not what you think. Everything that he has been doing, is been doing it for you, to help you.”[18] Damon poderá ter sido manipulativo ao início, recorrendo à intriga para corroer a relação entre Elena e o irmão, quando tudo fazia parte da promessa de uma eternidade de miséria, mas assim que uma amizade cresceu entre ele e Elena, ao mesmo tempo que se regenerava a relação com o irmão, nunca mais foi capaz de lutar senão lealmente: “I thought I could win her from you fair and square. She didn’t want me. It’s for the best, I’m better at being the bad guy, anyway.”[19] O que podia implicar, claro está, coisas como mentir ao irmão sobre o resultado da moeda atirada ao ar para ver a quem caberia a ignomínia de converter a mãe de Bonnie em vampiro, gorando o plano de Esther e salvando a vida de Elena. Isto porque a lista de remorsos de Stefan já ia longa e não é Damon o mau da fita?

Damon Salvatore | “Why add to the list?”

Vampiros humanizados

Assim lentamente, no decorrer das temporadas, o mal e o bem vão-se entretecendo neste vampiro cujos motivos resultam muitas vezes de uma ambivalente mistura de franqueza e egoísmo. E Damon vai entrando para a mesma categoria de que Stefan também faz parte, a do ente afligido pela contradição de duas naturezas em luta entre si, onde o vampirismo simboliza o mal e a humanidade o bem. Com a reificação do mal numa natureza, explicada como uma criação mágica mas caracterizada por analogia com as espécies biológicas de animais predadores, a luta adquire uma intensidade e dimensão ontológica que não tem, em princípio, no caso onde o mal resulta de apetites desordenados e juízos erróneos que desviam da própria natureza. Fazer o bem passa a implicar, não realizar a própria natureza, mas negá-la: “Na primeira temporada sentia-se, era palpável quão difícil é viver uma vida ou ser uma coisa que não se é, mesmo se o que se era é feio e monstruoso e não está certo ser assim. Lutar contra isso, lutar contra todo e qualquer ímpeto de fazer uma coisa que é horrenda, mas que é o que se é – tinha-se mesmo a sensação dessa luta, da tensão.”[20] Somerhalder refere-se aqui ao conflito constante em que Stefan vive, obrigando-o a uma dieta de sangue animal, sustendo um equilíbrio difícil de manter e do qual escorrega por vezes, como na primeira temporada em consequência do rapto pelos vampiros do túmulo, ou no começo da terceira ao ter de ceder às imposições de Klaus. Damon também passou a ter de travar esta luta mas como o fazer sem se converter no irmão? “Começamos a ver semelhanças humanas nele, que percebo serem importantes, mas é um fino equilíbrio tê-lo a ser Damon, e não Stefan”.[21]

Importa perceber que a diferença fundamental entre os dois irmãos nesta matéria está na aceitação ou não da condição de ser vampiro. Enquanto Stefan se ressente da nova natureza, também porque padece de uma versão mais extrema, e recusa-a por uma questão de princípio ético, Damon não só se sente confortável nesta segunda pele, como certas limitações da sua personalidade humana foram ultrapassadas durante a existência como vampiro, precisamente aquelas ocultas fragilidade e ingénua ternura que tão facilmente o tinham levado ao engano, feito dele presa fácil para a manipulação de uma mulher, como explica Stefan a Elena: “You never knew Damon as a human. He was aimless, always searching for something more. Sweet and earnest to a fault but never strong. That came later when he found himself, when he truly became Damon. He loves being a vampire.”[22] Assim, quando em “162 Candles”, Lexi o tentar insultar, “Have you met you? You’re not a nice person”, Damon responderá, no tom de quem encolhe os ombros diante do óbvio, “well, because I’m a vampire.” E à objecção de Elena de que Stefan “is not himself” oporá que “well, maybe his problem is he’s spent too long not being himself.” Ela apenas conhece o Stefan bem comportado mas é ingenuidade da parte dela ignorar todo o outro lado da questão. “He’s not you, not even close”, replica Elena. Damon, o eterno cínico, chama a atenção para o facto trivial de não podermos decidir o que somos: “Well, he doesn’t want to be me. But that doesn’t mean deep down that he’s not.”[23] É esta aceitação da própria natureza, por oposição à luta contra ela, que fará de Damon um vampiro moderado na sua sede, ao invés de Stefan, que exibe comportamentos aditivos: “Normal to a vampire is drinking human blood. But he spent all this time fighting it when he should’ve been learning how to control it. And now it’s controlling him instead.”[24] Mais tarde, em “The Five”, enfrentará a ira escandalizada de Bonnie com a constatação, em termos biológicos, do que ele e, entretanto, Elena são: “We’re a predatory species. We enjoy the hunt, the feed and the kill. When the guilt gets too bad, we switch off our humanity and we revel in it. […] And you know what makes me able to drink my fill and leave someone breathing and not rip their heads off like my brother is that I can revel in it. I can make it fun.”

