"La Fracture" | © FEST

FEST ’21 | La Fracture, em análise

Estreado em competição no Festival de Cannes, “La Fracture” de Catherine Corsini chega agora a Portugal através do FEST, onde marcou a abertura das celebrações. Esse festival de Espinho tem este ano uma estrondosa programação e a Magazine HD fará cobertura do evento.

O título de “La Fracture” tem dois significados no contexto da narrativa. Existe uma fratura literal, ossos quebrados que forçam carne e pele em configurações hediondas. Contudo, mais importante que essa maladia física, há a fratura da sociedade francesa em tempos de crispação política. A realizadora Catherine Corsini aqui se propõe a comentar o estado atual de França através da interseção destas duas feridas, explorando as vicissitudes cómicas da premissa assim como seu lado mais dramático. Entre a farsa e a crítica social, “La Fracture” não descura pela falta de ambição ao nível do tema ou do tom.

Em termos textuais, “La Fracture” divide as suas atenções entre três protagonistas até sua eventual convergência nos atos finais da história. Contudo, mais importante que o engenho estrutural é o magnetismo da estrela de cinema e, no panorama europeu, Valeria Bruni Tedeschi é uma estrela fulminante. Sua presença cómica desequilibra o jogo e eleva a personagem ao nível de suprassuma protagonista. Ela é Raphaëlle, mais conhecida por Raf, uma artista lésbica que entra no filme em plena exibição do seu egoísmo e desespero.

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Encontramo-la na cama com sua esposa, Julie. Enquanto a outra mulher dorme, Raf vomita todo seu suplício emocional em mensagens de telemóvel que jamais recebem resposta. Acontece que o casal se está a separar e, em fúria, a artista bombardeia o telemóvel de Julie mesmo quando esta está a tentar dormir ao seu lado. Trata-se de um cenário absurdo que nos expõe, logo de início, à instabilidade de Raf, seu egocentrismo, sua incapacidade para se por no lugar das outras pessoas. Todos estes elementos formam uma personalidade execrável, uma presença que perturba mais do que deleita.

Contudo, Tedeschi injeta todo o seu carisma no papel, tornando a figura num mecanismo cómico ao invés de um ponto de irritação. Tanto Raf e Julie se deixam consumir pela relação putrefacta que as suas atenções raramente recaem sobre o estado da Nação. Ao mesmo tempo que Raf persegue a esposa por ruas parisienses, uma manifestação dos coletes amarelos acontece a uns parcos quarteirões. Ambos os acontecimentos resultam num incidente de corpos mortificados. No melodrama doméstico, Raf escorrega numa poça de vomitado e cai na rua, partindo o braço instantaneamente.

Na manifestação, Yann, um camionista ativista, é atacado pela polícia, sua perna ferida durante o tumulto. Os dois fios narrativos entrelaçam-se nas urgências e aí se encontram com a outra figura central de “La fracture”. Kim é uma enfermeira que tenta suportar cargas de trabalho ilegais, enquanto, em casa, seu bebé sofre de febres altas. É uma situação desesperante, mas ela lá aguenta a pressão com um sorriso e, no meio do caos despoletado pela manifestação e consequente resposta policial, parece ser das poucas pessoas que exibe solidariedade e recusa recolher nomes de pacientes para entregar às autoridades.

 Verdade seja dita, Kim é a personagem mais interessante de “La Fracture” e o filme seria bem melhor se centrasse somente a sua perspetiva. Enfim, essa realidade não existe e temos de nos contentar com “La fracture” que Corsini assinou. O advento de um cocktail de analgésicos e a chegada tardia de Julie às urgências estabelece o perfeito contexto para uma comédia negra. O hospital sem meios para tratar tamanha carga de pacientes é um cenário que nos dá calafrios em tempos de pandemia, mas também se trata de algo tragicamente vulgar.

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No contexto da fita, o hospital torna-se num palco para a colisão de histórias e classes, melodrama de caras com cinema político, burguesia em discussão com as classes trabalhadoras. Assim, as personagens são arquétipos e sinédoques, símbolos de algo maior e seu conflito é metáfora para a França contemporânea. Nem a direção ou o texto de Corsini contradizem essas conclusões e cabe assim aos atores encontrar humanidade no simbolismo. Tedeschi é magnética, mas não tenta limar as arestas de Raf. Nas mãos da atriz, a artista é constante fonte de entretenimento ao mesmo tempo que suscita alguma revulsão no espetador.

