Dopesick © Disney/STAR

Dopesick, em análise

Inspirada num livro, “Dopesick” volta a levantar uma das maiores controvérsias dos EUA. Mas será a sua história real suficiente para captar a atenção? Afinal de contas, o livro inspira-se em factos verídicos, mas o consenso sobre se existe fundamento e veracidade no tema abordado ainda está longe de ser consensual na comunidade médica norte-americana.

O tema é complexo: crise de opioides. Por Portugal nunca se ouviu falar muito (ou pelo menos com o mesmo impacto), mas nos EUA há anos que levanta ondas, divide comunidades, coloca os médicos e especialistas em confronto e tem feito manchetes de jornais por todo o país. Agora, através da Hulu, chega aos pequenos ecrãs via adaptação de “Dopesick: Dealers, Doctors and the Drug Company That Addicted America”, um livro lançado em 2018 por Beth Macy.

[Análise Sem Spoilers]

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Desengane-se antes de mais quem pensa que vai encontrar aqui um retrato real do que aconteceu nos Estados Unidos da América. “Dopesick” retrata um acontecimento sim, mas é um misto de ficção e realidade, criando personagens fictícias (inspiradas no entanto em pessoas reais) mas indo buscar acontecimentos reais – como a família Sackler, apresentada como a grande antagonista da mini-série e que ainda hoje é associado ao tema da adição de opioides nos EUA, pela criação e venda de Oxycontin.

Dopesick
“Dopesick” procura retratar um dos maiores casos mediáticos da comunidade americana – a crise de opioides que muitos consideram ter sido impulsionada pela família Sackler, da indústria farmacêutica © Disney/STAR

Mas, não obstante desta mistura dos dois mundos, a série incorpora em si uma história comovente, interessante e apelativa para o espectador; com uma abordagem empática para o impacto desta crise, a narrativa transforma-se num drama onde por vezes o tema central é renegado para segundo plano e onde é dado ênfase às performances individuais de um elenco magnífico de onde se destacam Michael Keaton e Kaitlyn Dever.

Não é portanto nem um documentário, ou uma série orientada por factos concretos. É um drama ficcionado, sim, mas apresenta-se no panorama televisivo quase como uma peça de catarse para quem já foi atingido por esta ‘pandemia’, de forma directa ou indirecta. “Dopesick” procura na sua essência ser o retrato de uma sociedade onde nem tudo é preto e branco, onde existem falhas na atribuição de responsabilidades e consequências para acções negativas, sendo neste caso particular a visada a indústria farmacêutica (e a imagem que se tem vindo a perpetuar que é difícil que as companhias sejam de facto responsabilizadas pelo que fazem).

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Com a Purdue Pharma como vilã da história, a série criada por Danny Strong apresenta uma comunidade dos Apalaches, onde Michael Keaton é o Dr. Samuel Finnix. Um homem de uma comunidade que trabalha maioritariamente nas minas, é ele o responsável pela saúde de inúmeros homens e mulheres e, neste caso em particular, retratado como a origem do surto de opioides na pequena comunidade. Kaitlyn Dever, que dá vida a Betsy Mallum, é uma das jovens que mais sofre com o aparecimento de Oxycontin, e cuja vida será para sempre alterada por esta nova ‘droga’ – a dela e a da família.

Contada por três linhas temporais, a série aborda achegada da crise, o que se foi descobrindo, e o culminar de uma ‘pandemia’ já instalada e as repercussões nas comunidades americanas.

Kaitlyn Dever
Kaitlyn Dever mostra uma vez mais porque é um talento a manter debaixo do radar © Disney/STAR

Como referimos anteriormente, tanto Finnix como Betsy são ficcionais mas o coração dos seus percursos é o de pessoas reais que sofreram as consequências de entrarem neste mundo de adição. O facto da série se centrar apenas em duas personagens a fundo, permitiu que “Dopesick” desenvolvesse melhor cada uma, e passasse a sua mensagem de uma forma clara e evidente.

Por outro lado, as personagens secundárias apresentadas foram tão relevantes como importantes para a evolução da história, ainda que algumas tenham sido “sub aproveitadas”. Com Rosario Dawson como agente da DEA, Peter Sarsgaard e John Hoogenakker com procuradores da justiça norte-americana e responsáveis por um processo contra a Purdue Pharma, há também que realçar o jovem talento de Will Poulter, que interpretou um comercial farmacêutico, Billy Cutler.