Damon Salvatore arrancou-nos o coração
Damon e Gloria em “The End of the Affair” (© The CW/HBO Portugal)

Em virtude da progressiva modificação histórica sofrida dos meados do século XX à primeira década do novo milénio, a figura do vampiro deixou de equivaler pura e simplesmente à de uma monstruosa criatura do mal. Embora integre, como estrato útil, os sentidos de malevolência e perdição eterna a ela associados, a monstruosidade foi reconfigurada, num cruzamento entre o gótico e a ficção científica, numa forma de predação particularmente letal, que vitimiza a espécie humana. Assim, o vampiro é um ser que pertence e não pertence ao mesmo tempo à esfera moral. Como diz Elijah, “Mother made us vampires, she didn’t make us monsters. We did that to ourselves.”[25] Esta afirmação padece da ambivalência que acompanha o novo conceito de vampiro. Por um lado, como animal que é, o vampiro não pode ser julgado moralmente pela morte que causa, do mesmo modo que não se levam lobos a tribunal por assassinato. Por outro lado, quer pela retenção da anterior natureza humana, à qual a nova natureza vampiresca já não se substitui, mas se sobrepõe, quer pelo estrato de perversidade herdado da tradição gótica, o vampiro é um ser moral.

Com a humanidade vêm os atributos da consciência ética, agência responsável e identidade pessoal que lhe consentem ser protagonista de uma narrativa, o sujeito de uma história, e dão-lhe a possibilidade de escolher não ser um monstro. Enquanto o sentido de perdição infernal herdado da tradição gótica converte o vampiro, no qual a humanidade entra em luta com o monstro, numa poderosa metáfora do conflito entre o bem e o mal. Esta ambivalência permite que se, a um certo nível, Damon tenha toda a razão porque moral é agir, como ele faz, segundo a própria natureza biológica, já a outro nível, Damon permaneça o vilão que deseja ser, necessitado de resgate. Um dilema que Elena acusa: “When you tell me what a vampire should be deep down I believe you. I think that you’re right. And I hate that feeling. Because I don’t want to be…” E Damon termina “you don’t want to be like me”[26]. Elena, como Stefan, decide-se pela recusa e luta contra a nova natureza em prol da antiga. Mesmo diferente e contraditória, mais conhecedora da sua capacidade para o mal e o erro, Elena permanece a pessoa que sempre foi e de quem Damon dirá “you’re the good.”[27] E Damon sabe bem que, para poder estar com ela, terá de dar o mesmo passo, mesmo que isso signifique negar-se a si mesmo.

Damon Salvatore | “I’m a liability”

