Andrew Garfield no seu primeiro musical, uma biografia meta| ©Netflix

Tick, Tick… Boom!, em análise

“Tick, Tick… Boom!” estreou na Netflix no dia 19 de novembro de 2021. O filme lança Lin-Manuel Miranda, o criador de musicais célebres e premiados como “Hamilton” ou “In the Heights”, nas lides da realização. Andrew Garfield, por sua parte, estreia-se com um “bang” no teatro musical.

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Depois de revolucionar o teatro musical, contando a história dos povos latinos imigrados nos EUA, depois de manipular a própria História com “H” grande e narrar a fundação dos Estados Unidos através do Rap e da defesa da diversidade racial, depois de conceber belas bandas-sonoras para filmes infantis de vários estúdios, da Disney à Sony, eis que Lin-Manuel Miranda, uma figura importantíssima à frente e atrás das câmaras, finalmente realiza a sua primeira longa-metragem, um sonho que almejava há muito alcançar.

A narrativa, biográfica e meta, é a adaptação do musical autobiográfico de Jonathan Larson, uma outra figura fulcral para a Broadway. O musical “Tick Tick …Boom!”!” foi uma plataforma que Larson encontrou para contar a sua história e explorar, de forma musicada, a sua jornada de construção criativa. Assim, não podia haver projeto mais adequado para Miranda se lançar na cadeira da realização. Tal como Lin-Manuel revolucionou a sonoridade da Broadway com o seu “Hamilton”, também Larson havia revolucionado o que poderia ser considerado teatro musical com o seu inclusivo “Rent”, nos anos 1990.

Infelizmente, Larson faleceu ainda na casa dos 30, vítima de uma aneurisma, precisamente na noite em que “Rent” teve a sua primeira apresentação pública. Este filme, “Tick Tick …Boom!”, capta o sentimento de urgência que permeava a existência deste músico e autor. Jonathan Larson, à beira dos 30 anos de idade neste ponto da sua vida, desconhecia que a sua morte estivesse tão próxima mas, ainda assim, havia um dinamismo e uma sede de vencer imensas que transpareciam no seu exímio trabalho. Uma sede de honrar a sua Arte e de produzir conteúdo distinto e capaz de valorizar o género que tanto amava, com tanto fervor.

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De um génio da Broadway para outro, esta é uma carta de amor à forma de arte assinada por Miranda e dedicada a Larson. Aqui homenageado e recordado, os trajetos criativos dos dois autores vêem-se entrelaçados e a sua expressão corporizada pelo trabalho excelente de Andrew Garfield. Lin-Manuel Miranda sabia que queria Garfield depois de o ver representar na Broadway a peça de 8 horas “Angels in America”, pela qual Garfield venceu inclusive um Tony. Sem saber se Garfield seria ou não capaz de cantar, o realizador abordou-o no sentido de descobrir se ele poderia ser o seu Jonathan.

Claro que a versatilidade de Garfield, de papéis tão díspares quanto “Silêncio”, “Nunca me Deixes”, “Mainstream”, “O Mistério de Silver Lake” ou tantos outros memoráveis, era já mais do que conhecida. Todavia, a aptidão de Andrew para o drama nada garantia que fosse capaz de brilhar no registo musical. E embora a sua voz não seja a mais impressionante em Hollywood, a energia que entregou ao papel sem dúvida que compensa quaisquer limitações vocais.

tick, tick boom! netflix
Uma reprodução exímia do antigo local de trabalho de Jonathan Larson| ©Netflix

 

Na narrativa acompanhamos o jovem Jon, que trabalha num diner típico norte-americano à medida que sonha com a sua grande oportunidade de finalmente brilhar na Broadway. Numa encruzilhada, Jon tem dificuldade em concentrar-se em finalizar uma última música que falta no segundo ato do seu musical futurista, uma vez que à sua volta as dinâmicas pessoais são fortemente impactadas: a sua namorada acabou de aceitar um emprego fora da cidade e os seus amigos próximos são vitimizados pela epidemia da SIDA, a qual é brutalmente mal gerida pelas forças de autoridade e políticas. Este tema será recorrente ao longo da história, tendo Jonathan Larson sido um importante aliado da comunidade LGBTIQA+ ( expondo a sua luta nas suas obras musicais) e, por isso, nunca estas referências poderiam estar ausentes ou minimizadas.

