Recordando a genialidade de Eiko Ishioka

Tal como o Google Doodle de hoje nos recorda, Eiko Ishioka, se ainda fosse viva, faria hoje 79 anos. Para celebrar tal data, exploramos aqui o trabalho incomparável desta designer no mundo do cinema, onde ela criou alguns dos melhores figurinos alguma vez vistos na história da sétima arte.

 

eiko ishioka
Eiko Ishioka durante as filmagens de MISHIMA (1985)

 

Em teoria e crítica cinematográfica muito se fala do realizador enquanto autor singular do objeto artístico que é o filme. Tal é consequência da hegemonia popular da chamada teoria de autor, mas desde sempre têm existido opositores a este tipo de pensamento por variadíssimas razões. Uma delas é o facto de que o cinema é uma das artes mais intrinsecamente colaborativas que existem, tornando a elevação do realizador ao patamar de única voz autoral é injusto para com os inúmeros outros artistas envolvidos. Este tipo de discussão normalmente aparece em defesa do contributo de atores ou mesmo de escritores, mas raramente se aplica a designers. No entanto, existem alguns exemplos cuja marca pessoal é tão forte que é impossível negar quão o seu contributo representa, por si só, uma manifestação de uma perspetiva artística separada daquela do realizador. A designer gráfica, cenógrafa e figurinista Eiko Ishioka era uma dessas pessoas.

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Nascida em 1938 no Japão, Ishioka cresceu durante os anos da 2ª Guerra Mundial e da ocupação americana ao lado de um pai que era designer gráfico e apoiou as ambições artísticas da filha, apesar de temer a sua vitimização no mundo profissional fortemente sexista da época. Em 1961, depois de ter estudado na Escola de Belas Artes de Tóquio, Ishioka conseguiu o seu primeiro grande trabalho no ramo da publicidade e depressa começou a ganhar fama dentro do seu meio profissional. As suas campanhas para a marca de cosmética Parco, por exemplo, são pequenos milagres de teatralidade nipónica acentuada por toques de surrealismo e glamour. Chegado o fim da década de 70, os talentos de Ishioka já eram requisitados por uma série de diferentes meios, levando-a a inclusive desenhar posters de cinema. Foi precisamente na criação da campanha promocional para Apocalypse Now que a designer realmente entrou em contacto com esse mundo e, em 1985, ela viria a trabalhar no seu primeiro filme a convite do americano Paul Schaffer.

 

eiko ishioka mishima

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MISHIMA (1985) de Paul Schaffer

 

A obra em questão é Mishima, um retrato extremamente ficcionado e estilizado da vida do controverso escritor, culturista e figura política da extrema direita japonesa Yukio Mishima. Nesse filme, Ishioka foi apenas creditada como cenógrafa, tendo concebido as recriações fantasiosas de alguns dos mais emblemáticos contos de Mishima, mas também desenhou alguns dos figurinos para essas secções do projeto. Não obstante ter gerado uma grande polémica no Japão, o filme foi um relativo sucesso, especialmente a nível crítico, e os mirabolantes desenhos de Ishioka foram particularmente aclamados. A partir daí, ela viria a desenhar cenários e figurinos para cinema, teatro, ópera, circo e publicidade, tendo-se também envolvido na realização de videoclips, no design de uniformes desportivos e até na conceção visual da épica cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008. Neste artigo, vamo-nos focar somente no seu trabalho cinematográfico, mas, se aprecias o trabalho desta genial artista, não hesites em pesquisar os seus outros triunfos criativos.

 

eiko ishioka dracula

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DRÁCULA (1992) de Francis Ford Coppola

 

Na filmografia de Eiko Ishioka, o filme que se seguiu a Mishima é também o seu mais esquecido, Closet Land realizado e escrito pela indiana Radha Bharadwaj. Aqui, a natureza restritiva do texto e seus limites espácio-temporais impediram Ishioka de levar os seus impulsos estilísticos ao extremo, mas o mesmo não aconteceu com o seu projeto seguinte que lhe valeria o Óscar de Melhores Figurinos. Curiosamente, quando foi contratada para trabalhar nessa obra, uma adaptação de Drácula, eram os seus talentos cenográficos que o realizador Francis Ford Coppola pretendia usar após se ter lembrado do trabalho de Ishioka na campanha de Apocalypse Now em 1979. Contudo, quando vislumbrou algumas figuras humanas que Ishioka tinha incluído nos seus esboços cenográficos, o cineasta ficou tão impressionado que repensou todo o filme em volta dos figurinos que, a partir de então, passariam a ser a única responsabilidade da designer japonesa.