Humanizado, mas nada de Edward Cullen

O conflito de Damon é por isso distinto do de Stefan. A sua angústia não está tanto numa luta entre as duas naturezas, vistas uma como boa e outra como má. Pelo contrário, mais depressa Damon diria, como Katherine, que “humanity is a vampire’s greatest weakness, no matter how easy it is to turn it off, it just keeps trying to fight its way back in”[28]. Dirá pelo menos, um dia, que “I care too much, I’m a liability, how ironic is that?”[29] A humanidade é uma limitação que põe em perigo qualquer plano de ataque bem arquitectado. Precisamente porque Damon acolhe, sem reservas, a sua natureza o conflito está em ter de renegar essa natureza, cuja fruição tanto gozo lhe dá, para obter a estima de Elena: “I’m bad, Andie. I do things. I kill people […] because I like it. It’s in my nature. It’s who I am. But then I have to stay together to protect her. And she wants me to be the better man which means I can’t be who I am. Do you see the problem I’m having?” A resposta que Andie lhe oferece é simples mas levará todo o tempo da série para que Damon a aceite e faça sua: “Well, maybe this is who you are now. Love does that, Damon. It changes us.”[30] É a esta mudança que ele resiste, tornando-se um “herói relutante que avança um passo, recua três”, diz Kevin Williamson. “Vai tratar-se constantemente dessa espécie de conflito para ele. Agora é amigo de Elena e Elena está ali a dizer-lhe que ‘não é certo despachar pessoas, não podes fazer mais isso ou acaba-se tudo’. Mas é a natureza dele, é quem ele é.”[31] No episódio apropriadamente intitulado “Disturbing Behavior”, Damon parte o pescoço a Alaric, ataca o pai de Caroline, luta com a filha, até ser detido por uma Elena furiosa:

“Why is it suddenly so important for everyone to keep me in check?”

“Because I don’t want you to be what other people think you are.”

“What, a monster? Sorry to disappoint you, Elena, but last time I checked, I was still a vampire.”

“I just wish you didn’t have to act like one!”

“I am not Stefan! How about you stop trying to turn me into him?”

Damon e Jessica em “The Descent” (© The CW/HBO Portugal)

Eventualmente, seis temporadas mais tarde, depois de reincidir na vilania por desvario, quando se julgou abandonado por Elena ou se viu afastado dela durante o seu sono infindável, depois de ter tentado afastar Elena de si por medo de não conseguir mudar o que era, e ver a desilusão nos olhos dela, chegará o momento em que dirá a Kai que “I don’t kill for kicks anymore, so if you can’t tell me this guy’s death meant something, I will turn this room into your own personal hell.”[32] De alguém que disse a Elena no princípio “you confuse me for someone with remorse”[33], Bonnie dirá, temporadas depois, “you feel remorse, that’s what makes you different from Kai”[34]. Percebe-se que Damon Salvatore estivesse finalmente pronto para receber a cura e voltar a ser humano. Mas talvez só porque, no fundo, como o sarcasmo ocultava uma vulnerabilidade, também o aferro ao vampirismo escondia há muito um segredo, revelado num encontro fortuito (ou não) com uma estranha encontrada na estrada, no final de “The Descent”:

“I’m lost.”

“And you’re lying in the middle of the road?”

“I’m not that kind of lost. Mataphorically. Existentially.”

“Do you need help?”

“Yes, I do. Can you help me?”

“You’re drunk.”

“No, well, yes, a little. Maybe. No, please don’t leave. I really do need help. Don’t move.”

“I don’t need any trouble.”

“Neither do I. But that’s all I got is trouble. What’s your name?”

“Jessica.”

“Jessica, I have a secret. I have a big one but I’ve never said it out loud. I mean, what’s the point? It’s not gonna change anything. It’s not gonna make me good. Make me adopt a puppy. I can’t be what other people want me to be. What she wants me to be. This is who I am, Jessica.”

“Are you gonna hurt me?”

“I’m not sure. Because you are my existential crisis. Do I kill you, or do I not kill you?”

“Please don’t.”

“But I have to, Jessica, because I’m not human. And I miss it. I miss it more than anything in the world. That is my secret. But there’s only so much hurt a man can take.”

“Please, don’t.”

“Okay, you’re free to go.”

Damon Salvatore | “I’m not human”