Dopesick
Will Poulter destacou-se, sabendo mostrar o seu talento ao lado do consagrado Michael Keaton © Disney/STAR

Carregadas de fantasmas, e com uma consciência e preocupação pela crise quase palpáveis através do ecrã, todas estas personagens conseguiram nos tempos de ecrã que tiveram mostrar a importância do tema e, acima de tudo, a necessidade urgente de resolver este problema que se espalhava pelo país. E claro que a sua relevância é também em contraste com a presença da família Sackler – todas elas mais envolvidas com a farmacêutica do que Finnix e Betsy, pelo menos de forma directa, foram os perfeitos opositores para o brilhante casting de Michael Stuhlbarg como Richard Sackler (o criador e impulsionador da Oxycontin).

Numa narrativa onde a mensagem do que aconteceu era real, “Dopesick” não termina sem antes mostrar imagens reais do caso Purdue Pharma/Oxycontin/comunidade americana, ainda que aos dias de hoje não tenha sido dado qualquer closure ao assunto; a verdade foi exposta (sobre a real adição de Oxycontin), a Purdue Pharma admitiu o seu erro na promoção do medicamento, um acordo multi-bilionário foi feito, admissões de culpa realizadas mas tudo sem consequências reais para a família Sackler (até hoje aparentemente impune).

Rosario Dawson
Ainda que um papel secundário, Rosario Dawson destaca-se por ser uma das personagens impulsionadoras para o desenrolar dos acontecimenos de “Dopesick” © Disney/STAR

Mas, e talvez por essa razão, ao não ser um documentário ou uma série de ‘factos e pessoas reais’, o que resulta melhor em “Dopesick” é a história das pessoas comuns afetadas pela droga sintética, com enfoque no médico bem-intencionado de Michael Keaton (ele que é também um dos produtores executivos) e na jovem que só queria resolver a dor física para ganhar força psicológica no seio de um ambiente familiar conservador. São estas personagens que garantem a estabilização da verdade emocional dos episódios, dentro do constante vaivém da agulha do tempo.

“Dopesick” é exactamente o que precisa de ser como mini-série. Apelativa, com personagens muito bem construídas, um elenco de se tirar o chapéu e uma história que nos deixa a pensar após vermos os episódios todos. Afinal de contas, o facto de se inspirar em casos reais faz-nos pensar na realidade e de como certos assuntos aparentemente rotineiros da sociedade podem ser tão problemáticos para o quotidiano de muitos e mesmo assim ‘passarem ao lado’ de grande parte da população. Ou serem simplesmente ‘varridos para debaixo do tapete’.

Uma série onde se destacam os indivíduos, já tem reconhecimento da crítica, com várias nomeações na award season de 2021/2022 da televisão, e inclusive prémios (nomeadamente para Keaton).

TRAILER | DOPESICK ESTÁ DISPONÍVEL NO STAR/DISNEY+

Já tinhas ouvido falar da história de OxyContin? “Dopesick” conseguiu captar-te a atenção?

  • Marta Kong Nunes - 75
75

CONCLUSÃO

Não sendo uma história verdadeiramente real, a premissa que está por detrás de “Dopesick” é interessante o suficiente para construir uma narrativa em formato mini-série que nos cole ao ecrã e faça querer ir acompanhando. No entanto, mais do que a história, a série conquista precisamente pelas performances individuais de Michael Keaton e Kaitlyn Dever, mostrando quão frágil é a natureza humana perante a adição e como um problema individual se pode desmultiplicar em vários indivíduos.

Crua nas emoções, e excelente a criar uma relação rápida com as personagens, “Dopesick” é uma boa fonte de entretenimento que peca no entanto por querer contar muito mas de forma diferente. Deveria ter-se ficado por apenas uma linha temporal única… de algum modo.

Pros

  • A performance brilhante de Michael Keaton, que apesar de ser a grande cara da série, deixa que a história também tome as rédeas enquanto principal protagonista;
  • Kaitlyn Dever mostra porque é um dos jovens talentos a manter debaixo de olho, oferecendo uma nova visão do seu talento multifacetado;
  • O retrato do impacto do uso das substâncias no seio das famílias.

Cons

  • A por vezes confusa timeline da série. Apesar de indicarem sempre o ano, a dada altura é fácil de confundir se a atenção não estiver a 100% no episódio;
  • A extensão dos episódios – a narrativa poderia ter sido montada de uma forma diferente, não só pelos problemas apresentados da junção de várias timelines.
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Marta Kong Nunes

Fanática de cinema e séries por pura paixão, sou da geração Disney mas também das Tartarugas Ninjas, Motoratos e afins. Já passei pela obsessão de vários géneros de cinema e apesar de me considerar eclética, nada me tira o gozo de um bom filme de acção (por muito irrealista que seja). Séries também se devoram por cá, mas a magia de um filme, será sempre a magia de um filme!

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