Pio Marmaï interpreta Yann como outra face na moeda de Raf. Se ela se agarra à esperança de um futuro risonho para a relação acabada, também ele se deixa inebriar por desejos de mudança social. No píncaro da inocência, ele fala em como acreditava plenamente que Macron fosse ouvir os manifestantes, que o presidente iria aos Campos Elísios para ouvir o descontentamento do populus. Tais crenças despertam o gozo das duas mulheres burguesas, mas, em boa moda de filme inspirador, lá as duas fações encontram equilíbrio amistoso. Há um idealismo cru no trabalho de Marmaï que traz complexidade à caricatura.

Por seu lado, Marina Foïs rouba o holofote como Julie, destilando sua revolta amorosa com exaustão tangível. Percebemos quanto estas discussões com a esposa se têm repetido ao longo dos anos, quão cansada ela está, mas também a insularidade da sua pessoa. Quando encontra um antigo colega de escola nas urgências, Julie é confrontada com um apelo à solidariedade e são as suas reações à violência policial que mais nos ficam na memória. O olhar atónito quando o gás lacrimogénio se infiltra pelo hospital é um dos pontos altos de um filme que funciona melhor quando aceita ser tragédia ao invés da comédia.

Aïssatou Diallo Sagna é Kim e seu trabalho é mais reativo, em parte porque não é uma atriz profissional e sim uma enfermeira da vida real. Consequentemente, é também o mais realista do elenco, uma âncora de autenticidade que salienta as intenções humanistas de Corsini e companhia. As atenções repartidas da enfermeira que tenta salvar vidas enquanto seu bebé sofre é um espetáculo de tensão astronómica, por exemplo. A qualidade deste fio narrativo e interpretativo acaba por trair a consistência da película, no entanto. A complexidade de Kim contrasta tanto com as dicotomias simplistas, que as torna impossíveis de ignorar.

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Mesmo assim, apesar de as muitas fragilidades de “La Fracture” serem clarividentes, o impacto geral persiste. Por muito que Corsini aponte para as potenciais afiliações dos coletes amarelos aos aproveitamentos políticos da extrema direita, seu coração idealista está claramente do lado dos manifestantes. Mesmo quando salienta a estupidez de alguns e a folia de outros, a repressão policial é o principal inimigo na mira da realizadora e tal foco ajuda a dar consistência ao filme enquanto objeto político. Dolorosa e hilariante, sôfrega e simplista, “La fracture” transborda boas ideias, mas há muito que se perde por entre seu caos tonal, suas quedas em humor óbvio e política binária. Pode não ser uma fotografia perfeita de França na atualidade, mas mostra-nos bem o mundo que Corsini vê quando pondera o estado da nação.

La Fracture, em análise
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Movie title: La Fracture

Date published: 4 de October de 2021

Director(s): Catherine Corsini

Actor(s): Valeria Bruni Tedeschi, Marina Foïs, Pio Marmaï, Aïssatou Diallo Sagna, Jean-Louis Coulloc'h, Camille Sansterre, Marin Laurens, Caroline Estremo, Ferdinand Perez

Genre: Drama, 2021, 98 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

“La Fracture” mostra-nos uma vertente do cinema francês enquanto espelho distorcido da atualidade. Catherine Corsini tenta tecer uma tapeçaria de solidariedade entre classes através de uma exposição crua dos seus conflitos em tempos de manifestação e casamentos desfeitos. O elenco dá muita vida ao filme, mas o texto nem sempre ajuda os intérpretes.

O MELHOR: Kim, sua história, sua resiliência e a presença de Aïssatou Diallo Sagna nesse papel, trazendo uma boa dose de realidade à paródia cruel de “La fracture”.

O PIOR: O final demasiado risonho de uns em comparação com a desgraça operática de outros. Chega a um certo ponto em que o guião se rende em demasia às coincidências, ao jogo do destino cinematográfico e suas vertentes mais Dickensianas. No binário do artifício e do real, esta crítica social não sabe bem em que tonalidade deve apostar.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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