Kevin Williamson e Julie Plec insistiam que Damon Salvatore evoluísse de vilão unidimensional, não interessa quão irresistível no sarcasmo e na impudência, para uma personagem complexa, composta por desejos e sentimentos contraditórios, capaz de protagonizar uma longa narrativa, que viria a ter 171 episódios. Mas esta transição de vampiro no sentido clássico de monstro para a versão contemporânea de vampiro humanizado, afligido por uma consciência, tinha de se dar não só orgânica e coerentemente, como também, nota Ian Somerhalder, de modo a não fazer colapsar a distinção entre os dois irmãos. O sarcasmo podia ser psicologicamente explicado, de forma verosímil, como uma máscara, uma defesa de um íntimo vulnerável. No mesmo sentido, o apego à natureza vampírica, que Damon se via obrigado a conter e contrariar nas acções, era o mais lógico para alguém que começara como um vampiro infame. Ao contrário de Stefan que, desde o início e ainda antes de conhecer Elena, odiava o vampiro em si, condenando-o como imoral e lutando, a todo o custo, contra a sua manifestação, Damon não só era um vampiro em acto, o que fazia dele o primeiro vilão a entrar em Mystic Falls, na vida de Elena e dos amigos, como gostava de o ser. Este prazer de Damon Salvatore na sua natureza representava uma ligeireza e um alívio cómico face à pesada dramaticidade de Stefan. Quando Alaric lhe contrapõe que ele não desligara o interruptor da sua humanidade, como Isobel fizera, Damon não hesita: “Of course I have, that’s why I’m so fun to be around.”[35]

É precisamente esta diferença entre os dois irmãos que os argumentistas e Somerhalder aproveitarão para desenhar uma evolução quer coerente, quer individualizante de Damon Salvatore. Não haverá nenhuma iluminação repentina, pela qual Damon passará de um momento para o outro a odiar e a entrar em luta com a sua segunda natureza, o que faria dele um outro Stefan, mas encontrará qualquer coisa de preferível ao vampirismo. Na realidade, a solução é brilhante. Quando humano, Damon perdeu-se por uma paixão desmedida e ingénua. Transmutando-se em vampiro, a paixão tornou-se hedonismo, a procura egoísta de satisfazer os próprios desejos e apetites. Elena reanimará a primeira, entrando em guerra com o segundo. Mas é precisamente o hedonismo egoísta que, focado agora em Elena, fará de Damon um aliado renitente de Stefan, do gangue e de Mystic Falls, arrancando-o da solidão e obrigando-o a reaproximar-se de uma vida da qual se protegera durante tanto tempo:

Percebi que o que tornaria Damon interessante seria garantir que ele entraria em conflito e começaria a sentir coisas que odeia. Ele não gosta de sentir nada por ninguém, porque aí está-se a correr um risco. Há coisas em jogo. E quando há coisas em jogo, arriscamo-nos a perder alguma coisa e isso é algo que ele não quer de todo. Ao início foi realmente contra-intuitivo, por estar tão habituado a ele ser só um mauzão, estratificá-lo em todos estes níveis, foi difícil para mim. […] É duro, porque tem de ser verídico e tem de haver muita dor real enterrada naquele sentido de humor. Aquela espécie de assassino maníaco nele começa-se a desvanecer em virtude de, uma vez mais, sem querer soar a um disco riscado, a parada ter subido porque ele agora interessa-se por pessoas.[36]

Estranhamente, parece-me que a estima generalizada de que Damon Salvatore goza está no seu famoso egoísmo, o ponto intermédio entre o vilão e herói, que permitirá a passagem de um ao outro, mantendo-o durante muito tempo naquele terreno intermédio que é o de todos os homens. A atractividade de The Vampire Diaries está nos seus monstros “estarem numa área cinzenta, e nenhum mais do que Damon, este herói relutante que não foi feito para ser um herói.”[37] O fascínio da série está em ser uma epopeia protagonizada por seres falíveis, onde o heroísmo e a vilania se entretecem até se tornarem indiscerníveis, com os irmãos a oscilarem continuamente entre os dois papéis e o gangue de amigos a salvar o dia, no final. É o que acontece quando a ficção de vampiros se inverte e no seu centro passa a estar o que antes era o inimigo. O vampiro de aparência cativante tornou-se o protagonista mas trouxe, oculta no interior, a monstruosidade antagónica herdada da tradição. Nada mais natural que, num gótico assim reconfigurado, Damon escorregasse para o papel principal, ocupado na tetralogia pelo irmão, constituindo-se como protagonista polémico, um anti-herói moralmente dúbio para as mentes mais puritanas, mas humanamente fascinante para os comuns pecadores. Com o reconforto acrescido de poder ser o próprio mal, a maior falha de que se padece, a ocasião de salvação. Damon Salvatore é tão egoísta que fará de tudo, desde o mal até lutar contra esse mal ou mesmo fazer o bem, por aqueles que ama. Como dirá Caroline a Klaus, “anybody capable of love is capable of being saved.”[38]

Lê Também:
A Redenção de Damon Salvatore (Parte V)

[1] “Ian Somerhalder Spotlight: Vampire Diaries, Lost, And More | ECCC 2019”, SYFY Wire, 16 de Março de 2019.

