Mirabel, a personagem central © Disney

Encanto, em análise

“Encanto” chegou às salas de cinema nacionais no passado dia 25 de novembro e agora, após um mês em exibição, aterra no catálogo da Disney+ na Véspera de Natal. Deixamos as nossas impressões acerca da nova longa-metragem do gigante da animação! 

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Com a sua nova história original, “Encanto”, escrita por Charise Castro Smith  (produtora e argumentista de “The Haunting of Hill House”) e pelo co-realizador Jared Bush (argumentista de outras obras de peso do Estúdio, como “Moana” e “Zootopia”), a Walt Disney Animation Studios volta a inovar e a fugir à sua antiga tendência de representação, no grande ecrã, de princesas caucasianas que procuram amados perfeitos.

Agora, a história é outra, à medida que a Disney apresenta, cada vez mais, narrativas acerca de heroínas autónomas e que procuram a sua validação e amor próprio fora do âmbito de um relacionamento amoroso. Depois de Elsa e Anna terem provado, em “Frozen”, a importância do amor familiar, de “Moana” ter velejado meio oceano à procura de algo mais, depois de Merida ter partido à aventura num cenário pouco hospício, de espada ao peito, eis que mais uma rapariga comum protagoniza uma longa-metragem animada da Disney.

ENCANTO E COCO OU COMO A REPRESENTATIVADE IMPORTA (E MUITO) 

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“Coco “|©Disney/ Pixar

Em 2017, a Pixar Animation Studios criou e lançou, sob a chancela da Disney, o musical “Coco”, uma comovente história, pensada por Lee Unkrich (realizador do “Toy Story 3”), que pela primeira vez colocou uma família “étnica”, neste caso mexicana, no centro da narrativa. Uma história sobre magia, música, memória e que nos apresenta uma representação bela e sentida da cerimónia mexicana do Dia dos Mortos.

“Encanto” pode ser Disney e não Disney-Pixar, mas representa sem dúvida um regresso das matérias acerca de representatividade da cultura latina em filmes realizados nos EUA – tão abordadas em 2021 perante o lançamento de obras centradas na representação da comunidade latina como “Ao Ritmo de Washington Heights” ou “West Side Story” . Perante a cada vez mais dominante comunidade de Hispânicos que reside no país, é essencial que as suas tradições e a sua língua se vejam também elas representadas na grande tela, para que, de uma vez por todas, a marginalização se possa evaporar.

Por isso, “Encanto” é, em primeira instância, uma sentida homenagem à cultura latina, neste caso à cultura colombiana, onde se situa a nossa história. Tal como havia acontecido com “Coco”, o elenco vocal original é composto quase exclusivamente por atores latinos conhecidos, como por exemplo Stephanie Beatriz (“In the Heights”, “Brooklyn Nine-Nine”) ou Diana Guerrero (“Orange is the New Black”, “Jane the Virgin”).

Adicionalmente, com o intuito de manter a fidelidade e representar com cuidado a cultura da Colômbia, a obra foi produzida em colaboração com o grupo “Colombian Cultural Trust”, o qual se dedica à disseminação de várias expressões artísticas e intelectuais colombianas como antropologia, botânica, música, linguística e arquitetura.

ENCANTO TRAZ DE VOLTA A MAGIA  – E A SIMPLICIDADE – ÀS HISTÓRIAS DISNEY 

Disney
A mágica família Madrigal © Disney

 

“Encanto” é uma história simples, mas sentida, sobre a importância do apoio incondicional e gestão de expetativas. Acompanhamos a família Madrigal, um núcleo familiar que vive numa próspera vila nas montanhas da Colômbia, habitando uma casa mágica que se molda à volta da personalidade e dos poderes individuais de cada um dos membros desta família.

Os Madrigal são indispensáveis e lideram a povoação circundante, ajudando os habitantes através da aplicação dos seus dons maravilhosos – o seu “encanto”. Ora superforça, ora o poder de curar todos os moles, ora um dedo especial para a adivinhação, ora a capacidade para estabelecer comunicação com animais, cada membro da família Madrigal tem um talento mágico único que os carateriza. Todos menos…Mirabel. Contudo, como não podia deixar de ser, quando descobre que os poderes da sua família e a sua “casita” se encontram em risco de ruir, é a aparentemente desprovida de magia, Mirabel, que terá de salvar o dia.

Mirabel é uma jovem generosa, bem-disposta e extremamente dedicada à sua família, não obstante a ocasional reprovação por parte da Matriarca, a sua avó, que não aceita o facto de Mirabel não ter recebido qualquer poder na sua cerimónia. Quanto à viagem da nossa protagonista, a quem Stephanie Beatriz empresta a voz de forma impecável, irá levá-la não para longe, como é habitual neste tipo de história, mas antes para o coração da sua família…e para o passado. 

Sem ser uma história particularmente original ou empolgante, “Encanto” é um filme perfeito para ver (e ouvir) em família. Um conto que nos ensina o quão importante é valorizar os pequenos gestos, insignificantes à primeira vista.

ESPECIFICIDADE TÉCNICA – A MÚSICA E A VIBRANTE COR

Encanto
Encanto © Disney

Por muito simples e desprovida de presunção que possa ser a história de “Encanto”, a narrativa dos Madrigal apresenta-se via um belíssimo festim visual. A palete de cores vibrante celebra e ajuda a exacerbar a personalidade exuberante dos membros desta família extraordinária – acentuando, por exemplo, um deslumbrante dom de Isabela, o de criar flores.

