Aventuras de Bruce Chatwin nas gravações de "Cobra Verde" |©Sideways Film

DocLisboa ’19 | Nomad – In the Footsteps of Bruce Chatwin, em Análise

“Nomad – In the Footsteps of Bruce Chatwin” é um documentário do grande Werner Herzog, sobre o seu amigo Bruce Chatwin, um aventureiro e escritor de literatura de viagens, que morreu de SIDA em 1898. Foi um dos filmes exibidos no último dia do DocLisboa ’19

Werner Herzog, um dos maiores nomes da nova vaga alemã, continua a ser um cineasta altamente produtivo aos 77 anos. Está muito longe dos seus tempos de Aguirre e, nos últimos anos, tem-se focado muito no género do documentário. Realiza inúmeros filmes, às vezes mais que dois por ano. Em 2019, apresenta dois filmes no DocLisboa: “Family Romance, LLC” e este “Nomad – In the Footsteps of Bruce Chatwin”.

Lê Também:
DocLisboa ’19 | Family Romance LLC, em análise

Bruce Chatwin
Bruce Chatwin | © Sideways Film

Werner Herzog colaborou bastante com Bruce Chatwin nos seus últimos anos de vida, e 30 anos após a morte deste seu amigo britânico, recupera as aventuras que Chatwin tinha vivido, inspirado pela paixão deste escritor pela vida nómada, traçando uma bela homenagem. 30 anos antes, Bruce deu a Werner a sua mochila das viagens, que o realizador preserva e recupera agora, mas que nunca deixou de o acompanhar.

Esta produção britânica integrou a secção do Festival “Da Terra à Lua”, sendo exibida na sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge na última noite do festival, 27 de outubro. O documentário estreou inicialmente no Tribeca Film Festival, em Nova Iorque.

A obra segue uma série de encontros baseados nas viagens de Bruce. O filme divide-se em capítulos, que contam as histórias das suas aventuras e que se revestem também de uma forte poética, poética das palavras e visual.

Ouvimos mais do que um narrador, um deles é britânico, o outro reconhecemos dos voice overs de outros filmes de Herzog, como a sua série de entrevistas a condenados no corredor da morte. Reconhecemos assim a voz do próprio, a recuperar os passos de Chatwin, até à Pantagónia numa primeira instância, até uma bela reconstituição da foto de um naufrágio.

 Bruce Chatwin
Foto de Bruce Chatwin |© Sideways Film

O realizador deixa claro que o objectivo não seria nunca criar uma narrativa biográfica da vida de Bruce Chatwin, mas antes seguir algumas das histórias que o local onde se encontrava tinha a contar. Nomeadamente, visita a caverna com restos de uma criatura pré-histórica que Bruce tornou famosa no seu livro. Uma preguiça gigante, na parte chilena da Pantagónia. Uma espécie que foi extinta há mais de 10 000 anos.

Espécie extinta herzog
Espécie Extinta que fascinava Bruce Chatwin | Sideways Film

Recordamos, para os mais distraídos, que foi o livro “Na Pantagónia”, de 1977, que estabeleceu Chatwin como um escritor de viagens, e como um com uma componente bastante narrativa no seu trabalho.

Bruce Chatwin tinha uma enorme paixão por elementos pré-históricos, de arqueologia e antropologia. Vemos assim museus, sitíos arqueológicos, manifestações demais deste facto.

Esta paixão é recuperada através de fotografias, imagem filmada, e Herzog conversa também com um escritor de biografias sobre quem era este seu amigo. A recuperação de eventos não é linear, e a banda-sonora vai para lá do comum, tentando criar algum mistério também no filme, para além do mistério na vida narrada.

Paisagem DocLisboa ''19
©Sideways Film

“Paisagens da alma”, é assim que Herzog intitula as paisagens belas, paisagens da vida de Chatwin que se vão apresentando no filme. O realizador e o escritor conheceram-se na Austrália, no início dos anos 80, e foram unidos pela sua paixão partilhada pela cultura dos Aborígenes australianos. Pelas suas músicas, pela riqueza da cultura “nativa” australiana.

