DocLisboa '18 | Terra Franca

Porto/Post/Doc ’18 | Terra Franca, em análise

Terra Franca” é a primeira longa-metragem de Leonor Teles, realizadora de “Balada de um Batráquio” e diretora de fotografia de “Verão Danado”. O filme é uma das obras em competição na mais recente edição do DocLisboa e também integra a programação do Porto/Post/Doc.

Há dois anos atrás, Leonor Teles ganhou o Urso de Ouro para Melhor Curta-Metragem do Festival de Berlim. O filme em questão foi “Balada de Um Batráquio”, segunda curta da realizadora, depois de “Rhoma Acans”, e um documento muito pessoal sobre o preconceito contra os Romani na sociedade portuguesa. Humor, cor, tradição familiar e belíssimas imagens filmadas em película granulosa caracterizaram o filme premiado e, para muitas pessoas, colocaram o nome de Leonor Teles no mapa. Mais uma cineasta portuguesa em ascensão cuja carreira devemos seguir de perto.

Se, em “Balada de um Batráquio” e “Rhoma Acans”, Teles explorou o lado Romani da sua herança familiar, em “Terra Franca” o seu olhar está mais apontado para o espaço geográfico que a viu crescer. Aqui, a cineasta apontou a objetiva para a família de um pescador vila-franquense e para o mundo que ela habita, quer sejam as ruas de Vila Franca de Xira em noite de festa, seus cafés pequenos, as paisagens cortadas pela linha de comboio ou o Tejo pintado com as cores da alvorada enquanto Albertino Lobo rasga a superfície no seu barco a motor qual herói de western no seu garanhão destemido.

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No seu barco de pesca, Albertino Lobo é para o Tejo o que John Wayne foi para o Oeste Americano.

De facto, segundo as palavras da jovem realizadora, foi mesmo essa imagem que a inspirou a fazer um filme centrado em Albertino. O projeto começou por ser uma curta-metragem sobre a pesca que Teles quis fazer depois de, numa viagem de barco, ter visto na figura de Albertino esse cowboy de outros tempos. Aqui, um cowboy sem cavalo, mas igualmente seguro e no seu elemento, uma figura distante que nada diz. Essa imagem ainda está presente no filme, em alguns dos seus tableaux mais belos. Contudo, na sua forma atual, “Terra Franca” é sobre muito mais que esse homem solitário e estoico no meio da magnificência da paisagem natural.

De facto, tudo pode ter começado com filmagens de Albertino na sua rotina diária enquanto pescador, mas o envolvimento da família Lobo rapidamente expandiu os horizontes do filme. Tal modo isso aconteceu, que a rodagem durou cerca de dois anos, entre 2015 e 2017, algo que não é bem percetível quando vemos este retrato familiar. Muitas graças devem ser dadas ao trabalho de montagem de João Braz e Luisa Homem que é um pequeno milagre na medida em que pega na inércia e casualidade de uma vida capturada em filme e daí consegue desenterrar uma estrutura ordenada que quase sugere uma propulsão narrativa.

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A forma do filme dá a entender que acompanhamos a família ao longo de meses consecutivos no que parece ser um ano da sua vida. Vemos aniversários importantes, o quotidiano banal, até temos lugar na mesa de refeição em tempo de Natal e acompanhamos a preparação do casamento de uma das filhas do casal Lobo. O clímax que encerra a fita é essa cerimónia que Teles filma em maravilhoso detalhe, apanhando fragmentos de conversas e perspetivas incomuns dentro dos rituais do matrimónio em festa. “Terra Franca” torna-se assim numa crónica de família, num estudo odisseico sobre diferentes gerações em comunhão em Vila Franca de Xira, um retrato de uma família e a terra em que vivem.

Há algo de épico nessa qualidade do filme, que, mesmo assim, nunca perde uma noção de intimidade e pequenez modesta. Parte dessa delicada mistura de tons vive na imagética com que “Terra Franca” é construída. Para além de realizar, Teles fez de diretora de fotografia e é nesse papel que o seu virtuosismo cinematográfico mais vistosamente se afirma. No aspeto 4:3 e com bastantes composições fixas cheias de cuidadas linhas geométricas e delineação de profundidade espacial, “Terra Franca” poderia ser só uma coleção silenciosa de imagens sem nexo e já teria valor.

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Do realismo fotográfico nasce uma beleza quase lírica.

A beleza que Teles encontra nas paisagens naturais e urbanas de Vila Franca de Xira é uma maravilha que merece aplauso. Nas passagens em que acompanhamos Albertino no seu barco, em que Teles vira a câmara para as pinturas de luz do amanhecer no céu sobre o Tejo, ou em momentos em que a cineasta parece simplesmente interessada em capturar o modo como o sol torna uma rede de arame numa barreira luminosa no meio da paisagem, este filme de estética inexoravelmente crua e realista ganha intoxicante lirismo. Nesse respeito, Teles aproxima-se um pouco da tradição relativamente rara que filmes como “La Terra Trema” de Visconti e “Viejo Calavera” de Kiro Russo estabelecem.

São obras num modelo neorrealista, onde as pessoas se interpretam a si mesmas, onde a barreira entre narrativa e documentário é mais porosa e imaterial que nunca e onde vidas comuns são elevadas, pelo mecanismo cinematográfico, a um registo quase épico, mítico e lírico. Da vida de pescadores italianos nasce uma epopeia, da vida de uma família vila-franquense floresce uma odisseia onde não há grandes batalhas ou viagens fantásticas, mas sim as provações de pessoas modestas que não têm tempo para tomar conta da neta ou se indagam se a compra de um aspirador de 520 euros valeu a pena.

No final, tal é o impacto acumulativo de tudo isto que “Terra Franca” acaba por ser vítima do confronto entre a sua modéstia e a grandeza que consegue conjurar. Com menos de 90 minutos, o filme parece demasiado curto, sendo que queremos ver mais da família Lobo. Teles mostra ser uma mestra em criar máquinas de empatia com o seu cinema, conseguindo o envolvimento do espectador sem nunca empregar manipulações chapadas. Este é um trabalho cheio de carinho pelas pessoas e pelos lugares que representa, mas não há sentimentalismos indevidos no seu retrato. A poesia e o romantismo do cowboy sem cavalo são extensões orgânicas da realidade bruta e não algo imposto à força. É só necessário um olhar atento para encontrar essas dimensões por entre o quotidiano e Leonor Teles é portadora desse mesmo olhar e teve a gentileza de o partilhar connosco através desta sua gloriosa “Terra Franca”.

[Originalmente publicado como parte da cobertura do DocLisboa, a 23 de outubro de 2018]

Terra Franca, em análise
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Movie title: Terra Franca

Date published: 2018-10-23

Director(s): Leonor Teles

Genre: Documentário, 2018, 80 min

  • Cláudio Alves - 80
  • José Vieira Mendes - 70
75

CONCLUSÃO

Com a sua primeira longa-metragem, Leonor Teles mostra mais uma vez a sua astúcia enquanto cineasta, quer seja na criação de uma Vila Franca de Xira cinematográfica enquanto pinturas vivas ou no modo como constrói um retrato intimista e complexo de uma família local. Em alguns sentidos, o filme relembra o modo como Visconti tornou a vida de pescadores em epopeias neorrealistas.

O MELHOR: O trabalho fotográfico do filme, especialmente nos momentos passados na penumbra da noite ou na alvorada. Além disso, as escolhas musicais que ainda não mencionamos, são deliciosas.

O PIOR: A brevidade do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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