Olhando de mais perto, conseguimos perceber que cada personagem tem direito ao seu próprio conjunto de cores. Mirabel pinta-se de cores eléctricas, vibrantes, vivas, tal qual como ela própria. Antonio, o jovem recentemente capaz de falar com os animais, tem uma combinação de cores em tons neutros e evocativos da natureza, a excêntrica e perfeita Isabela domina com o seu aspeto etéreo e tons florais e acetinados. Luisa, a irmã super-forte, tem belos azuis que acentuam a sua força e determinação e o casal Pepa e Félix, sempre animados e capazes de ajudar a corar o mundo, transpiram tons luminosos que refletem o seu efeito no mundo.

Encanto
A perfeita Isabela em tons florais e harmoniosos © The Walt Disney Studios

 

Musicalmente, é também onde “Encanto” exibe de forma mais nítida as suas valências. Depois de ter musicado a meias “Moana”, o vencedor dos prémios Emmy®, GRAMMY® e Tony Award®, Lin-Manuel Miranda, acaba um ano muito ocupado em altas. No final de 2020, a versão ao vivo do seu musical “Hamilton” chegou à Disney+ e a partir daí foi sempre a subir – outro dos seus musicais originais, “Ao Ritmo de Washington Heights”, chegou às salas de cinema, musicou e deu voz ao protagonista de uma outra obra de animação, “Vivo” (Netflix) e realizou ainda a sua primeira obra – “Tick, Tick, Boom!”, uma homenagem sentida ao teatro musical.

Lin-Manuel Miranda não falha e apresenta-nos uma vez mais uma banda-sonora que eleva a obra que aqui nos é apresentada. Não fosse este latino em Hollywood um importante defensor das matérias de representação, e não estivesse a música latina nas suas veias, restam poucas dúvidas em relação a Miranda ser o nome perfeito para musicar “Encanto”.

A vibrante cultura colombiana é aqui respeitada e honrada pelo compositor, que escreve 8 das músicas, em conjunto com Germaine Franco (a primeira compositora latina convidada a integrar a Academia que entrega os Óscares), encarregue dos restantes temas. Os momentos musicais são essenciais e mostram que as obras da Disney são por normas mais ricas quando vivem da harmonia musical. Prova disso é o contagiante número musical de abertura,  “The Family Madrigal”, que nos apresenta os membros da família de uma forma inventiva e que ficaria de certo aquém meramente através da palavra falada.
Muitos dos restantes temas são a perfeita forma de introduzir os pensamentos mais íntimos das personagens, por exemplo “Waiting on a Miracle” (Lin-Manuel Miranda) permite-nos compreender como sofre Mirabel em silêncio por não ter um dom mágico. Adicionalmente, esta música honra as influências colombianas que certamente serão reconhecidas pelos membros desta cultura.
Por sua parte, a animadíssima batida de “Surface Pressure” mostra-nos o quão sobrecarregada está Luisa Madrigal, “We Don’t Talk about Bruno” aproxima-nos das superstições da Família e instaura mistério e curiosidade no espectador e por aí adiante…
A música criada pela dupla Miranda-Franco é contagiante, rica, diversificada e o elemento mais célebre desta obra animada que promete introduzir alguma magia no Natal de 2021.

 

TRAILER | ENCANTO TRANSPORTA-NOS PARA UMA AVENTURA MUSICAL NA COLÔMBIA

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A nova obra de animação da Disney, elegível para os Óscares de 2022, estreou nos cinemas nacionais pela mão da NOS Audiovisuais e marca presença na Disney+ já a 24 de dezembro. 

Encanto, em análise
Encanto

Movie title: Encanto

Movie description: Os Madrigais são uma grande e alegre família que vive numa casa mágica em Encanto, uma localidade rodeada por belas montanhas da Colômbia. A habitação, que possui um encantamento, concedeu um dom especial a cada um dos seus habitantes. A única excepção é Mirabel, uma menina que nunca superou o desgosto de não possuir em si nada que a distinga do comum dos mortais. Mas quando a casa começa a perder a magia e, consequentemente, a enfraquecer os poderes de toda a família, Mirabel dá-se conta de que ela pode ser a única salvação.

Date published: 24 de December de 2021

Country: EUA

Duration: 102'

Director(s): Jared Bush, Byron Howard, Charise Castro Smith

Actor(s): Stephanie Beatriz, María Cecilia Botero, John Leguizamo,

Genre: Animação , Musical

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  • Maggie Silva - 78
  • Cláudio Alves - 75
77

Conclusão

“Encanto” é uma história simples e bela sobre a importância da aceitação, compreensão e limitações de cada um de nós. Uma lição muito humana, enriquecida com cores vibrantes e música belíssima.

Pros

  • A Banda-Sonora e as irreprensíveis músicas criadas por dois artistas latinos de alto gabarito;
  • A mensagem bastante simples, direta e acima de tudo importante;
  • As cores vibrantes que prestam homenagem à cultura colombiana;
  • A integração de um elenco latino genuíno;

Cons

  • Excessiva simplicidade de enredo;
  • Mais algumas músicas não fariam mal, ao fim de contas a música é o ponto alto da narrativa;
  • Desenlace algo trapalhão e que deixa algo a desejar;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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