Chatwin sentia uma paixão pela ideia da vida nómada, pelos povos que, há não mais de 100 anos, ainda levavam uma vida nómada. Contudo, Herzog deixa claro, ele sabia que estes tempos já não voltava, e que o homem era frágil, e estava condenado à extinção. Bruce Chatwin sentia-se atraído pela estranheza, e pelos mistérios da natureza e das tradições e comportamentos mais ancestrais do homem. O documentário procura sempre tentar manter este mesmo tom de poética curiosidade inabalável.

Bruce Chatwin
O último povo nómada de Tierra del Fuego, fotografado há 100 anos © Sideways Film

Rituais, tradições, cerimónias, contextos que já não conseguimos inteiramente recuperar. Nómadas fascinaram o escritor até ao fim, até à sua morte. Bruce é descrito como um caçador de mitos, mitos do passado, mitos reais, mitos dos homens.

Bruce Chatwin
Campas das tribos dizimadas da Pantagónia | ©Sideways Film

Acompanhamos Herzog de novo até ao Chile, de regresso à Pantagónia. Encontramos arqueólogos, e procuramos as tribos nómadas que em tempos aqui se movimentaram. O sabor é agridoce, quando ouvimos falar dos povos extintos, que foram chacinados pelos colonos brancos, e que foram inclusivamente colocados em zoológicos.

Werner Herzog
Werner Herzog e a mochila de Bruce Chatwin | ©Sideways Film

Contudo, ouvimos falar também das suas emocionantes aventuras, e da mochila de Bruce, a mochila que para sempre acompanhou Herzog, num discurso emocionado mas contido.  Ouvimos falar também da permanência do escritor nas gravações do filme “Cobra Verde”, as quais decorreram numa altura em que o seu estado de saúde estava já debilitado. Contudo, “Cobra Verde”, que saiu em 1987, era uma adaptação da obra de Bruce Chatwin, “O Vice-rei de Ouidah”, e foi-lhe irresistível assistir às gravações no Gana, onde travou conhecimento com reis e mulheres guerreiras.

Bruce Chatwin
©Sideways Film

Falou-se um pouco sobre os encantos de Bruce, uma pessoa altamente sociável, que procurava seduzir e conquistar todos os que conhecia. Encantador, sedutor, bissexual, com conhecimento por parte da mulher, a quem os casos pareciam não incomodar. Infelizmente, numa altura de pouca segurança e muito risco, Bruce contraiu SIDA no início da epidemia. E assim Bruce faleceu aos 49 anos, em 1989,  ainda com tantas histórias por contar e culturas por descobrir.

Neste “Nomad – In the Footsteps of Bruce Chatwin”, de 2019, Werner Herzog presta uma homenagem sentida ao seu amigo e colega de aventuras Bruce Chatwin. Um documentário que pretende manter o mistério, ao mesmo tempo que mostra a rica diversidade que habita este planeta. As “Paisagens da Alma” daquele a quem presta homenagem, e o que estas escondem. 

Nomad: In the Footsteps of Bruce Chatwin
Bruce Chatwin

Movie title: Nomad: In the Footsteps of Bruce Chatwin

Director(s): Werner Herzog

Genre: Documentário, 2019

  • Maggie Silva - 80
80

CONCLUSÃO

Uma homenagem sentida, capaz de nos transportar para um mundo de deslumbramento, descoberta e aventura.

O MELHOR: Herzog realiza uma bela homenagem ao seu amigo, o escritor Bruce Chatwin, falecido no final dos anos 80. Fá-lo sem a necessidade de traçar uma linear biografia. Narra a história do amigo através dos sítios que visitou e que o marcaram. Fá-lo com poética e intensidade.

O PIOR: Quando temos planos de Herzog com o escritor de biografias, o nosso envolvimento com as experiências de Bruce é interrompido desnecessariamente.

Sending
User Review
4 (1 vote)
Comments Rating 0 (0 reviews)

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Sending