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Coppola queria até que o filme se desenrolasse em cenários minimalistas reminiscentes do cinema mudo europeu do início do século, mas os estúdios recusaram tais propostas vanguardistas. Mesmo assim, no projeto final, por muito elaborados que os cenários, eventualmente desenhados por Thomas E. Sanders, é impossível desviar os olhos dos figurinos de Ishioka que, por si só, nos propõe um mundo de mórbida fantasia, sexualidade pervertida e trágica bestialidade. As referências visuais da figurinista foram variadíssimas, abrangendo o teatro kabuki, retratos europeus do século XVII, as pinturas de Klimt, arquitetura modernista e até ilustrações anatómicas, mas o resultado final é um milagre de coerência estilística, assim como um dos melhores e mais criativos guarda-roupas na história do cinema.

 

eiko ishioka a cela

eiko ishioka a cela
A CELA (2000) de Tarsem Singh

 

Algo fascinante nos figurinos que Ishioka criou para Drácula é precisamente a forte presença do seu cunho autoral, uma estética caracterizada apor proporções exageradas, silhuetas teatrais, uso berrante de cor, e algo único e impossível de imitar. Foi essa mesma estética que o realizador Tarsem Singh queria para a sua estreia cinematográfica, A Cela, onde uma viagem aos recantos da mente de um serial killer se desdobra numa alucinatória coleção de tableaux de cortar a respiração. Desde a angélica visão de Jennifer Lopez coberta de penas brancas até à demónica aparição de um homem cujo figurino se estende até às paredes de uma claustrofóbica câmara, os figurinos de Ishioka são soberbos.

 

eiko ishioka the fall um sonho encantado

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UM SONHO ENCANTADO (2006) de Tarsem Singh

 

Tarsem viria a ser o principal colaborador cinematográfico desta designer, sendo que a estética dos seus filmes seguintes viria a ser como que orientada pelo trabalho de Ishioka, assimilando-o numa visão sonhadora coerente na sua insanidade criativa. Em Um Sonho Encantado, a amargura de um duplo de Hollywood ferido é filtrada pela imaginação de uma inocente menina num hospital dos anos 20, o que resulta num filme dominado por visões mágicas e multiculturais tão dependentes das centenas de localizações internacionais como dos figurinos de Ishioka que parecem ser quase a concretização magistral de pinturas infantis. Imortais, por seu lado, é um desastre narrativo sob a forma de uma aventura passada na Grécia Antiga, em que os figurinos são uma das suas únicas qualidades.

 

eiko ishioka teresa

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TERESA, CORPO DE CRISTO (2007) de Ray Loriga

 

eiko ishioka imortais

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IMORTAIS (2011) de Tarsem Singh

 

O único filme que Ishioka viria ainda a fazer sem Tarsem foi Teresa, O Corpo de Cristo de 2007, um drama histórico espanhol onde, apesar de magníficos, os figurinos nunca parecem integrar-se organicamente no mundo da obra. Em 2011, ela desenhou os figurinos para Espelho Meu, Espelho Meu! Há Alguém Mais Gira do Que Eu?, concedendo a esta adaptação do conto da Branca-de-Neve um toque de inocência fantasiosa e exuberância teatral que praticamente eclipsa os inúmeros problemas desta desaventura de Tarsem. Antes da estreia do filme, no entanto, Eiko Ishioka viria a sucumbir ao cancro do pâncreas no dia 21 de janeiro de 2012. No final, Tarsem dedicou a obra à memória sua mais importante e fiel colaboradora e a Academia de Hollywood viria a atribuir à figurinista uma rara nomeação póstuma pelo seu trabalho no conto-de-fadas. Até ao fim da sua vida, Ishioka ofereceu ao mundo visões de uma beleza incrível, autênticos sonhos materializados em roupa e em espaço que jamais serão esquecidos.

 

eiko ishioka mirror mirror espelho meu

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MIRROR MIRROR (2012) de Tarsem Singh

 

Se considerarmos o cinema na tradição de Méliès, como uma arte que se desenvolveu consoante uma procura por mostrar novos mundos ao público, então Eiko Ishioka foi uma das grandes cineastas das últimas décadas. Mais do que uma perda específica do mundo do design, a morte de Ishioka foi uma tragédia incomensurável para todas as artes performativas e o seu legado e trabalho merecem ser lembrados e celebrados em igual medida. Concordas?

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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