[2] “The Vampire Diaries: Ian Somerhalder Interview – W9”, W9 Channel, 18 de Agosto de 2011.

[3] “Ian Somerhalder exclusive! – GQ TV – GQ.COM (UK)”, GQ.com, 6 de Julho de 2010.

[4] Peter Travers, “Ian Somerhalder Discusses His Role On CW’s The Vampire Diaries”, ABC News, 22 de Março de 2013.

[5] “Interview de Ian Somerhalder de Vampire Diaries”, Première Magazine, 3 de Setembro de 2010.

[6] “Ian Somerhalder Interview in Paris”, Teemix, 4 de Junho de 2011.

[7] “Nostalgia’s a Bitch”, temporada 8, episódio 10.

[8] “Into the Wild”, temporada 4, episódio 13.

[9] “500 Years of Solitude”, temporada 5, episódio 11.

[10] “Total Eclipse of the Heart”, temporada 5, episódio 13.

[11] “Ian Somerhalder talks Season 2 at the Convention in Paris”, Excessif, 26 de Maio de 2011: “Mas ele é muito humano. Existe esta fachada dele como um durão, mesmo mau, mas por debaixo há uma fragilidade nele. Ele pode ser ferido, o seu coração foi quebrado duas vezes em duas temporadas.”

[12] “Vampire Diaries: Ian Somerhalder on Damon drowning in women and booze, his ‘Lost’ plans”, Screener, 7 de Março de 2010.

[13] “Ian Somerhalder – the Vampire Diaries – Damon’s Motivations”, The CW Source, 15 de Setembro de 2009.

[14] “The Vampire Diaries – Ian Somerhalder – All About Damon Salvatore”, the CW Source, 2010.

[15] “Ian Somerhalder talks Season 2 at the Convention in Paris”, Excessif, 26 de Maio de 2011.

[16] “A View to a Kill”, temporada 4, episódio 12.

[17] “Ian Somerhalder Interview”, Atlanta’s CW69, 24 de Setembro de 2013.

[18] “We All Go A Little Mad Sometimes”, temporada 4, episódio 6.

[19] “All My Children”, temporada 3, episódio 15.

[20] “Vampire Diaries Season 3 – Comic-Con Ian Somerhalder Interview”, IGN, 25 de Julho 2011.

[21] Jaret Wieselman, “Ian Somerhalder: Damon’s Fighting for Something Bigger than Himself”, Page Six, 3 de Fevereiro de 2011.

[22] “I’ll Wed You In the Golden Summertime”, temporada 6, episódio 21.

[23] “Under Control”, temporada 1, episódio 18.

[24] “Miss Mystic Falls”, temporada 1, episódio 19.

[25] “All My Children”, temporada 3, episódio 15.

[26] “The Five”, temporada 4, episódio 4.

[27] “The Devil Inside”, temporada 5, episódio 12.

[28] “Homecoming”, temporada 3, episódio 9.

[29] “Dangerous Liaisons”, temporada 3, episódio 14.

[30] “Daddy Issues”, temporada 2, episódio 13.

[31] “‘The Vampire Diaries’ Season 3 spoilers: Kevin Williamson dishes on the new season”, Matt & Jess, 1 de Setembro de 2011.

[32] “The Lies Will Catch Up With You”, temporada 8, episódio 13.

[33] “Haunted”, temporada 1, episódio 7.

[34] “Black Hole Sun”, temporada 6, episódio 4.

[35] “Isobel”, temporada 1, episódio 21.

[36] Alex Sternberg, “Ian Somerhalder Interview: Damon, he’s still a dick”, The TV Chick, 27 de Janeiro de 2011.

[37] Craig Byrne, “Interview: Kevin Williamson on Vampire Diaries Season 3”, KSiteTV, 15 de Agosto de 2011.

[38] “Into the Wild”, temporada 4, episódio 13.

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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