QueerLisboa ’21 | Considerações finais

O QueerLisboa já terminou há uma semana, mas só agora refletimos sobre a mais recente edição do festival lisboeta. Entre vencedores e trabalhos ignorados pelo júri, houve grande variedade na seleção, mas nota-se uma melancolia temática transversal a muitos títulos.

A 25ª edição do QueerLisboa terminou na noite do passado dia 25 de Setembro. Durante a cerimónia de encerramento foram atribuídos vários prémios, tanto por parte dos júris do festival assim como pelo voto do público. Na competição de longas-metragens de ficção, os jurados foram a cineasta Fátima Ribeiro, a atriz Jenny Larrue e o ator Manuel Moreira. Seu prémio para Melhor Filme foi dado a “Minyan” de Eric Steele. Sobre a sua escolha, o júri disse: “Minyan é um objeto complexo e ao mesmo tempo um exercício prodigioso de subtileza e coerência, que discorre sobre as diversas formas de pertença e identificação. A estreia de Eric Steel nas longas-metragens de ficção é certeira e elegante e a performance contida de Samuel H. Levine transporta-nos para um lugar de profunda empatia e comoção”.

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Além dessa consagração do filme americano, o júri também fez uma menção honrosa. O recipiente de tal homenagem foi “Até o Fim” de Glenda Nicácio e Ary Rosa. O júri disse isto: “Sob uma aparente simplicidade técnica e partindo de uma estrutura narrativa mais teatral que cinematográfica, “Até o Fim” experimenta um retrato íntimo e sincero sobre a solidão, o desencontro e a superação de quatro mulheres negras marcadas pelo abuso, pela homofobia, transfobia e machismo. É um documento tocante e uma reflexão sincera”. Temos de concordar com estas conclusões, mesmo que a fita se afigure mais como uma montra para os atores do que como um objeto de expressão audiovisual.

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“Até o Fim” | © QueerLisboa

Mesmo assim, aplaudimos o elenco de “Até o Fim” e o modo como a montagem de Poliana Costa e Thacle de Souza contraria a teatralidade do exercício e encontra potência cinematográfica com uso de split-screens. Na mesma competição, o público votou em “La Nave del Olvido” como sua escolha de Melhor Filme. Foi, portanto, um concurso dominado pelo cinema das Américas, com os EUA, o Brasil e o Chile a levarem prémios. Na competição de longas-metragens documentais, o fado foi quase igual, não fosse a menção especial para um trabalho espanhol. Nessa secção, o júri foi composto pela presidente da ILGA Portugal Ana Aresta, a jornalista Manuela Silva Reis e um dos codiretores do DocLisboa, Miguel Ribeiro.

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O galardão para Melhor Documentário assim foi entregue a “Las Flores de la Noche” dos mexicanos Eduardo Esquivel e Omar Robles. Sobre sua escolha, o júri declarou: “As construções sociais estão intrinsecamente ligadas às geografias políticas, económicas e às conceções sobre ser-se e viver-se enquanto pessoa LGBTI. De Mezcala ao Queer Lisboa, o documentário “Las Flores de la Noche” transporta-nos para uma realidade fascinante na estética e dura na constatação do quotidiano, enquanto nos recorda a força de transformação individual e comunitária que reside nos corpos, nas nossas identidades, nos nossos desígnios de liberdade”.

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“Sedimentos” | © QueerLisboa

A Menção Especial foi para “Sedimentos” de Adrián Silvestre. “Num gesto que se instala pela via da proximidade, o íntimo e o político revelam-se. “Sedimentos” é um filme que nos traz as disputas que antecedem a construção do discurso que alavanca a luta que é urgente e permanente. Tocou-nos encontrar este registo num espaço que é tão terno quanto real catalisador de utopias”. Para nós, o filme vale sobretudo pela relação que cria entre o individuo e a paisagem envolvente, mesclando o pessoal e o geológico, o pequeno e o cósmico em união gloriosa. A fotografia de Laura Herrero Garvín é especialmente esplendorosa. Em termos das audiências, o prémio do público foi para “Limiar” da brasileira Coraci Ruiz.

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A competição Queer Art tende a celebrar propostas mais arriscadas, cinema que se aproxima do experimental e propõe novas visões do que é possível fazer em grande ecrã. A artista Dani d’Emilia e o cineasta Tomás Baltazar escolheram entregar o prémio máximo desta secção a “Vaga Carne” da equipa brasileira de Ricardo Alves Jr. e Grace Passô. Sua justificação: “Um filme que nos convoca a uma experiência visceral de forças incorpóreas que co-movem as possibilidades de relação através e para além do re-conhecimento. Um delicado exercício de transposição performativa de uma peça de teatro para uma obra cinematográfica, na qual todos os elementos da sua realização contribuem para que seja visível e sensível o esforço que é preciso fazermos para que algo além do entendimento racional seja reconhecível pela experiência humana, tão pautada tanto pela potência quanto pelas limitações da matéria-corpo, da visualidade e da linguagem”.