O tempo é essencial neste “Tick, Tick …Boom!” e existe uma sensação de contagem decrescente, neste caso em primeiro plano para a inofensiva crise existencial dos 30, tão frequente nas mais recentes gerações. Não obstante, o filme parece falar de uma urgência superior, a consciência da nossa mortalidade. Entre a homenagem e a premonição, “Tick, Tick …Boom!” não deixa de se apresentar como uma obra animada…não fosse um musical.

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Destaque para um momento musical particularmente bem conseguido, em que Andrew Garfield e Vanessa Hudgens – num papel pequeno mas com alguma pertinência musical –  cantam acerca dos desentendimentos que se encontram na base do final de relações. Por outro lado, evidencia-se também a cena no diner, em que Garfield canta acerca de temáticas banais como o brunch de domingo, rodeado de vários astros da Broadway, nomeadamente algumas das estrelas do elenco original do musical “Hamilton”. Este número acaba por ser grandioso, não obstante a banalidade evidente e propositada das suas temáticas.

Tal e qual como o seu criador, “Tick Tick …Boom!” não é um filme onde exista pretensão, mas antes apenas muito amor e respeito para com a arte e o artista. De Robin de Jesús, passando por Bradley Whitford  ou Joshua Henry  ou ainda MJ Rodriguez, o que não falta no elenco são intérpretes nomeados a prémios televisivos e também referentes ao teatro musical.

“Tick, Tick …Boom!” estreia 25 anos depois da abertura de “Rent” e da morte prematura de Jonathan Larson. Esta coincidência é tudo menos acidental, permitindo, da forma mais pura e desprovida de artifício, homenagear esta figura tão importante no mundo da Broadway. Se “”Tick, Tick …Boom!” é um filme prazeroso para qualquer um, é imperdível para os fãs mais acérrimos do teatro musical.

 

TICK,TICK..BOOM! | JÁ CHEGOU À NETFLIX PORTUGAL 

Tick Tick ...Boom!, em análise
Poster tick, tick boom!

Movie title: Tick Tick ...Boom!

Movie description: Prestes a fazer 30 anos, um promissor compositor de teatro lida com o amor, a amizade e a pressão para criar uma obra-prima antes que seja demasiado tarde.

Date published: 23 de November de 2021

Country: EUA

Duration: 119'

Director(s): Lin-Manuel Miranda

Actor(s): Andrew Garfield, Vanessa Hudgens, Alexandra Shipp

Genre: Musical, Drama, Biografia

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  • Maggie Silva - 80
  • Manuel São Bento - 90
  • Marta Kong Nunes - 85
  • Cláudio Alves - 65
80

CONCLUSÃO

“Tick, Tick…Boom!” é uma bonita homenagem a um génio musical da Broadway que nos abandonou cedo demais. É também uma meta-reflexão acerca da própria natureza do processo criativo.

Pros

  • A energia contagiante de Andrew Garfield no papel de Jonathan Larson, sempre camaleónico e entregue ao seu papel de alma e coração;
  • Os números musicais – simples mas belos, desprovidos de artefactos e centrados na performance musical;
  • O valor da homenagem a Jonathan Larson;

Cons

  • Garfield é muito eficaz enquanto protagonista, mas ainda assim a sua voz não é a mais bela de Hollywood – “desenrasca”;
  • O filme foca-se apenas num momento muito específico no tempo – teria sido interessante descobrir mais acerca da vida de Larson. Sentimos que a conclusão é algo anti-climática ou pelo menos incompleta;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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