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“Fou de bassan” | © QueerLisboa

Fora dessas três competições de longas-metragens, a cerimónia de encerramento foi dominada pela celebração do cinema em miniatura. Na competição de curtas-metragens, o realizador Ricardo Branco, a atriz Cleo Diária e a crítica Teresa Vieira deram o prémio a “Fou de bassan”, realizado por Yann Gonzalez, cara bem conhecida do QueerLisboa. A decisão foi feita “Pela mise en scène sedutora de um labirinto de encontros fugazes, que estabelece um novo olhar, rompendo com os arquétipos do expectável e reescrevendo, assim, a história do cinema”. França também conquistou o voto do público, com “Dustin” de Naïla Guiget. Foi ainda dada uma menção especial a “Hi, Sweety” da argentina Celeste Prezioso “Pelo acto de amor da realizadora com a sua personagem e pela forma como contou a sua história, convidando-nos a entrar num espaço íntimo de partilha”.

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A competição In My Shorts, por sua vez, foca-se em curtas-metragens produzidas num âmbito académico, celebrando o trabalho de vários estudantes de cinema na Europa. O júri, neste caso, deu o seu maior prémio a “Scum Mutation” de Ov. Segundo os jurados, este é “Um manifesto urgente com um dispositivo cénico ousado e disruptivo que não tem medo de tomar uma posição e que implanta uma ideia de revolução através da viagem imagética e sonora que nos propõe, abraçando-nos e atiçando-nos ao mesmo tempo”. A menção especial foi para “Jo” de Ann Sopie Wieder “Por encontrar um filme num testemunho tão valioso de um protagonista que recorre ao gesto fílmico como uma forma de sobrevivência”.

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“The Watermelon Woman” | © QueerLisboa

Como sempre, a equipa do QueerLisboa ofereceu-nos uma primorosa programação de cinema sobre e feito por membros da comunidade LGBT+. Contudo, a coleção de fitas de 2021 deixou-nos com uma impressão melancólica. Em edições anteriores, o júbilo era a força regente e transversal aos muitos filmes, encontrando força na celebração das vidas queer que, só por existirem, representam um ato político. Este ano, pareceu-nos haver menos celebração sensualista do corpo e do desejo, em prol de explorações mais meditativas sobre o sentido de perda, a dor da comunidade e do indivíduo. “The Watermelon Woman” de Cheryl Dunne marcou o encerramento com um contra-argumento mais virado para a comédia mordaz, mas até aí o trauma de gerações passadas faz-se sentir pelas lacunas da história e da representação, pelas ausências e vazios. Essa mesma dimensão fez-se sentir em dois dos melhores filmes que, apesar da sua qualidade, acabaram o festival sem um único prémio.

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Referimo-nos a “Madalena” de Madiano Marcheti, onde uma povoação brasileira é palco para a descoberta do cadáver de uma mulher trans. Dessa violência hedionda, estilhaçam-se laços e iluminam-se várias facetas do engenho social, desde a repressão envolvida na manutenção do status quo até à resiliência dolorosa que os marginalizados têm que empregar para sobreviver. “Fin de siglo” de Lucio Castro é menos tenebroso em temática, mas há uma forte noção de perda, de oportunidades perdidas. Fazendo lembrar a trilogia que Linklater fez com Ethan Hawke e Julie Delpy, assim como os jogos de vida atuada que Kiarostami explorou em “Cópia Certificada”, este filme argentino é um poderoso retrato de dois encontros, separados por duas décadas, e muita história de vida. O melhor é que, por entre sua reflexão, ainda encontra tempo para explorar o prazer, a felicidade cuja ausência magoa.

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Por fim, convém assinalar que esta edição do festival foi ainda feita com as muitas restrições provocadas pela pandemia do COVID-19. Contudo, os organizadores conseguiram conceber uma celebração fantástica do cinema queer, com mais de 40 convidados internacionais e um sentido imenso de comunidade unida. Quiçá devido à sede por cultura em resposta às limitações dos últimos anos, as audiências do QueerLisboa subiram, mesmo considerando as lotações a 50% nas salas. Houve um acréscimo de cerca de 5000 espetadores, fazendo do festival uma história de sucesso. Desejamos que o futuro seja ainda mais risonho, sendo este um dos mais preciosos eventos cinematográficos de Lisboa.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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